‘Enquanto a vítima não está segura no Brasil, não tenho sossego’, diz youtuber que ajuda brasileiras no exterior

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26.09.2021, 16:00:00

‘Enquanto a vítima não está segura no Brasil, não tenho sossego’, diz youtuber que ajuda brasileiras no exterior

Daniele Boggione, do canal Sobrevivendo na Turquia, já resgatou cerca de 30 mulheres de situações como cárcere privado

No primeiro dia de 2020, a professora brasileira Daniele Boggione, 45 anos, recebeu um email inesperado. Em pleno Ano Novo, a mensagem era de outra brasileira - uma mulher de 25 anos que relatava estar em cárcere privado com o filho na Turquia, onde Daniele mora há duas décadas. Tratava-se de um pedido de ajuda - mais um dos que a professora se acostumou a receber desde que criou o canal  Sobrevivendo na Turquia, no YouTube, em 2013. 

Com quase 400 mil inscritos na plataforma, ela hoje desenvolve outro trabalho além da função de docente no Bacharelado Internacional para o currículo europeu: o de alertar e até resgatar mulheres que se envolvem com estrangeiros e acabam caindo em golpes. Por vezes, os casos são mais graves -  como esse do cárcere privado. Só presencialmente, em situações que incluem até perigo de morte iminente, ela estima já ter resgatado cerca de 30 mulheres. A ajuda virtual, porém, já passa da casa dos milhares. Por dia, Danny, como é mais conhecida, recebe, em média, 50 emails de mulheres que contam ter escapado de algum perigo depois dos vídeos do canal. 

“Os cárceres privados matrimoniais são mais comuns do que as pessoas fazem ideia. Muitas vezes essa prisão é feita de uma forma sutil, quando a vítima é impedida de se locomover para executar atividades simples, como ir ao mercado, com a desculpa do marido que ‘essa é uma tarefa muito cansativa”, explica a youtuber, que consegue movimentar uma rede de apoio que inclui de diplomatas brasileiros à polícia local.

Ex-esposa de um turco, Daniele acredita que o que é conhecido como machismo no Ocidente acaba sendo o modus operandi no Oriente. Por email, ela conversou com o CORREIO sobre diferenças culturais, os golpes mais comuns e como evitá-los. 

Confira a entrevista na íntegra 

Você costuma diferenciar muito os homens estrangeiros, assim como os golpes que alguns deles aplicam. No caso dos médio-orientais, que golpes são mais comuns? Que situações você mais costuma atender?

Vítimas de abuso doméstico e perda da guarda dos filhos - estrangeiras perdem a tutela dos  filhos por falta de instrução jurídica, desconhecimento da língua, costumes locais, sabotagens e outros fatores complicantes. Também cárcere privado, quando a mulher é impedida de sair de casa e é monitorada 24 horas por semana pelo marido ou por familiares dele. Ela tem seu passaporte retido pelo marido e seu contato com a família no Brasil/exterior é vigiado e restrito. Permitem algum contato da vítima com os familiares para não gerar suspeitas.

Algumas podem transitar pela casa para fazer serviços domésticos, mas são trancadas no quarto novamente no fim do dia. Outros casos são mais “sutis” de cárcere - ela tem livre acesso na casa, podem usar a internet sob supervisão do marido, mas só podem sair de casa acompanhados dos mesmos. E tem os crimes cibernéticos. 

São recorrentes os casos de brasileiras que caem no 'golpe do amor', como as histórias dos falsos militares americanos ou dos pacotes do aeroporto de Guarulhos. Que golpe é esse? Em que ele difere dos homens do Oriente Médio?

É o estelionato afetivo. Geralmente são oriundos do norte da África, Ásia e sudeste asiático. Golpistas criam perfis falsos na internet se passando por militares americanos ou engenheiros em plataformas de petróleo no exterior. Aproximam-se de suas vítimas através das redes sociais propondo um relacionamento sério.

Após conquistá-las, começam a pedir dinheiro com a desculpa que “tiveram seus bens e contas bancárias confiscadas pelo governo local” e pedem que elas enviem dinheiro para poderem voltar para seu país. Esse golpe é aplicado diversas vezes na mesma vítima, cada dia com uma desculpa diferente. Há vítimas que chegam a fazer várias remessas de dinheiro para o exterior. Após concluído o estelionato, elas são bloqueadas pelo falso namorado e somente então se dão conta que caíram em um golpe.

Tem o golpe do amor versão “tesouro em Guarulhos”/ “Golpe da mala-presente”. É o mesmo perfil: “militares” ou “engenheiros” travam um romance online com suas vítimas brasileiras, afirmam que as enviaram um presente muito caro (joias, produtos de grife a até dinheiro), mas dizem que “o pacote foi embargado pela Receita Federal” no aeroporto de Guarulhos, e para a liberação, elas precisam depositar uma certa quantia na conta física de uma suposta “transportadora”, para ter o pacote liberado. Após o depósito, o golpista bloqueia a vítima.

