Dose de alívio: 120 cidades da Bahia estão sem mortes por covid-19 há um mês

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11.08.2021, 05:30:00
Cidades também registram queda no número de casos graves (Ministério da Saúde/Divulgação)

Dose de alívio: 120 cidades da Bahia estão sem mortes por covid-19 há um mês

Especialistas avaliam que esse é um dos reflexos da vacinação no estado

Após perder seis moradores para a covid-19, Palmeiras, na Chapada Diamantina, está há mais de três meses sem registrar nenhuma morte por causa da doença. O dia 27 de abril de 2021 foi o último em que um óbito foi notificado no boletim epidemiológico municipal. “Depois que a vacinação começou na cidade, a gente viu a situação melhorar muito”, diz Walney da Silva de Paula, secretário de Saúde. E Palmeiras não é um caso isolado. Em toda a Bahia, só nos últimos 30 dias, 120 cidades não notificaram nenhuma morte por covid.  

Isso é o que mostra os dados da Central Integrada de Comando e Controle da Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab) e pode ser conferido no site https://bi.saude.ba.gov.br/transparencia/. Entre os dias 10 de junho e 10 de julho de 2021, foram notificados óbitos em 297 municípios baianos. No período anterior, ou seja, entre 10 de maio e 10 de junho, a quantidade de cidades no estado que entraram de luto por causa da covid foi de 336.  

Para especialistas, os números são um reflexo do avanço da vacinação no estado. "Nós sabendo que as pessoas têm dificuldade em manter bons costumes em relação ao isolamento social, uso de máscara e todos os protocolos sanitários. No cenário onde isso é um fato e conseguimos ver redução nos óbitos, é sinal de que a vacinação está sendo efetiva. Não há outra explicação” diz Jefferson Russo Victor, biomédico imunologista e professor do curso de Medicina da Universidade Santo Amaro - Unisa. Na cidade de Palmeiras, o reflexo da vacinação não para somente no número de mortes.

“Não temos atualmente nenhum caso grave de covid sendo atendido no nosso sistema de saúde. Há somente 16 casos leves, todos de pessoas que não tomaram ainda a vacina”, comemora o secretário.

A situação no município só não é melhor, pois a aplicação da primeira dose ainda está em pessoas com 35 anos ou mais, enquanto outras cidades baianas já vacinam maiores de 18 anos. “Nós atendemos a demanda do governo do estado. Eles disponibilizam vacina e nós vacinamos. Em alguns momentos, já ocupamos o primeiro lugar em todo o estado na aplicação do imunizante. O problema é que o número de doses que chega é muito pequeno e isso complica a logística”, reclama Walney. 

Leia mais: Prejuízo: Bahia deixou de receber 861 mil doses de vacina contra a covid-19

O gestor ainda alerta haver diferença na população do município calculada pelo IBGE em 9 mil habitantes e a estimada pela prefeitura de 13 mil pessoas. “Tem muita gente que veio morar aqui durante a pandemia ou que tem residência, mas não estava cadastrada nos postos”, explica. Os dados incorretos interferem na quantidade de doses que cada município vai receber por parte da Sesab.  

Posto de vacinação em Palmeiras foi montado próximo de onde as pessoas circulam (Foto: Divulgação)

Queda também é observada na taxa de ocupação dos leitos 
O avanço da vacinação na Bahia também está gerando queda na ocupação dos hospitais baianos. Atualmente, apenas 23% dos leitos de enfermaria e 44% das Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) estão ocupadas por pacientes com covid. Há um mês, essas taxas eram de 49% e 66%, respectivamente.  

Até as 17h dessa terça-feira (10), dos 56 hospitais que tratam casos graves de covid no estado, apenas o Costa Dos Coqueiros, em Lauro de Freitas, tinha 100% de ocupação nos leitos de UTI. Outros dois, o Universitário Professor Edgard Santos e o Português, ambos em Salvador, tinham 0% de ocupação.  

Além disso, a quantidade de óbitos diários sendo registrado em toda a Bahia está caindo progressivamente. No dia 14 de junho, a média móvel de mortes estava em 110, segundo dados do portal Geocovid MapBiomas. Agora, está em 29. No último domingo (8), foi confirmado apenas um óbito por covid em toda a Bahia. 

Atualmente, 6,8 milhões de primeiras doses já foram aplicadas no estado. Desses vacinados, 2,9 milhões de pessoas completaram o esquema vacinal e tomaram também a dose de reforço. Além disso, outros 252 mil baianos tomaram a vacina da Janssen, que é de dose única, o que totaliza uma cobertura vacinal de 20,8%.  

Bahia ainda tem 20.8% da população completamente vacinada (Foto: Arquivo/AFP)

Especialista alerta que é preciso acelerar ainda mais a vacinação 
Para Washington Franca-Rocha, professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e coordenador do Geocovid MapBiomas, a redução nos números epidemiológicos é positiva e tem um reflexo na vacinação, mas não de forma imediata. Segundo a Sociedade Brasileira de Imunizações (Sbim), para que a vacina tenha efeito coletivo, é preciso que cerca de 70% da população esteja imunizada com as duas doses ou a dose única.  

“A gente já está tendo um efeito da vacinação, mas nós ainda temos uma cobertura vacinal que não é suficiente para que haja imunização coletiva. A queda nos números pode ser em função do pico que chegamos em junho ter sido muito alto. Nossa expectativa é de que essa queda se torne definitiva com o avanço da vacinação, o que pode não acontecer por causa da variante Delta”, argumenta.   

Em todo o Brasil, em julho deste ano, 31% dos municípios brasileiros não registraram mortes por covid, de acordo com um levantamento do G1 feito com dados tabulados pelo pesquisador Wesley Cota, da Universidade Federal de Viçosa. Dos municípios que não entraram em luto, 71% destes tem uma população de menos de 10 mil habitantes, como é o caso de Palmeiras.  

Leia mais: Brasil tem 46 milhões de pessoas com a imunização completa contra a covid

De acordo com o professor Washington, é natural que as cidades pequenas sejam as primeiras a não registrar óbitos por ter poucos habitantes. “Se você tem uma cidade com 3 milhões de habitantes como Salvador e outra com 10 mil, e se a epidemia tá caindo como um todo, nas cidades de menor população, por efeito estatístico, a tendência do número é zerar mais rapidamente”, aponta.   

O biomédico imunologista Jefferson Russo Victor concorda. “As cidades grandes, mais desenvolvidas, tem um fluxo de pessoas muito maior. No caso de Salvador, tem aeroporto internacional e terminais de ônibus e metrô. É um cenário difícil para controlar a disseminação de qualquer vírus. Já nas cidades onde não há costume de aglomeração, o fluxo de pessoas não é tão grande, a queda vai ser primeiro sentida”, diz. Em nota, a Sesab atribuiu os números positivos ao crescimento da imunização dos baianos, mas alertou que é preciso manter os cuidados sanitários.

“A ampliação do público vacinado traz diminuição da circulação do vírus, fazendo com que haja menor probabilidade de novas infecções. No entanto, ainda é necessário que cuidados sejam tomados por todos, como o uso de máscaras, distanciamento social e higiene constante das mãos, mesmo por aqueles que já foram imunizados”, defende. 

* Com a orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro. 

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