Efeito bumerangue: como Salvador pode ser impactada pela vinda de pacientes do interior

salvador
01.08.2020, 14:00:00
Atualizado: 02.08.2020, 07:53:18
Ambulância de Candeias faz transferência de paciente para hospital de covid-19 em Salvador (Foto: Arisson Marinho/CORREIO)

Efeito bumerangue: como Salvador pode ser impactada pela vinda de pacientes do interior

Fluxo ameaça sobrecarregar hospitais de covid-19 existentes na capital e pode impactar planos de reabertura do comércio por aqui

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Depois de dois dias entre um hospital e uma clínica particulares, em Candeias, na tentativa de encontrar leito disponível para o irmão diagnosticado com covid-19, Roberto Oliveira já se encontrava cansado e estressado por não ter ideia do que fazer diante da inexistência de vagas para a doença na cidade. Vendo o quadro se agravar, um médico amigo da família, então, arrumou uma vaga na UPA de Itapuã, em Salvador, a cerca de 50 Km. Foram três dias em que Nelson, o irmão, ficou internado lá, mas a doença foi evoluindo. Era preciso migrar da enfermaria para uma UTI e então a saga da família reiniciou.

“Foi um processo, não foi nada simples”, resume Roberto. Era por volta das 21h de uma sexta-feira quando ele recebeu uma ligação chorosa do irmão, que pedia ajuda. No sábado, o pessoal saiu de Candeias de novo para encontrar uma UTI na capital.

“Eu fui para a UPA 8h e só saímos de lá 16h, que foi quando conseguimos uma vaga no hospital de campanha do Wet’n Wild [na Av. Paralela]. A ambulância de Candeias veio com uma UTI móvel para fazer a transferência, mas os aparelhos não funcionavam. O doutor amigo da gente pediu o aparelho da UPA emprestado para poder levar meu irmão e foi aquele processo, a gente pedindo muito, dando garantia de devolver”, recorda ele, que conseguiu finalmente internar o irmão.

A realidade da família é a de tantas outras que, sem infraestrutura médica e hospitalar no lugar onde moram, vivem o drama da necessidade de recorrer à capital. Em Salvador, os pacientes têm vindo, principalmente, de Feira de Santana e Lauro de Freitas, cidades que ocupam o 2º e 4º lugar em número de casos na Bahia. A interiorização da doença, estimulada ainda pelos efeitos do São João, ameaça a capital baiana, que pode sofrer sobrecarga do sistema de saúde, segundo alerta de pesquisadores do Consórcio Nordeste.

Cidade que mais envia pacientes para Salvador, Lauro de Freitas, na região metropolitana, não possui unidade com leitos de internamento de covid-19 e já encaminhou 305 infectados para a capital desde o começo da pandemia. Contando com estes pacientes, só as 10 cidades que mais pediram regulação para Salvador enviaram, ao todo, 1.263 pessoas até sexta (30), das quais 167 foram internadas em unidades de gestão municipal e as 1.096 restantes foram atendidas na estrutura estadual. Até a semana passada, 6.740 pacientes de outras cidades baianas foram recebidos, sendo que 1.746 (26%) foram atendidos em unidades municipais e 4.994 na rede estadual (74%). 

Além de Lauro e Feira, o ranking de maior número de transferência de pacientes segue com Simões Filho, Santo Antônio de Jesus, Candeias, Alagoinhas, Itaparica, Camaçari, Catu e São Francisco do Conde, segundo informações da central de regulação da Secretaria de Saúde do Estado (Sesab).

No início de julho, o prefeito ACM Neto (DEM) disse que, logo no início da pandemia, o número de pessoas que moravam em Salvador e ocupavam leitos chegou a 90%. Na metade do mês, esse número era inferior a 60%, afirmou ele, apontando que as vagas da capital passaram a ser disputadas também por pessoas do interior. “Nós jamais fizemos qualquer discriminação com quem é do interior ou da capital. Estamos aceitando receber todo mundo. O sistema é um só e a vida do interior importa tanto quanto a vida da capital”, declarou.