Já o “golpe do visto” geralmente é aplicado por homens que desejam sair de países pobres, politicamente instáveis e/ou zonas de guerra. Iniciam um romance virtual com brasileiras, propõem casamento e as convencem a levá-los para o Brasil. Quando no Brasil, elas são roubadas pelos maridos, ameaçadas, espancadas, e finalmente largadas pelos mesmos, que geralmente “encostam” em outra brasileira, tão vítima quanto a primeira. Vivem, então, nesse ciclo de golpes matrimoniais para poderem ficar no Brasil sem precisar trabalhar.

O golpe dos “nudes” é quando estelionatários aplicam o golpe sob o disfarce de um relacionamento romântico. Após ter conseguido uma quantidade suficiente de fotos e vídeos íntimos de suas vítimas, as chantageiam exigindo dinheiro em troca de não expô-las na internet. Em alguns casos, os golpistas vendem essas fotos e vídeos para sites pornôs. Vídeos e fotos “com cabeça” (com o rosto da vítima exposto) têm maior valor no mercado sexual.

E o tráfico de pessoas. As vítimas são aliciadas por traficantes a fim de serem exploradas para diversos fins, que vão desde a exploração sexual, trabalho forçado análogo à escravidao, rapto de menores para a adoção irregular, até a retirada de órgãos humanos para a venda no mercado paralelo. O aliciamento geralmente é feito através de propostas enganosas de trabalho vantajosos e bem remunerados no exterior.

Existe uma vítima em potencial? Por que as brasileiras são tão visadas?

Qualquer um pode ser uma vítima em potencial. A vulnerabilidade nem sempre provém da camada socioeconômica menos privilegiada; fatores como a carência e ganância também fazem vítimas dentre as classes sociais mais elevadas. As brasileiras são visadas porque, citando as palavras de um estelionatário afetivo que entrevistei: ‘são românticas e acreditam em qualquer coisa que dizemos… muito fáceis de enganar. Freguesas’. Eu perguntei se ele não se arrependia por enganar e extorquir mulheres inocentes, e ele respondeu: ‘Elas são carentes e eu dou a atenção que elas querem. Eu acho justo’, disse o golpista.

Em alguns vídeos, você já comentou que mora há 20 anos na Turquia e não conhecia esses golpistas até ser apresentada pelas mulheres que te procuram. Como foi esse choque ao perceber esse outro lado?

Eu somente fui entender a gravidade do problema quando dei início ao meu canal no YouTube e comecei a receber os relatos das vítimas. O crime migrou fortemente para as plataformas digitais na última década e eu não estava ciente do fenômeno, portanto, foi um choque me deparar com essa realidade.

Um dos casos de maior repercussão do canal foi o de resgate de 'Rose' (nome fictício), uma brasileira que estava em cárcere privado na Turquia. Pode falar sobre como essa situação chegou até você? O que vocês precisaram fazer?

No dia 1 de janeiro de 2020, a brasileira ‘Rose’, de 25 anos, entrou em contato comigo por e-mail, afirmando que estava em cárcere privado na Turquia, juntamente com seu filho (brasileiro) de 5 anos. Após verificar a autenticidade do pedido de socorro, entrei em contato com o Consulado do Brasil em Ancara, que afirmou estar em recesso na ocasião. A vítima também afirmou ter tentado contato com o consulado antes de falar comigo, sem sucesso. Mas a situação era grave: a brasileira, sem um chip no celular para ligações, grávida e com um menor, foi abandonada em um apartamento pelo companheiro iraquiano, refugiado na Turquia, que havia conhecido pela internet.

Depois de trancá-los, a bloqueou nas redes sociais e retornou para o Iraque. Segundo ela, a comida estava acabando e a água da torneira também (alguns apartamentos aqui tem o sistema de crédito pré-pago de abastecimento d'água e o crédito estava terminando). Ela não podia pular, pois estava em um andar alto. Ele também havia tomado todo o dinheiro que ela trouxe do Brasil.

