Dom Murilo na Bahia: da alergia a camarão ao pedido de menos violência

salvador
12.03.2020, 04:43:00
(Betto Jr./CORREIO)

Dom Murilo na Bahia: da alergia a camarão ao pedido de menos violência

Após nove anos em Salvador, dom Murilo segue para cidade de 8 mil habitantes em Santa Catarina

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Dom Murilo Krieger, 76 anos, deixará em breve de respirar os ares da Bahia, que foi sua morada nos últimos 9 anos desde que, em 2011, assumiu o comando da Arquidiocese de Salvador. Aposentado, após cumprir a regra pedir dispensa ao papa ao completar 75 anos, voltará para Santa Catarina, seu estado de origem. Trocará Salvador, com seus 3 milhões de habitantes, por Corupá que tem pouco mais de 8 mil. Na bagagem levará a vontade - que não poderá cumprir - de comer camarão. Afinal, no período que viveu em terras soteropolitanas desenvolveu alergia ao crustáceo. 

(Foto: Betto Jr./CORREIO)

Para sua alegria, contudo, poderá apreciar muitos doces derivados do coco baiano por onde estiver - uma paixão desenvolvida aqui. Por aqui deixa um legado  maior do que os sabores culinários: a conciliação, a canonização de Santa Dulce e também o desejo de ter feito ainda mais pelo pela preservação do patrimônio das igrejas e um pedido de mais paz. 

Em 2011, quando foi nomeado pelo então papa Bento XVI, Dom Murilo concedeu sua primeira entrevista na Bahia ao CORREIO. À época, a segurança era preocupação. Nesta quarta-feira (11), dia em que foi anunciada sua saída, o tema volta a preocupá-lo. Para ele, a situação nesse aspecto só piorou.

(Foto: Betto Jr./CORREIO)

Até a posse do novo arcebispo, Sergio da Rocha, ele segue como administrador apostólico da arquidiocese. A transição deve demorar uns 2 meses.  A notícia da mudança no comando da arquidiocese foi divulgada em primeira mão pelo site do CORREIO nesta quarta-feira

Veja abaixo entrevista onde dom Murilo fala sobre religião, fé e a Bahia.

CORREIO: Qual o legado que o senhor deixa após esses 9 anos na arquidiocese de Salvador?
Dom Murilo:
Procurei deixar um legado que pode ser resumido em três palavras: Jesus Cristo, Igreja e irmãos. Quanto à Jesus Cristo: foi por ele que vim para a Bahia, foi ele que eu procurei anunciar em homilias, artigos, entrevistas, palestras, encontros etc. Quanto à Igreja: refiro-me, claro, ao povo de Deus, que entre alegrias e desafios caminha dia por dia em direção da casa do Pai.

Quanto aos irmãos: amei este povo, procurei compreendê-lo, busquei participar de sua vida o mais possível. Se mais não fiz, foi por minhas limitações pessoais. Por isso, em minhas orações, sempre peço ao Senhor que ninguém fique prejudicado por minha culpa ou por minhas limitações, mas que ele supra aquilo que eu não consegui fazer.

(Fotos de Betto Jr./CORREIO)

CORREIO: Qual avaliação que o senhor faz da sua missão aqui em Salvador?

Dom Murilo: Reconheço que muita coisa pôde ser feita ao longo desses nove anos (2011-2020) e, por isso, sinto-me em paz. Tenho consciência de que trabalhei muito, sempre, incansavelmente. Se tomo consciência de tanta coisa que queria fazer, dos sonhos que me acompanharam, lembro-me das estrelas: elas são bonitas, mas distantes; minhas mãos são pequenas demais para alcançá-las. Mas tenho certeza de que Deus abençoa as pessoas que têm grandes sonhos. Certamente meu sucessor fará muito mais do que eu, mas, um dia, ao se despedir daqui, provavelmente também ele dirá o mesmo que eu, pois nossos sonhos são sempre maiores do que nossas capacidades.

CORREIO: Quando chegou em Salvador o senhor disse, em entrevista ao CORREIO, que sua preocupação era muito com a violência. Como o senhor viu a evolução dessa violência?

