Dólares, passaporte e sem fila para vacina: turistas baianos vão se imunizar fora do país

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08.05.2021, 06:59:00
(Imagem: Morgana Lima/ Estúdio Grida)

Dólares, passaporte e sem fila para vacina: turistas baianos vão se imunizar fora do país

Medo de faltar dose ou de demora para imunização leva brasileiros aos EUA; gasto mínimo é de R$ 14 mil

Oito horas de voo em média, sem contar com a troca de aeronave, em São Paulo. Por ter cidadania americana e os filhos morarem na Flórida, não foi necessário cumprir o isolamento de 14 dias em outro país, antes de entrar nos Estados Unidos. No final de março, a empresária baiana Flávia Avena, de 45 anos, desembarcou em um sábado e logo na segunda-feira tomou a vacina da Pfizer, em menos de 1h30. A segunda dose, 20 dias depois, não levou nem 10 minutos. Alívio. Finalmente, imunizada. 

“Fui comemorar meu aniversário e tomei a vacina, já que não havia previsão de quando minha faixa etária iria chegar na fila de imunização aqui no Brasil. Foi tudo muito rápido. Já completei 15 dias que tomei a 2ª dose e não abro mão de nenhum cuidado. Mantenho o distanciamento, uso máscara, higienizo as mãos”, afirma. 

Como Flávia pegou um voo direto para Miami, ela conta que a ida foi tranquila. Já na volta para o Brasil, chamou atenção o movimento nos aeroportos: “Guarulhos (SP) estava um formigueiro. Me chocou bastante. Vi famílias inteiras sentando em mesas que foram interditadas para manter o distanciamento, sem a mínima preocupação com a pandemia”.

Flávia é baiana, mas os filhos moram nos EUA (Foto: Alô Alô Bahia)

A vacinação nos Estados Unidos está atraindo os brasileiros pela pouca burocracia e a praticidade de se imunizar na farmácia ou em uma rede de supermercados da Flórida - como mostrou a coluna Alô Alô, assinada por Rafael Freitas. No Brasil, faltam insumos, vacinas, e a fila não anda. Porém, a pandemia e novas variantes do coronavírus avançam. A rejeição da vacina russa Sputnik V pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), na última semana, é mais um fator que só aumenta o medo coletivo de que a vacina não chegue para todos em tempo hábil e movimenta o mercado do turismo da vacina.

Essa incerteza foi um dos principais motivos que fizeram Flávia cruzar o continente em busca das doses. Na Flórida, ela poderia escolher, inclusive, o imunizante: se o da Pfizer (21 dias de intervalo entre as doses), Johnson & Johnson (dose única) ou Moderna (28 dias de intervalo). Desde o final de abril, a vacina foi habilitada para todos os maiores de 16 anos sem exigência de comprovação de residência no estado, documento que foi necessário no início do ano, quando a demanda era mais alta. 

A partir de segunda-feira (10), Miami disponibilizará vacina contra a covid no aeroporto, e Nova York tem planos para começar a oferecê-la a turistas em pontos da cidade, como o Central Park e a Times Square. Nos EUA, como um todo, 45% da população está imunizada. 

Flávia também é diretora de vendas e sócia da agência Tessatour Consultores de Viagens e Turismo, em Salvador. Ela enxerga oportunidade no aumento da procura por pacotes de pessoas que estão indo para fora em busca da vacina, sobretudo, para quem vai precisar passar a ‘quarentena’ em algum país próximo antes de conseguir entrar. Desde o ano passado, os EUA mantêm restrição à entrada direta de brasileiros  para evitar a disseminação do novo coronavírus. Só a partir de agosto, que o país vai começar a permitir que estudantes matriculados em instituições de ensino norte-americanas desembarquem em voos diretos sem necessidade do isolamento.

Na agência, a procura dobrou, principalmente, de pacotes para cumprir a ‘quarentena’ no México – destino preferido para aguardar os 14 dias. Mas países como o Panamá e República Dominicana também estão na rota dos turistas de vacina.

“Com essa facilidade de vacinação lá, eu já fechei nos últimos dias uma família de seis pessoas e tenho que dar, ainda essa semana,  o retorno para outra [família] com cinco integrantes. São grupos grandes, principalmente de casais na faixa de 50 anos mais os filhos”.