Após a negativa da embaixada, eu acabei entrando em ação sozinha para tentar ajudá-la, mesmo sabendo dos riscos: entrei em contato com a polícia em Ancara (cidade onde moro), expliquei o caso, o qual classificaram como urgente. O policial pediu o endereço, ativou a polícia de Eskişehir, onde a brasileira se encontrava (a 240 quilômetros de Ancara) e, em menos de 10 minutos, a polícia tirou ambos do cativeiro. Como ela não tinha dinheiro e não conhecia ninguém na cidade, foi levada para um abrigo de mulheres pela polícia, juntamente com o filho. Liguei novamente para a Embaixada do Brasil, avisando que tinha acionado a polícia turca, que resgatou mãe e filho e os colocou em um abrigo de mulheres em Eskişehir. Reforcei que ela precisava de apoio. Finalmente o um funcionário consular me passou o numero de urgência, o qual repassei para a Rose, que entrou em contato com eles.

O agente consular a informou que não poderiam buscá-la em Eskişehir. Gravei um pedido de socorro no canal. Após isso, ela conseguiu uma carona até Ancara e foi recebida pelo cônsul, que a encaminhou para Istambul. Em Istambul ela recebeu apoio de amigos do cônsul, que embarcaram mãe e filho de volta para o Brasil. Ela só conseguiu retornar ao Brasil porque tinha o dinheiro da passagem, que foi enviado por uma amiga. O Brasil não repatria nesses casos, conforme o cônsul informou a Rose.

São frequentes os casos de cárcere privado? Como você começou essa rede que resgata e ajuda essas mulheres?  

Infelizmente, sim. Os cárceres privados matrimoniais são mais comuns do que as pessoas fazem ideia. Muitas vezes essa prisão é feita de uma forma sutil, quando a vítima é impedida de se locomover para executar atividades simples, como ir ao mercado, com a desculpa do marido que “essa é uma tarefa muito cansativa”. Os agressores bloqueiam os contatos das vítimas com familiares e amigos, geralmente com outra desculpa que eles “não são influências boas para a esposa e que ela somente precisa dele em sua vida”. Portas e janelas são trancadas e somente ele ou um membro familiar tem acesso a chaves. Em outros casos, quando as mulheres não são trancadas fisicamente, são ameaçadas pelos maridos e sofrem todos os tipos de pressão psicológica, impedindo que elas peçam socorro.

Outra história muito marcante foi de uma jovem brasileira que fugiu para a Síria. Havia a suspeita da família de que ela tinha se juntado a um grupo extremista. Tem alguma notícia desse caso? Como você foi procurada para ajudar?

Após a família fazer um pedido de socorro em um grupo de Facebook, relatando o desaparecimento da jovem de 19 anos na Turquia, a administradora da página entrou em contato comigo. Entrei em contato com a irmã da vítima e após receber maiores detalhes, entendi que ela possivelmente tinha sido aliciada para se juntar a alguma facção terrorista na Síria. Rascunhei junto com a irmã um email para a Embaixada do Brasil em Ancara, que retornou confirmando nossas suspeitas.

A jovem havia somente passado pela Turquia para chegar ao seu destino final, que seria a Síria, para se juntar ao seu namorado sírio, pressupostamente um terrorista, que havia conhecido pela internet. 

A família afirma que a jovem sofria de depressão, passava muito tempo sozinha no quarto falando em inglês no celular de madrugada, converteu-se ao islã, começou a usar o hijab e frequentava uma mesquita, acompanhada da mãe. Gostava de desenhar mulheres carregando metralhadoras em cenas violentas que pareciam ilustrar o terrorismo. Apesar disso, a família não via motivos para maiores preocupações, já que era uma menina pacata que passava os dias trancada no quarto.

Infelizmente não tivemos mais notícias dela.

Tem ideia de quantas pessoas já te procuraram? Na maioria das vezes, são vítimas ainda fragilizadas ou pessoas que já conseguiram sair de alguma situação dolorosa ou de violência?

Sinceramente não saberia quantificar, porque o canal tem um conteúdo profilático, de alerta, portanto, muitos golpes são evitados antes mesmo de termos que entrar em ação. Temos uma média mensal de 3,5 milhões de visualizações e recebo uma média de 50 e-mails/direct (mensagens diretas no Instagram) diários de mulheres relatando que escaparam de algum tipo de golpe após os alertas do canal. Se contarmos os casos presenciais e urgentes (cárceres privados, extração de menores da mãe, perigo de morte iminente e violência doméstica com risco à vida), cerca de trinta mulheres. Já casos não presenciais, acredito que socorremos milhares.

Teve alguma situação que mexeu mais com você até hoje? Poderia falar um pouco sobre ela?

O resgate da Rose com o filho e também, aproximadamente seis meses depois, o de uma outra brasileira que provavelmente seria vítima do tráfico de órgãos. Em ambos casos, contei com o apoio da polícia turca e de uma brasileira em Istambul, que embarcou ambas mulheres de volta para o Brasil. Não sei dizer ao certo o que eu sinto nessas situações… A única coisa que posso afirmar com certeza é que entro no “piloto automático” para resolver a situação quando ela está acontecendo; não tenho tempo para sentir tristeza ou medo. Eu foco na meta: embarcar a vítima de volta para o Brasil, onde estará segura. Enquanto isso não acontece, eu não tenho sossego.

