Edifício Santa Paula, o 'mausoléu' dos tempos áureos do cacau na Bahia

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16.05.2021, 16:00:00
Atualizado: 17.05.2021, 14:41:03

Edifício Santa Paula, o 'mausoléu' dos tempos áureos do cacau na Bahia

Com a obra parada desde 1983, prédio em Ipiaú seria o primeiro verticalizado do sul do estado, mas enfrentou inflação e a decadência cacaueira

Foto: Arquivo CORREIO

Zé Vieira sonha em ganhar na mega-sena. Ele e a maioria dos brasileiros, por sinal. Porém, Zé tem um propósito diferente. Ele pretende comprar um prédio de 18 andares (dois apartamentos por andar), com vista panorâmica da cidade de Ipiaú, no sul da Bahia. Um desejo excêntrico de um milionário, se não fosse um detalhe: este prédio está inacabado desde 1983.

No tempo em que o cacau valia ouro, fazendeiros da região passeavam com seus aviões particulares e esbanjavam riqueza, o prédio Maison Vale dos Rios surgiu para ser o monumento à fortuna cacaueira. Acabou virando um cartão postal às avessas. "Lembro que até a maquete do prédio foi um acontecimento histórico na cidade.  Nunca tinha visto uma maquete! Foi tanta euforia, que eu ficava dizendo aos amigos da cidade vizinha de Ubatã que nosso prédio faria sombra no município deles. Ainda vou terminar esta obra", sonha Zé Vieira, atual presidente do Rotary Club Ipiaú.

Cartaz da primeira construção verticalizada da região cacaueira na Bahia, no final dos anos 70. Construção ainda não terminou (Foto: Reprodução)

O prédio, também conhecido como Santa Paula, seria a primeira grande construção verticalizada de toda região cacaueira. Todo fazendeiro de cacau queria ter um apartamento ali. Um, não. Vários. "Comprei logo dois apartamentos. Fui comprando e fiquei com 13 apartamentos. Foi uma época bonita, rica e de fartura. Na época, eu tinha dois aviões", disse o cacauicultor Alex Muniz, que ainda é dono de 14 dos 18 apartamentos. Ele também é proprietário do Shopping Liberdade, que funciona no térreo.

Tudo parecia perfeito. O terreno foi cedido de graça pelo Rotary Club, bem em frente a Igreja Matriz. Em troca, os rotarianos ficariam com o terraço. O projeto arquitetônico foi feito pelo arquiteto Gilberbet Chaves, que também projetou a casa de Jorge Amado, no Rio Vermelho. Uma feliz coincidência: Jorge escreveu diversas obras que falavam justamente das plantações e riquezas do cacau. Não tinha como dar errado. Mas deu...

Em 1979, quando iniciou a obra, o Brasil sofria com a hiperinflação. Se já sofremos hoje com inflação de 4,52%, imagina na época, que chegava a 60%. Em 1983, a obra parou de vez. A construtora Santa Paula entregou o prédio aos proprietários, que terminariam a obra. Parecia viável para os milionários do cacau, se não fosse a vassoura de bruxa, uma praga que dizimou as plantações de cacau nos anos 80, levando o dinheiro junto. O prédio, que deveria ser o símbolo de riqueza, virou monumento da decadência cacaueira na Bahia.

O prédio está avaliado em R$ 1,8 milhão (Foto: Arquivo CORREIO)

Demolição!
Em abril, foi lançado o filme Ícone, com direção de Edson Bastos e Henrique Filho. "Sou de Ipiaú e minha casa fica ao lado do prédio. Desde pequeno tinha pavor dele. Imaginava aquele monte de concreto caindo bem em cima de minha casa. Este prédio mexe com o imaginário de todos na cidade", diz Bastos. 

Em forma de documentário, o curta é inspirado na crônica de Vitor Hugo, que fala sobre o prédio. O doc mistura realidade e ficção, com um spoiler que desafia a realidade: o prédio é implodido. "Inviável e não recomendado. Além de caro, há muitos prédios próximos, haveria danos estruturais graves nas construções do local", resume o engenheiro João Henrique. Segundo Alex Muniz, a construção passa por vistorias constantes e está segura.

Atualmente, os morcegos são os únicos inquilinos do Santa Paula, mas há esperança de dias melhores. No início do mês, Muniz recebeu duas propostas para vender o prédio. "Tem gente querendo terminar a obra, derrubar o prédio é loucura e fake news. Ele está com a estrutura em perfeito estado. Cada apartamento tem 135 m², o que valeria hoje mais de R$ 800 mil, cada. Sou tão frustrado por não ter morado ali, que vou vender ele do jeito que está e comprar um apartamento quando alguém terminar", sonha Muniz. Quem tiver um dinheirinho sobrando, a obra inacabada está avaliada em R$ 1,8 milhão. Nem precisa ganhar na mega sena...

Cronologia do Edifício Santa Paula

Anos 70

A região de Ipiaú vivia um momento de fartura por conta do cacau. Em meados dos anos 70, o Rotary Club cedeu um terreno no centro da cidade para a construção do Maison Vale dos Rios, que depois ficou conhecido como Santa Paula, nome da construtora que faria o prédio. Em troca, os rotarianos ficariam com o terraço, onde seria a sede deles. A maquete da obra, apresentada com festa no dia de São Roque, padroeiro da cidade, mostrava um edifício de 18 andares, com dois apartamentos por andar, com 135 m² de espaço interno. Foi um momento de euforia na cidade.

Anos 80

O sonho de ter o primeiro edifício verticalizado da região começou a ruir. Com as obras atrasadas por conta da hiperinflação, em 1983 a construtora Santa Paula parou de vez a empreitada. O prédio, já com a estrutura pronta, foi entregue aos fazendeiros de cacau que tinham comprado os apartamentos, para que eles terminassem a obra. Seria algo viável para os cacauicultores, mas a vassoura de bruxa arrasou as plantações cacaueiras da região, levando toda a fortuna junta. O que seria um monumento à fortuna da região se tornou um mausoléu da decadência do cacau na Bahia.

Anos 90

Dono de 14 dos 18 apartamentos, o fazendeiro Alex Muniz comprou também o térreo do Santa Paula, inaugurando o Shopping Liberdade, que leva o nome de uma de suas fazendas. O empreendimento funciona até hoje, com pequenas lojas e um restaurante. O aluguel dos lojistas é suficiente para fazer a manutenção do prédio e sua estrutura. Segundo Muniz, o Santa Paula é seguro e periodicamente recebe visita de engenheiros para avaliar sua estrutura.

Dias atuais

No início do mês, Muniz recebeu duas propostas de compra do edifício. A obra inacabada está avaliada em R$ 1,8 milhão. O prédio também virou um filme chamado Ícone, com direção de Edson Bastos e Henrique Filho. O curta mistura documentário com ficção, inspirado na crônica de Vitor Hugo, intelectual da região que fala sobre o Santa Paula. O trailer do filme está disponível no YouTube. Quer um spoiler? No doc, o prédio é implodido. Pronto, falei.

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