Dom Murilo: Tenho a impressão que, infelizmente, a situação piorou. Afinal, Salvador não é uma ilha, mas parte de um Brasil que vê esse problema crescer; é parte do mundo, que vê uma violência incontrolável. Aqui, só vejo duas soluções: em primeiro lugar, um mutirão, envolvendo todas as pessoas de boa vontade, para a construção da família. Afinal, atrás de grande parte das pessoas desintegradas, insatisfeitas, revoltadas etc. está a falta de laços familiares. Não são novos produtos lançados no mercado que nos darão a felicidade, mas aqueles valores que ou adquirimos no ambiente familiar ou dificilmente adquiriremos. Além disso, precisamos aprender a conjugar o verbo “repartir”.

Enquanto um grupo, pequeno e forte, se enriquece cada vez mais, uma imensa parte da humanidade é cada vez mais pobre. Muitos acham isso natural. Mas Deus nos deu os bens e as capacidades – intelectuais, morais, espirituais etc. – para servirmos nossos irmãos e, juntos, construirmos um mundo fraterno e solidário, um mundo em que todos tenham o mínimo necessário para uma vida digna. O egoísmo nada constrói. A terrível situação que enfrentamos, com o Coronavirus, nos mostra que ou o mundo será para todos, ou não será para ninguém.

CORREIO: Na mesma entrevista o senhor convocou as pessoas para o diálogo. Falou que a conversa era essencial. Como conseguiu dialogar com os baianos?

Dom Murilo: Há muito aprendi que o diferente me enriquece; ele não é um inimigo a ser destruído ou calado, mas um irmão a ser compreendido e amado. Portanto, respeitando quem pensa diferente de mim, procurei escutá-los e, pouco a pouco, fui me relacionando com todos – isto é, com gregos, troianos e baianos...

CORREIO: Seu posto tem muitos bônus, mas também muitos ônus. O que foi mais difícil nessa jornada?

Dom Murilo: Talvez o mais difícil tenha sido o meu próprio temperamento: procuro ter ideias claras, ser objetivo e lutar por aquilo que acredito. Mas meu ritmo nem sempre era o das pessoas com quem eu dialogava ou trabalhava. Eu penso assim: se tal objetivo pode ser alcançado hoje, por que deixar para alcançá-lo para amanhã? Mas também aqui aprendi muito: é difícil mudar as pessoas, e elas não mudaram; mas também devem estar pensando: Não conseguimos mudar Dom Murilo...

CORREIO: E agora, o que fará?

Dom Murilo: Antes de tudo, é bom ficar claro que o Papa me nomeou, a partir do dia 11 de março, Administrador Apostólico desta Arquidiocese – portanto, tenho as mesmas responsabilidades e os mesmos problemas que tinha como Bispo. E isso até a posse do Cardeal Dom Sérgio. Ainda não foi marcado o dia da posse. No mais, sou religioso, membro da Congregação dos Padres do Sagrado Coração de Jesus. Deixei a vida comunitária da Congregação quando a Igreja precisou de mim como Bispo. Agora que ela não precisa mais desse meu trabalho, volto para a Congregação, ainda como Bispo, mas sem as responsabilidades de ter que dirigir uma Diocese. Morarei em Corupá, estado de Santa Catarina, cidade de uns oito mil habitantes e que fica a uns oitenta quilômetros da Joinville.

De lá sairei para pregar retiros, dar palestras, atender comunidades e tudo o que puder fazer.

Corupá tem 8 mil habitantes: dom Murilo vai morar lá
(Foto: Divulgação)

CORREIO: Qual a sua primeira memória da Bahia desde que assumiu o posto?

Dom Murilo: Diz que o povo que “A primeira impressão é a que fica”. Lembro-me de forma muito clara a recepção que tive por ocasião de minha chegada, alguns dias antes da posse (25 de março de 2011): vendo a alegria dos que me acolhiam – e havia uma multidão lá no aeroporto! – pensei com meus botões: Vou me dar bem aqui! E, realmente, isso aconteceu.

5 de novembro de 2011: Posse de dom Murilo como arcebispo de Salvador, na Catedral Basílica, no Terreiro de Jesus
(Foto: Robson Mendes/Arquivo CORREIO)

CORREIO: Do que mais o senhor sentirá falta da Bahia? Alguma comida, sabor, aroma lhe deixará saudade...

Dom Murilo: Sentirei falta do espírito de acolhida desse povo, que se materializa em sorrisos, abraços, convites, calor humano... Quanto à comida: aqui surgiu uma alergia à camarão, que me fez deixar muito prato gostoso de lado. E não sentirei saudade de doces de coco, pois esse produto da Bahia e de Sergipe já faz parte da culinária brasileira.

CORREIO: Qual o lugar mais especial da Bahia que o senhor conheceu?

Dom Murilo: Não vou falar dos lugares de Salvador, cidade tão rica em belezas naturais e com igrejas belíssimas, para não pensarem que estou fazendo média... Mas fiquei muito impressionado com o Santuário do Senhor Bom Jesus da Lapa. Que lugar especial! Impressionaram-me e me emocionaram os rostos dos romeiros, especialmente dos sertanejos. Quanto sacrifício para chegarem até esse santuário! Que alegria demonstravam por estarem ali!

CORREIO: Ser arcebispo de Salvador lhe levou para muitos lugares e várias vivências. Consegue destacar o momento mais marcante?

Dom Murilo: Sinceramente, não consigo, pois foram tantas as experiências que elas se misturam e todas têm o mesmo nome: “Bahia”. Mas vou destacar os momentos da canonização de Santa Dulce dos Pobres. Foi emoção por cima de emoção. Era difícil acreditar que eu estava vivendo um momento tão especial como aquele, e tendo um lugar de destaque neles, não por mérito meu, mas por pura graça do Senhor. Com isso, Santa Dulce dos Pobres se tornou minha irmã e amiga. Fiquei com a impressão que a conhecia de há muito tempo...

CORREIO: Seu estilo conciliador e sistemático chamou a atenção dos baianos. Qual o momento mais difícil de ser conciliador já que mediu fim de greves como a da PM, em 2014?

Dom Murilo: Confesso que os momentos da greve da PM foram difíceis, muito difíceis, que exigiram muita paciência e capacidade de diálogo. Mas o que muito me ajudou foi perceber que as partes envolvidas queriam o melhor, buscavam chegar a um acordo. Meu papel foi muito simples, isto é, o de ser ponte, e graças a Deus, o resultado foi positivo.

CORREIO: Há algo que o senhor queria fazer no comando da arquidiocese que não fez?

Dom Murilo: Gostaria de ter restaurado ainda mais igrejas, porque a cidade e o estado têm obrigação de mostrar ao Brasil o que o amor e a fé de nossos antepassados fizeram e nos deixaram como legado. Vendo tanta pobreza e tantas necessidades, gostaria de ter tido mais condições e recursos para poder dar melhores condições de vida aos que sofrem. Gostaria de ter conseguido construir algumas igrejas grandes, em condições de acolher multidões. Gostaria, gostaria... se continuar, a lista vai longe...

(Foto: Betto Jr./CORREIO)

CORREIO: O que o senhor deixa de 'recomendações' para seu sucessor, dom Sergio da Rocha?

Dom Murilo: O que eu teria para dizer, é desnecessário fazê-lo, pois o Cardeal Dom Sérgio já coloca isso em prática: “Que seu coração esteja onde estão os seus pés!” Com isso, em pouco tempo também ele se tornará um baiano, um novo baiano...

Sergio da Rocha deixará arcebispado de Brasília e assumirá posto de dom Murilo
(Foto: Marco Aurelio/Arquidiocese de Brasília/Divulgação)

CORREIO: Qual a mensagem que o senhor deixa para os fiéis da Bahia?

Dom Murilo: Cultivem os grandes valores que herdaram dos antepassados: o amor ao Senhor Bom Jesus do Bonfim, o carinho para com Nossa Senhora da Conceição da Praia e a dedicação aos pobres, a exemplo da baiana Santa Dulce. Continuem acolhedores e façam da Palavra de Deus a companheira de seu dia a dia.

2 de jan de 2012: dom Murilo na primeira missa do ano
(Foto: Arquivo CORREIO)

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