Enterrado menino de oito anos morto em ataque de facção em São Cristóvão

salvador
31.08.2020, 18:00:00
Atualizado: 31.08.2020, 19:53:07
Família não permitiu que imprensa acompanhasse o sepultamento em Itapuã (Arisson Marinho/CORREIO)

Enterrado menino de oito anos morto em ataque de facção em São Cristóvão

Um adolescente que também foi baleado está em coma no HGE, segundo moradores

Em momentos como o que vivemos, o jornalismo sério ganha ainda mais relevância. Precisamos um do outro para atravessar essa tempestade. Se puder, apoie nosso trabalho e assine o Jornal Correio por apenas R$ 5,94/mês.

Vítima de bala perdida num ataque de uma facção ao grupo rival de Vila Verde, em São Cristóvão, Renadson Oliveira Santiago, 8 anos, foi enterrado na manhã desta segunda-feira (31), no cemitério municipal de Itapuã. O crime aconteceu na noite do último sábado (29), quando o menino saiu de casa para comprar batata frita e acabou surpreendido por traficantes que chegaram atirando. Segndo moradores, ele não conseguiu correr e morreu com um tiro nas costas.

A segunda vítima do ataque, um adolescente de 16 anos, continua internada no Hospital Geral do Estado (HGE). Não há informações sobre o estado de saúde dele, mas moradores de Vila Verde que estavam no enterro de Renadson disseram que o rapaz está em coma e que ele foi baleado duas vezes – um tiro atingiu a perna e o outro a coluna – e por isso ele corre o risco de ficar paraplégico. O CORREIO ainda aguarda um posicionamento da Polícia Civil em relação a quem são os autores e qual foi a motivação do crime.

O sepultamento de Renadson, que estava marcado para as 10h, começou com quase uma hora de atraso por causa da demora da chegada do corpo. Pouco depois de início da cerimônia, parentes do garoto não permitiram a entrada das equipes de reportagem, que acompanharam tudo de longe. 

'Ele ficou estático'
Algumas pessoas que preferiram não entrar no cemitério conversaram com o CORREIO, mas sem se identificar. Um morador deu mais detalhes do que aconteceu na noite em que Renadson foi assassinado:

“Ele voltava para casa, tinha saído para comprar as batatas. Uma mulher que estava sentada perto dele viu os homens saindo do matagal tudo armado e gritou: ‘corre todo mundo que o bicho vai pegar’. Mas, ele ficou estático e foi baleado. O tiro pegou nas costas e saiu na clavícula”, lamentou o morador.

Ele falou também sobre a situação do adolescente baleado, que está internado no HGE. “A família dele conhece os pais de Renadson, mas não vieram porque está com o rapaz no HGE. Um tiro atingiu a coluna e os médicos disseram à família que ele pode ficar sem andar. Os dois não entram nada na guerra deles, mas infelizmente quem acaba pagando é quem não tem nada a ver”, disse.

Testemunhas relataram que os disparos foram efetuados por cerca de oito traficantes do Bonde do Maluco (BDM) de Mussurunga II, do setor L. A notícia do ataque gerou um revide. Logo depois, um grupo do Comando da Paz (CP), que controla o tráfico local, contra-atacou com cerca 15 homens armados e expulsou os rivais.

“Mas os dois foram atingidos quando o grupo do setor L chegou atirando. Só depois da confusão que os de lá chegaram e botaram os rivais para correr. Então, as vítimas não foram baleadas em confronto, como diz a polícia”, relatou outro morador. 

No domingo, a Polícia Civil informou que Renadson brincava na praça ao lado da residência, quando grupos de traficantes rivais iniciaram uma troca de tiros. O garoto tentou correr e acabou baleado nas costas. Autoria e motivação serão apuradas pela 1ª Delegacia de Homícidios/Atlântico. 

Ataque
O ataque aconteceu pouco depois das 23h, na Rua Jardim Botânico. O fim da rua dá para uma vegetação que separa Vila Verde do setor L de Mussurunga II. Segundo moradores, a Praça Vila Verde costuma estar cheia porque é a única distração da comunidade.  Além da movimentação habitual de bares, pessoas nas portas, havia um aniversário de um dos comerciantes.  

Bandidos subiram atirando e menino morreu baleado nas costas
(Foto: Tiago Caldas/Arquivo CORREIO)

De acordo com os moradores, Renadson havia pedido dinheiro À mãe e saiu para comprar um saco de batata frita num bar perto de casa.

“Isso é normal. Pelo fato de todo mundo aqui se conhecer, as crianças saem tranquilamente porque sempre alguém daqui está olhando. Mas, ontem foi diferente. Foi terrível. Nunca tinha visto aquilo”, contou um dos moradores no domingo ao CORREIO.

Oito homens, três deles encapuzados, saíram da mata atirando para todos os lados. “As pessoas correram desesperadas tentando se proteger e foi nessa hora que o menino foi baleado”, contou ele.

Renadson estava a poucos metros de casa quando foi atingido nas costas. “A prima dele, que estava perto, pegou ele nos braços e levou para a mãe dar socorro, mas um deles (criminosos) apontou a arma para ela e mandou deixar a criança no chão, caso contrário a mataria também. A prima não teve escolha”, detalhou o morador. Renadson morreu no local.

Já o adolescente baleado quando estava no aparelho de ginástica conseguiu ser resgato pelos moradores, que o socorreram posteriormente. A notícia do ataque levou a uma reação imediata dos traficantes da área que, em número maior, conseguiram, à base de tiros, expulsar os rivais. “Esse confronto já dura mais de um ano. A maioria que veio de lá era daqui. Morava aqui antes. Aí, mudou para o outro lado e estão tentando tomar o bairro para eles. Mas, pelo que conheço os caras daqui, isso não vai ficar assim”, disse o morador. 

A Polícia Militar informou em nota que, de acordo com a 49ª CIPM, por volta das 23h de sábado (29), policiais militares da unidade foram acionados pelo Cicom após informações de uma vítima de disparos de arma de fogo na Rua Jardim Botânico, no bairro Vila Verde. Uma equipe médica do Samu foi acionada e constatou o óbito. A área foi isolada e o Serviço de Investigação de Local de Crime (Silc) foi acionado. Na UPA de São Cristóvão, a guarnição foi informada que havia outra vítima da ocorrência, em seguida foi prestado apoio a ambulância no deslocamento até o HGE.


***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas