Em plena pandemia: o que levou os shoppings a ficarem lotados na reabertura?

salvador
07.04.2021, 05:30:00
Clientes formam fila para entrar no Shopping da Bahia (Foto: Gil Santos/CORREIO)

Em plena pandemia: o que levou os shoppings a ficarem lotados na reabertura?

Primeiro dia de funcionamento teve filas na entrada e corredores movimentados

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Os shoppings de Salvador reabriram nesta terça-feira (6) e as imagens das filas de clientes que se formaram na porta dos centros comerciais viralizaram desde o início da manhã. Mas, afinal, o que esse povo todo foi fazer no shopping em plena pandemia? O CORREIO perguntou. Teve gente que saiu de casa para fazer compras, resolver problemas, pagar contas e, até mesmo, só para passear.

A fila em frente ao Shopping da Bahia começou a se formar muito antes do horário de abertura, marcado para às 10h. Faltando 15 minutos para a liberação, a fila preferencial tinha cerca de 40 pessoas, e a de clientes comuns dava duas voltas no calçadão, passava por baixo da passarela nova e continuava no sentido Itaigara. Funcionários precisaram orientar a multidão para manter o distanciamento, e todos usavam máscaras.

Há quase um mês os shoppings de Salvador estão fechados por conta dos números elevados da pandemia. Nesse primeiro dia de reabertura 82% dos leitos de UTI estavam ocupados. São 176 mil casos confirmados de covid-19 na cidade, mais 149 mil suspeitos e 4,8 mil óbitos. Em toda a Bahia, são 821 mil casos e quase 16 mil mortos.

Passear
No Center Lapa o movimento foi grande, e a Rua do Portão da Piedade teve fluxo intenso de pedestres. A maioria estava à procura de bancos, operadoras de telefonia e casas de câmbio. Joana Silva, 36 anos, contou que foi resolver pendências.

"Eu estava esperando abrir faz um tempo pra resolver coisas da operadora que só tem no shopping. E não só eu. Pelo tamanho da fila é possível ver que a procura foi grande. Então, assim como todo mundo aqui, aproveitei pra resolver essa demanda porque é urgente”, contou.

Alguns clientes sinceros admitiram que saíram de casa para passear e procurar promoções, mas essas pessoas não quiseram se identificar para a reportagem, como uma mulher que percorria os corredores do Shopping Piedade e que contou que saiu sem um objetivo claro.

"Eu vim sem produto certo, procurando mais uma oportunidade legal de compra mesmo. O problema foi que não achei uma coisinha, não vi promoção boa", disse.

Casas lotérias também tiveram longas filas no retorno dos shoppings

(Foto: Paula Fróes/CORREIO)

Comprar
Do outro lado da cidade, o técnico em eletrônica Ivanildo Soares, 53, foi ao Salvador Shopping comprar uma televisão. O aparelho que ele tem em casa funciona, mas o modelo é antigo e o trabalhador resolveu trocar. Ele contou que deixou para fazer isso presencialmente na expectativa de economizar.

“Vou pesquisar e ver se encontro um preço mais em conta. Pela internet eu não vi muitas vantagens”, disse. Perguntado se não tinha medo de ser contaminado, ele disse que “não, porque estou me protegendo”.  

Muitos comerciantes anunciaram descontos. Cartazes nas vitrines falavam em 60%, 70% e até 80% de abatimento no valor dos produtos, mas dentro das lojas somente os atendentes e pouquíssimos clientes. O movimento maior ficou por conta das grandes redes, como C&A, Magazine Luiza e Americanas.

A estudante Aline dos Santos, 27, acredita que esse seja o melhor momento para comprar o presente do dia das mães e, por isso, foi ao Shopping Bela Vista.

“Na verdade, eu não vou comprar ainda, estou fazendo uma pesquisa”, contou. Questionada se não poderia fazer isso pela internet, ela explicou que não gosta de usar o e-commerce. “Uma vez eu comprei e não foi legal”, disse.

Já as amigas Isabela Assis, 23, e Amanda Lima, 22, foram ao Shopping Paralela tentar fazer uma troca. “Compramos roupa pela internet, mas não ficaram boas. Vamos tentar trocar na loja. Mas também só vamos fazer isso. Se desse para fazer de casa a gente nem teria vindo. Esse vírus é letal, não dá para ficar de vacilo”, enfatizou Isabela.

Agências bancárias foram um dos serviços mais buscados durante a manhã nos seis shopping centers visitados pela a equipe do CORREIO. A área de autoatendimento também teve procura intensa, assim como as lojas de departamento de roupas, de operadoras telefônicas, de farmácias e de eletrodomésticos.

Alguns centros comerciais mantém o serviço de vendas virtual. O cliente pode receber o produto gratuitamente em casa ou retirar no local através de drive thru. É preciso verificar as normas e o horário de funcionamento na página de cada shopping. 

Praças de alimentação também foram concorridas

(Foto: Paula Fróes/CORREIO)

Repercussão
O presidente da Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce-BA), Edson Piaggio, afirmou que todos os cuidados foram tomados.  “Estamos operando sob um protocolo que foi elaborado pela Abrasce em parceria com o Hospital Sírio Libanês. Esse um mês fechado representou a perda na ordem de R$ 400 milhões em vendas, então, a expectativa com a reabertura é positiva. Esperamos que a pessoas voltem a frequentar os shoppings”, afirmou.

Segundo a Abrasce, existem 2 mil lojas e 26 mil trabalhadores nesse segmento. Faltando cerca de um mês para o Dia das Mães, a segunda data mais importante para o varejo, atrás apenas do Natal, e um dos principais motivos para os clientes iriem ao shopping nas próximas semanas, o presidente do Sindicato dos Lojistas (Sindilojas), Paulo Motta, disse que o momento é de cautela. “Tudo vai depender da sustentabilidade do funcionamento da atividade econômica, ou seja, das autoridades manterem o comércio funcionando. Vamos aguardar os próximos dez dias para então começar a nos preparar para essa data”, disse.

Já o presidente do Sindicato dos Comerciários, Renato Ezequiel de Jesus, entidade que representa os trabalhadores dos shoppings, disse que concorda com o retorno das atividades, mas frisou que é necessário respeitar as regras. “É preciso que haja máscara, álcool em gel e distanciamento. As lojas precisam limitar o número de clientes e proteger também os funcionários. Os casos de desrespeito devem ser denunciados”, afirmou.

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