Nesta quinta-feira (30), praticamente uma semana após a 1ª fase de reabertura das atividades em Salvador, o prefeito voltou a tocar no assunto e pediu aos prefeitos da Região Metropolitana para que as suas cidades não abram bares e restaurantes antes da 2ª fase da capital.

“Não é justo que os leitos de UTI estejam aqui em Salvador, que o atendimento seja feito pela capital, que estejamos com restrições nessas atividades e a RMS comece a abrir. Apelo, somente posso apelar, porque eles têm absoluta competência, para que sigam o protocolo que foi estabelecido. O dono de bar e restaurante de Salvador tem todo o direito de reclamar. Para que a reabertura aqui aconteça com mais velocidade, é razoável que a RMS aguarde também”, disse.

A fala do prefeito faz referência à estratégia ajustada com o governo estadual e as cidades para a reabertura comercial, que depende da queda na taxa de ocupação de leitos de UTI. Quanto menor o índice, maior o número de setores que poderão voltar a funcionar.

Crescimento de casos já é maior que na capital
No começo de julho, o comitê científico do Consórcio Nordeste — criado para orientar governadores no controle da pandemia —, emitiu um alerta para a possibilidade de ocorrer o chamado 'efeito bumerangue' em todas as capitais nordestinas. O fenômeno foi assim apelidado porque, em quase todo o país, os casos começaram aparecendo nas capitais, foram sendo interiorizados e a partir daí, quando os pacientes do interior evoluem para quadros graves acabam precisando de serviços sofisticados e então o problema retorna para a capital, que concentra melhor infraestrutura.

Depois de ter evitado altas taxas de crescimento de casos e óbitos no início da pandemia, a situação da Bahia se tornou preocupante no fim do mês de junho, logo após o São João, observou o consórcio. Presidente do comitê, o neurocientista Miguel Nicolelis afirma que, no interior baiano e na Região Metropolitana de Salvador (RMS), os casos vêm crescendo numa velocidade levemente maior do que na capital.

“A medida que os casos vão subindo no interior, teremos uma fração de pessoas que vão precisar de melhores serviços de assistência médica e eles vão começar a não encontrar esses serviços nas suas cidades e nem nas suas grandes regionais, como Feira de Santana, Vitória da Conquista, Jequié. Então, começam a migrar para a capital. Por isso, sim, o risco [de superlotação em Salvador] existe, é uma preocupação”, explica Nicolelis. A Sesab não acredita que a tese chegará a se concretizar, já que o governo do estado vem abrindo mais leitos regionais a fim de evitar justamente as transferências.

Morador de Lauro de Freitas, o empacotador Paulo de Lima, 26, diz que a falta de UTIs na cidade lhe preocupa e espera que a inauguração do Hospital Metropolitano, que não é exclusivo de covid-19, possa de alguma forma reduzir a dependência em relação à capital quanto ao serviço médico de alta complexidade. Prefeita da cidade, Moema Gramacho (PT), disse ao CORREIO que, embora não tenha UTIs dedicadas à doença, a cidade possui respiradores que dão condições de fazer a estabilização de pacientes.

“O fato de mandarmos pacientes para Salvador não significa mandar pacientes para hospitais da capital, ou seja, da prefeitura de lá. Ficam na capital, mas não pertence à prefeitura, são do estado”, declarou. Moema ainda explicou que os prefeitos da RMS estão em discussão com o governo para viabilizar a abertura de mais UTIs de covid-19 em qualquer uma das unidades de saúde da região, já que a princípio houve negativa de transformar o Hospital Metropolitano em exclusivo da doença.

De acordo com os cientistas, este fenômeno visto nesta pandemia, de acentuada busca por serviço especializado de covid-19 na capital, traz ainda outras preocupações, já que o traslado de pacientes em estado grave costuma resultar também na vinda de familiares como acompanhantes. “Se essas pessoas estiverem infectadas, o que é bastante possível, elas podem infectar pessoas na capital. Se isso ocorre, cria um ciclo vicioso. São hipóteses de cenários que podem acontecer”, alerta Miguel Nicolelis.