Por que os apps para aprender idiomas são tão usados por golpistas?

Não somente os apps de idioma, mas também apps de jogos, apps de karaokê, salas de bate-papo, sites de relacionamentos e as redes sociais em geral. A possibilidade de abrir um perfil falso é uma grande vantagem para que um golpista possa atuar livremente e impunemente. Um pedofilo, por exemplo, pode se passar por uma garota de 13 anos para poder se aproximar de crianças e adolescentes; um traficante de pessoas pode se passar por um ‘scouter’ de modelos, um estelionatário sentimental pode simular um relacionamento amoroso com a vítima até obter o lucro que almeja -  e por aí vai. As possibilidades de golpe e decepção são inúmeras.

Existem, ainda, os relacionamentos reais entre brasileiras e homens de países do Oriente Médio. Em geral, as mulheres que te procuram para contar de relações que começaram de forma presencial têm histórias diferentes. Nesses casos, quais são os problemas? Quais são as dificuldades delas nesses relacionamentos?

As diferenças culturais entre o Oriente e o Ocidente podem se provar irreconciliáveis em um relacionamento, que infelizmente não depende somente do amor entre o casal. As decisões sobre a vida do casal no Oriente Médio geralmente são feitas em conjunto, com a participação da família, que poderá interferir em menor ou maior grau.  O casal sempre terá milênios de exigências culturais e pressão da família entre eles.

Você também foi casada com um turco, que foi, inclusive, o motivo da sua mudança para a Turquia. Tem algo da sua experiência que vê se repetindo nos casos que chegam para você?

Algumas, sim. Não fui vítima de golpe algum, meu ex-marido era uma pessoa íntegra e honesta, porém existem valores que são inegociáveis para um médio oriental. Não que as exigências sejam ruins, mas são exigências, portanto a “candidata” deve estar ciente disso e avaliar se está pronta para renunciar aos seus próprios valores.

Você disse algumas vezes nos vídeos que não apresentaria uma amiga brasileira a um amigo turco, nem o contrário. Por quê?

De maneira nenhuma! (risos). Na verdade, meus melhores amigos são turcos, a Turquia é minha casa, onde construí minha vida e minha família. Um país que amo e devo respeito. Porém, eu nunca apresentaria nenhum dos meus queridos amigos, por melhor que sejam, para nenhuma das minhas amigas. Como disse acima, não é interessante para nenhum dos lados. Fora que, pessoalmente, eu acho que um relacionamento deve acontecer naturalmente e não arranjado.

Em muitos momentos, você frisa que o machismo é algo do Ocidente. No Oriente Médio e países como a Índia, a situação iria além disso. Qual é a diferença?

O que é considerado “machismo” no Ocidente, é muitas vezes o modo operante nos países do Oriente. Uma atitude machista no Ocidente, por exemplo,  não somente não é considerada machista no Oriente, mas também vista como dever do homem oriental, e dependendo do país, até previsto por lei.

Existem sinais que alguém pode identificar, quando está prestes a cair em um golpe desses - seja o do prejuízo financeiro ou seja algo ainda mais grave, como um cárcere privado? Que sinais seriam esses?

As informações pessoais divulgadas nas redes sociais são materiais de trabalho importantes para os golpistas. Por exemplo, em um perfil X, a cidadã diz ser separada, sinaliza que faz parte de grupos de jardinagem ou  grupos de animais de estimação, e que gosta de música sertaneja. Essas informações são valiosíssimas ao golpista!

Ele vai montar uma personagem à altura dos seus gostos e desgostos e irá se aproximar dela com um pedido de amizade, como quem não quer nada, mas já com um roteiro pronto para aplicar o golpe. Quanto menos exposição, melhor, porque ainda quando o internauta é discreto, algum rastro será deixado online. Às vezes uma curtida em algum post aleatório, já deixa a pessoa exposta.

Também receber uma solicitação de amizade ou um “direct” aleatório de um estrangeiro nas redes sociais nem sempre é um elogio ou motivo para empolgação. Talvez você tenha sido escolhida justamente porque tem o perfil de uma presa fácil e vulnerável. Os golpistas estudaram seu perfil, principalmente os abertos ao público, e sabem como se aproximar de você para levar vantagem. Nunca subestime os riscos de estarem online. Criminosos virtuais são ótimos investigadores e ainda melhor atores. Cabe a você, ser mais astuta e menos disponível às investidas. Geralmente, o que parece bom demais para ser verdade, é. Menos fígado e mais cérebro! 


 

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