Enfrentou Pelé e foi campeão em 88 pelo Bahia: conheça Manezinho

e.c. bahia
18.01.2019, 05:30:00
Atualizado: 18.01.2019, 11:26:10
Manezinho mostra foto do título de 1967, ao lado do meia Zé Eduardo (Arisson Marinho / CORREIO)

Enfrentou Pelé e foi campeão em 88 pelo Bahia: conheça Manezinho

Ex-ponta tricolor, o agora dentista lembra histórias da época como jogador

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A fala tranquila e o jaleco não indicam nem de longe o passado do dentista Manoel Oliveira Filho, 71 anos. Mas pelo apelido de Manezinho, os torcedores mais antigos do Bahia vão se recordar de um ponta que jogou no tricolor entre o final dos anos 1960 e início de 70.

O menino pobre que aos 9 anos veio com os pais e mais 11 irmãos de Mata de São João para morar no bairro de São Caetano teve seu talento reconhecido desde cedo, mas, também de maneira precoce, a carreira foi encerrada de forma meteórica, interrompida por lesões que o importunam até hoje e que o fizeram durar apenas cinco anos como profissional.

Na adolescência, Manezinho jogava no time da Coca-Cola, onde trabalhava. Certa vez, a equipe da empresa enfrentou e foi derrotada pela escolinha do Sobradinho, da Federação, por 3x2, com dois gols dele.

Logo depois, a mesma escolinha o convidou para jogar lá. O garoto chamou atenção numa competição de times de bairros de Salvador, promovida pelo ex-presidente do Bahia Osório Villas Boas, sempre em época de eleição.

Na edição de 1966, Manezinho foi o destaque do time de Campinas de Pirajá. Foi campeão, artilheiro com 57 gols e atraiu o interesse do cartola.

No ano seguinte, Manezinho estreou como profissional pelo Bahia, sendo um dos destaques do Campeonato Baiano de 1967, que teve o tricolor como vencedor. O ponta marcou cinco gols.

Pura habilidade
Com sua baixa estatura e magreza, o ex-jogador voava em campo. O estilo era de não se intimidar, partindo pra cima de quem quer que fosse. “A gente fazia o que queria no campo, não ficava preso ao treinador. Via Garrincha e Pelé jogar, ficava treinando e imitando eles em casa”, revela Manezinho.

O aposentado Carlos Magno conhece o talento desde muito cedo. Amigos de infância, chegaram a jogar juntos no time do bairro, época em que Manezinho começou a ganhar fama. 

“Era agressivo, muito habilidoso, ia pra cima mesmo e ainda fazia gols. Marcador nenhum conseguia tirar a bola dele. Se eu tivesse metade da bola que ele jogava...”, lembra o antigo companheiro, que, por coincidência, mora na Boca do Rio, onde Manezinho vive atualmente.

Sambista e histórico torcedor do Bahia, Edil Pacheco viu a estreia de Manezinho: “Era magrinho, leve e muito rápido. Jogava nas duas pontas”, lembra o músico, que também teve a oportunidade de cultivar uma amizade fora dos campos.

“Jogamos junto em um baba no campo do Deró, em Lauro de Freitas, que era formado por ex-jogadores, médicos e artistas. Manezinho era um dos mais engajados, além de ser gente boa”, comenta o músico, que acompanha o tricolor desde o primeiro título nacional, em 1959, quando tinha 14 anos, e chegou a compor a canção O Dono da Bola antes da final de 1988, contra o Internacional.

O quase gol 1.000 de Pelé
Crítico ferrenho do futebol atual, Manezinho lembra com saudade de uma época em que a liberdade dava o tom e diferenciava o jogador brasileiro. Ele diz que o problema está no início: “De olho somente em estatística, a base mecaniza o jogador, tirando toda sua criatividade”, opina.

Apesar de ser um grande admirador dos dois maiores craques da atualidade, ele não esconde que é mesmo fã do Rei. Para ele, não houve e nunca haverá um jogador melhor do que Pelé.