O caminho até a vacina custa em média R$ 14 mil por pessoa, com direito à passagem em classe econômica e hospedagem – pelo menos até o México. Caso esse cliente não tenha moradia ou onde ficar na Flórida, o valor dobra com o incremento do trecho. “O investimento é alto. É para cliente classe A. Se essa pessoa tiver que arcar com os custos de hospedagem também nos Estados Unidos, ela vai gastar, em média, o que investiu para chegar até o México”, calcula. A depender da vacina escolhida e do tempo que o turista for permanecer nos EUA, o custo pode chegar a R$ 30 mil.

A Associação Brasileira de Agências de Viagens, seção Bahia (Abav-BA), que representa 135 empresas do setor no estado, ainda não tem dados consolidados sobre esse movimento de procura, porém, o vice-presidente da entidade, Jorge Pinto, reconhece esse interesse do turismo com intenção de se vacinar fora do Brasil. “É um movimento muito novo ainda, mas percebemos  uma procura lenta e  gradual”. Presidente da Abav-BA, Ângela Carvalho pontua que a barreira de cumprir o isolamento em outro país e do custo da viagem interferem na demanda.

“Temos clientes que pretendem ir. Os que foram ainda estão lá. O volume só não é maior por conta desses impeditivos”, complementa. 


A reportagem procurou clientes que buscaram agências, mas muitos preferiram não expor a motivação da viagem. Para o professor associado do Institute of International Relations (IRI) e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), Kai Michael Kenkel, essa migração contempla uma camada muito específica da população brasileira - uma minoria que possui os meios de custear uma viagem internacional que dure o tempo entre as duas doses da vacina.

Kenkel aponta que outro destino mais próximo, aqui mesmo na América Latina, que deve se firmar no roteiro desses turistas de vacina é o Uruguai. 

“Um fator que facilita o movimento é a retomada das conexões aéreas para, por exemplo, os EUA, que já é resultado do efeito da quantidade de vacinas que foram aplicadas pelo programa público de lá. Já o Uruguai, é outro país onde há uma boa cobertura do sistema de vacinação e brasileiros da região fronteiriça têm conseguido acessar o serviço”. 

Migração 
Baianos que moram fora do país também assistem a procura nos grupos de redes sociais de brasileiros buscando informações para fazer a mesma viagem. É o que afirma a relações públicas e integrante de um desses grupos de Whatsapp, Tattiana Broder, de 45 anos. Ela vive em Winter Garden, na Flórida, desde 2016.  

“Quando já estávamos na faixa dos 40 anos, aí em Salvador a faixa de imunização não tinha chegado nem aos 65 anos. Aqui, há postos em centros comunitários, igrejas, centro de convenções, escolas de ensino médio e até na biblioteca. Nos grupos, vejo muita gente manifestando a vontade de vir, pedindo informações de hospedagem e sobre os locais onde a vacina está sendo aplicada”, conta. 

Há 5 anos morando no estado americano, a empresária Silvana Adami,  41 anos, tomou a vacina assim que o imunizante ficou disponível. Entretanto, sua mãe, de 64 anos, que mora em Ilhéus (BA), ainda aguarda a segunda dose da Coronavac que está em falta. 

“Fiquei muito emocionada por ter a oportunidade de me vacinar aqui, apesar da grande tristeza e preocupação com o Brasil. Meu pai de 74 anos já tomou as duas doses. Minha mãe aguarda a segunda, sem previsão. Tenho amigos do Rio de Janeiro que estão chegando com dois filhos. Hoje, em Orlando, a vida está quase normal”.

Tendência 
Muito antes de a maioria dos brasileiros se vacinarem, a cantora Anitta está imunizada. O pai dela, Mauro Machado também tomou a vacina em Miami. Outros artistas, entre eles Nivea Stelmann, Bella Falconi, Kiko do KLB, Leandro Hassum e Léo Fuchs registraram em suas redes sociais o momento da vacinação nos Estados Unidos. Junto com o México, o Brasil é o país que mais tem colaborado com o turismo de vacina, conforme destaca o advogado de imigração e fundador da AG Immigration, Felipe Alexandre.

Segundo o especialista, por mais que seja compreensível que todas as pessoas queiram se proteger da pandemia, existe aí um grande debate sobre o turismo de vacinas. “Se por um lado, não há restrição ou punição jurídica para quem sai de outra cidade ou país para se vacinar nos EUA, por outro, há de se deparar com a questão ética, já que as pessoas estrangeiras que se vacinam no país estão, em teoria, fazendo antes de moradores do seu lugar de origem”.