Distribuição dos leitos 
Historicamente, a capital sempre concentrou o maior número de leitos. Parte destas vagas são do próprio município e outra é rede estadual, destinada a atender todas as 417 cidades da Bahia. Das mais de 2,7 mil vagas gerais de covid-19 existentes no estado, mais da metade está em Salvador, que concentra quase 35% dos casos registrados na Bahia. De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde (SMS), cerca de 80% do serviço de alta complexidade existente na capital é administrado pelo estado, responsável pela regulação.

Pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o infectologista baiano Júlio Croda já foi diretor do Departamento de Imunizações e Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde e aponta que 80% dos municípios brasileiros têm menos de 20 mil habitantes e a grande maioria enfrenta carência de infraestrutura hospitalar. 

“A Bahia investiu bastante na abertura de novos leitos no interior, mas existe um déficit histórico em termos de UTI, comparando Salvador e o interior, em termo de leitos por 100 mil habitantes. Num momento de saúde pública, todo esse déficit se torna mais evidente e, portanto, a superlotação acontece mais rápido”, observa.

O governo estadual abriu, em julho, mais 35 novas vagas intensivas no Sul e Extremo Sul baiano, que agora contam com 158 UTIs, e mais outras 20 vagas intensivas em Vitória da Conquista, no Sudoeste. Há duas semanas, foi inaugurado o Hospital Clériston Andrade 2, em Feira de Santana, com 40 leitos de UTI. Ainda estão previstas instalações de mais 10 UTIs em Jequié, e outras 10 em Valença. Ainda no meio de julho, o governador Rui Costa decretou restrições em 77 municípios baianos — incluindo alguns do ranking de envio de pacientes para a capital — nos quais foram instituídos toque de recolher das 18h às 5h em alguns e redução do horário de funcionamento do comércio em outros.

“Existe todo esse debate em relação ao interior porque Salvador teria condições de flexibilizar [o funcionamento do comércio] se não tivesse esse aumento da demanda de leitos pelo interior. Então, de certa forma, Salvador é penalizada. As ações têm de ser coordenadas”, orienta Croda.

Espalhamento lento
Ainda segundo Nicolelis, o efeito bumerangue aconteceu em capitais como Maceió (AL), São Luís (MA), Fortaleza (CE) e João Pessoa (PB). No entanto, por lá esses efeitos foram sentidos com mais antecedência, enquanto na Bahia o escoamento de casos ocorreu de forma mais lenta, supostamente devido à rápida suspensão dos ônibus intermunicipais.  

“Isso permitiu um retardo, digamos assim, da semeadura de casos no interior. Se você tem menos ônibus, menos gente infectada vai para o interior. Mas como ainda teve liberdade de fluxo de carros particulares, levou mais tempo, mas aconteceu”, recorda ele.

Mesmo com os esforços da Prefeitura de Salvador e do governo estadual, impondo bloqueios em bairros e abrindo novos leitos, a pressão no sistema de saúde ainda se mantém considerável, avalia o comitê. Nesta sexta, a taxa geral de ocupação no estado e na capital eram 72% e 70%, respectivamente. Para os pesquisadores, é recomendado lockdown em qualquer local se a taxa de ocupação atingir 80% porque daí para saturar o sistema seria muito rápido. O estado e a capital chegaram a atingir este patamar, mas não adotaram o regime.

Lockdown à brasileira: prefeitos do interior adotam medidas anticientíficas
A reprodução de casos no interior tem dinâmica diferente da capital. Nas cidades menores, a maioria das atividades de trabalho são presenciais, as pessoas vivem basicamente do comércio e da agricultura, o que dificulta ou mesmo impossibilita a adoção de home office, compara Júlio Croda. Por ser a principal fonte de renda da cidade, os prefeitos enfrentam forte pressão política e dificuldades em manter medidas duras para impor isolamento, o que os faz deixar todo ou parte do comércio aberto. 

“Do ponto de vista do controle, isso é o tal 'lockdown à brasileira', não tem uma redução importante do contágio. Não adianta publicar decreto, toque de recolher, se não existe fiscalização e tudo se mantém aberto. O decreto acaba virando um gesto do prefeito para se tranquilizar de que está fazendo alguma coisa e estes, inclusive, embarcam em medidas como o chamado kit-covid, que não têm comprovação científica”, adianta o infectologista.

O CORREIO mapeou ao menos seis municípios baianos que adotaram o kit-covid, composto por cloroquina ou hidroxicloroquina, azitromicina e ivermectina, medicamento que estão sendo distribuídos à população com sintomas de gripe.

Professor de Física da Ufba e membro da Rede Covida, ligada à Fiocruz-BA, José García Miranda explica que Salvador concentra 20% da população do estado, o que significa dizer que 80% das pessoas suscetíveis ao vírus estão no interior ou RMS. Considerando o fluxo em questão, se tudo continuar exatamente como está, cálculos dos cientistas da rede revelam que é esperado que, em menos de 30 dias, a capital possa ter novo surto de casos ativos.

No fim de junho, os cinco potenciais surtos da Bahia, conforme estudo do Consórcio Nordeste, se situavam em Salvador, Camaçari, Feira de Santana, Juazeiro e Itabuna. Devido a isto, o comitê recomendou a instalação de barreira sanitária na BR-324, que liga Salvador à Feira de Santana, bloqueando o tráfego de carros particulares e ônibus intermunicipais para reduzir a transmissão de casos. 

Medidas mais dramáticas como esta e o lockdown completo foram o que fizeram com que capitais como São Luís (MA) e Fortaleza (CE) controlassem o aumento de casos, cita Nicolelis.

“A razão de a gente fazer esse alerta é que dá tempo de esse risco não se materializar”, conclui ele.

CONFIRA O STATUS DA COVID-19 NAS 10 CIDADES QUE MAIS ENVIAM PACIENTES PARA A CAPITAL: 
Dados: Google Maps e Sesab, coletados em 31/07

  1. Lauro de Freitas

Distância de Salvador: 28 Km
Nº de casos: 4.376
Total de leitos: 110, nenhuma UTI
Ocupação: 55%

  1. Feira de Santana

Distância de Salvador: 115 Km
Nº de casos: 7.909
Total de leitos: 147, sendo 63 UTIs
Ocupação das UTIs: 70%

  1. Simões Filho

Distância de Salvador:  27 Km
Nº de casos: 1.500
Total de leitos: 0
Ocupação: Não se aplica

  1. Santo Antônio de Jesus

Distância de Salvador:  194 Km
Nº de casos: 1.317
Total de leitos: 10, sendo 5 UTIs
Ocupação: 20%

  1. Candeias

Distância de Salvador:  49 Km
Nº de casos: 1.513
Total de leitos: 0
Ocupação: Não se aplica

  1.  Alagoinhas

Distância de Salvador:  122 Km
Nº de casos: 1.979
Total de leitos: 24, sendo 12 UTIs
Ocupação das UTIs: 42%

  1. Itaparica

Distância de Salvador:  29 Km
Nº de casos: 228
Total de leitos: 0
Ocupação: Não se aplica

  1. Camaçari

Distância de Salvador:  47 Km
Nº de casos: 4.026
Total de leitos: 51, sendo 21 UTIs
Ocupação das UTIs: 100%

  1. Catu

Distância de Salvador:  92 Km
Nº de casos: 846
Total de leitos: 0
Ocupação: Não se aplica

  1. São Francisco do Conde

Distância de Salvador:  82 Km
Nº de casos: 578
Total de leitos: 0
Ocupação: Não se aplica

TOP 10 CIDADES QUE MAIS ENVIARAM PACIENTES:

  1. Lauro de Freitas (305) 
  2. Feira de Santana (235) 
  3. Santo Antônio de Jesus (159)
  4. Simões Filho (137) 
  5. Candeias (131)
  6. Alagoinhas (101)
  7. Camaçari (56)
  8. Itaparica (52)
  9. Catu (45)
  10. São Francisco do Conde (39)

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