“Admiro Cristiano Ronaldo como finalizador e Messi pelo jogador completo que é, mas ninguém iguala Pelé. Era muito criativo, inventou muita coisa que os outros imitam até hoje, além de ter uma impulsão enorme. Você ia disputar a bola com ele na cabeça e ele dominava no peito”, elogia.

O ex-ponta do Bahia teve o privilégio de estar em campo contra o Santos de Pelé na Fonte Nova, no jogo em que o Rei poderia marcar o milésimo gol, em 1969.

A comemoração foi adiada graças ao zagueiro Nildon, que tirou uma bola chutada por Pelé em cima da linha. Daquela partida, Manezinho se lembra de um lance que demonstrava toda a genialidade do maior jogador de todos os tempos.

“Ele pediu a bola e saiu driblando todo mundo. Tentei puxar a camisa dele, mas não consegui. Parecia um puma, ninguém pegava. Ele chutou a bola que bateu na trave e, no rebote, Jair Bala fez o gol”, recorda. O jogo terminou empatado por 1x1.

Da época de Bahia, Manezinho contabiliza histórias, uma delas sobre os três gols olímpicos de sua autoria, que se orgulha de contar.

No primeiro, teve um vigoroso incentivo vindo do então presidente: “Tinha o treinador, mas quem mandava era Osório Villas Boas. No intervalo, estávamos perdendo por 2x0 para o Botafogo da Bahia. Ele chegou pra gente e disse: ‘Um jogador nosso paga a folha do time deles toda. Se perder, vocês vão ficar três meses sem receber’. Nesse jogo fiz dois gols, o primeiro olímpico de pé direito e o segundo no rebote do goleiro, num chute de Canhoteiro. O jogo foi 2x2”, conta, eufórico.

A receita está fresca na memória. “Tem que ser ousado. Em vez de tentar colocar a bola na cabeça dos caras, eu batia direto pro gol, mirando no primeiro pau. Era sempre uma surpresa para o goleiro”.

Ele ganhou faixa de 88; e deu
Por causa das lesões, a carreira de Manezinho no futebol teve um fim precoce. A primeira cirurgia foi em 1970, no menisco esquerdo. Ficou seis meses parado. Um ano depois, passou pela segunda, no outro joelho. Infelizmente não teve mais como continuar e até hoje sente dor e toma remédios.

Mas, antes de deixar de jogar, ele guardou dinheiro e investiu na compra de três táxis. Chamou o pai e o irmão para trabalharem junto com ele e ainda arranjou tempo para estudar.

Foi aprovado no curso de Odontologia na Universidade Federal da Bahia (Ufba), onde se formou em 1977. “Era um visionário. Enquanto os outros jogadores não queriam saber de nada, ele ficou um ano estudando sem sair de casa. Não perdeu uma matéria na faculdade”, comenta a esposa, Leda Maria Machado de Oliveira, com quem é casado há quase 50 anos.

Mesmo como dentista, Manezinho foi campeão pelo Bahia. No título de 1988, ele era o responsável por cuidar da saúde bucal da equipe e recebeu a faixa de campeão brasileiro daquele ano. 

Desapegado, acabou dando ao amigo e torcedor fanático tricolor, o músico Lui Muritiba, que nem sabia que a preciosidade tinha sido dele: “Eu pedi muito a ele que me conseguisse, até que num churrasco na praia de Buraquinho, ele me deu. Mas não me falou como conseguiu, eu só soube agora. Está muito bem guardada, é uma relíquia”, comemora Muritiba.

Manezinho hoje
O ex-jogador passou 15 anos em Juazeiro, no Norte do estado, onde montou um consultório, e voltou a Salvador há cerca de três meses para atender na Boca do Rio, bairro onde tem um prédio com vários apartamentos que ele aluga. Manezinho não pretende parar. Ainda este ano, planeja  voltar à universidade e estudar Medicina.

O ex-atleta deixa recado para os aspirantes: “Futebol dura pouco e nem sempre dá dinheiro. Depois que acaba, ainda vai ter uma vida toda e vai viver de quê? Futebol é um dom, não se aprende, mas o conhecimento é obtido com estudo e com isso se pode ser o que quiser”, recomenda.

*Integrante da 13ª turma Correio de Futuro, sob supervisão do editor Herbem Gramacho.

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