A solução para o impasse está na colaboração de países com doses de sobra, em ajudar outros com maior dificuldade na imunização em massa. “Os Estados Unidos estão se mobilizando para enviar vacinas para a comunidade internacional, especialmente para países que ainda não conseguiram a compra de vacinas por dificuldades econômicas”, acrescenta. 

 Outro cenário que favorece a tendência é estimulado por destinos internacionais que querem usar as doses para atrair visitantes e, de algum modo, recuperar as perdas que a pandemia provocou no setor. Tanto Rússia como Cuba já sinalizaram a possibilidade de imunizar turistas no futuro. As Ilhas Maldivas, no Oceano Índico, já têm até um plano – sem data prevista para lançamento – de garantir a vacina gratuita para quem vier passar férias.  

“Os Emirados Árabes é mais um lugar que anunciou a criação de um pacote luxuoso com passagem de avião, estadia em hotel cinco estrelas e, claro, a aplicação da vacina no país”, analisa.


(Longa) espera 
Ao CORREIO, o Ministério da Saúde disse que não tem dados sobre o número de pessoas que estão saindo daqui para buscar imunização fora. Epidemiologista do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs/Fiocruz) e colaboradora da Rede CoVida, Naiá Ortelan, lembra que o Governo Federal recusou 11 ofertas formais de vacina de fornecimento de imunizantes contra a covid. 

“O Brasil, que até então tinha um histórico de sucesso em relação às campanhas de vacinação – quando erradicou a poliomielite, a rubéola congênita, o tétano neonatal - tornou-se extremamente lento e negligente com a saúde pública”, afirma a pesquisadora.

A vacina já existe, o que falta é um plano de imunização que, efetivamente, chegue de maneira igualitária a todos os lugares do país, pontua Naiá. “Temos vacina, o que não existe é um plano eficiente para vacinar massivamente nossa população”, completa. 

Trânsito aumenta risco de contaminação 
Há casos de turismo de vacina, onde não é preciso cruzar o continente. O movimento também é visto entre pessoas que estão saindo de outros municípios baianos e buscam vacina em Salvador. Foi o que aconteceu com o aposentado Carlos Bonfim, de 63 anos. Morador de Cruz das Almas, ele veio se vacinar em Salvador por dois motivos: o primeiro, é onde mora a sua namorada, Maria do Carmo e o segundo, o fato da sua faixa etária ser contemplada primeiro aqui na capital.

“Juntei o útil ao agradável para vim ficar com meu amor. A diferença não foi nem de tantos dias, mas aqui iria me vacinar primeiro. Quando saí de Cruz, a fila estava em 64 anos. Aí aproveitei logo.  A sensação de estar vacinado é muito boa. A gente fica confiante de que, pelo menos, vai se livrar desse vírus”.  

Carlos mora em Cruz das Almas, só que veio tomar a vacina em Salvador (Foto: Nara Gentil/ CORREIO)

Entretanto, na quinta-feira (6), o Centro de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde da Bahia, órgão que faz parte da Secretaria da Saúde do Estado (Sesab) recomendou que sejam evitadas viagens em 31 cidades baianas, entre elas Salvador, Feira de Santana, Camaçari, Juazeiro, Itabuna, Lauro de Freitas e Ilhéus. A justificativa do órgão tem relação com a identificação de casos das variantes de Manaus e Reino Unido nesses municípios. 

Independente do tipo de transporte, os riscos de contaminação continuam, antes mesmo de chegar até a vacina, como alerta a epidemiologista do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs/Fiocruz) e colaboradora da Rede CoVida, Naiá Ortelan. 

“Rodoviárias e aeroportos são locais fechados com grande aglomeração. Tanto durante a espera, quanto no próprio transporte, não é possível manter o distanciamento. Outra questão importante é o tempo que você ficará nesse espaço fechado, sem troca de ar com o meio externo. Quanto maior a exposição, consequentemente, maior o risco de contrair o SARS-CoV-2”.

Nessas situações, a epidemiologista reforça a necessidade de não abrir mão do uso de máscaras PFF2/N-95 e também do protetor facial (faceshield). “Nesse contexto de maior aglomeração, máscaras de tecido não são indicadas. É importante manter a PFF2 bem ajustada ao rosto. Além disso, higienize as mãos com álcool em gel 70% com frequência”, recomenda a epidemiologista. 

Procuradas, Sesab nem Secretaria Municipal de Saúde de Salvador informaram quantas doses foram direcionadas para pessoas de outros estados ou que vieram se vacinar na capital.

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