ESG: é possível investir se preocupando com o meio-ambiente e o social

economia
30.01.2021, 06:00:00
Atualizado: 05.02.2021, 20:08:55
Você pode investir em fundos mais responsáveis e dormir tranquilo (Rodnae Productions / Pexels)

ESG: é possível investir se preocupando com o meio-ambiente e o social

Conheça os fundos de investimentos que avaliam o risco ambiental, social e o destino do seu dinheiro ao aplicá-lo

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Se você começou a se interessar por investimentos nesse início de 2021 e tem aberto sites sobre o tema nas últimas semanas, com certeza se deparou várias vezes com essa sigla: ESG. Ou, talvez, tenha encontrado a versão em português dela: ASG.

ESG e ASG são os tópicos mais em alta nesse início de década, totalmente em consonância ao tempo em que vivemos. Trata-se de investimentos sustentáveis, aqueles que não visam o lucro a qualquer circunstância, mas sim com algum controle do seu impacto na sociedade.

E (ou A) vem de Enviromental (Ambiental em inglês), S vem de Social e G vem de Governance (Governança em inglês).

Em resumo: ESG ou ASG é uma categoria de investimento que leva em conta, na sua avaliação, a preocupação com os impactos no meio-ambiente, com a garantir de retorno social e com o destino do dinheiro, para que seja destinado a atividades muito claras.

“Em qualquer investimento existe o ‘dever fiduciário’. Quem é gestor de um fundo ou de uma carteira de investimentos deve atuar sempre em prol do patrimônio do seu cliente. Ele deve fazer com que tenha o melhor retorno sempre e que seu patrimônio esteja sempre protegido.  Além disso, deve garantir que o fundo siga a política de investimentos escolhida pelo cliente”, diz Máximo Marmund, especialista em investimentos pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros e de Capitais (Anbima).

“Antigamente, se acreditava que colocando questões de defesa ambiental, social e governança você poderia sacrificar parte do retorno. É como se essas restrições limitassem o resultado ótimo e maximizado do retorno”, completa o especialista. “Só que depois de muita pesquisa e muito estudo, percebeu-se que alguns investimentos que pautam ESG de fato têm retornos muito altos a longo prazo, derrubando essa ideia”.

“Tem fundos que investem em distribuição de água, por exemplo, ou fundos que buscam obter algum impacto social. E eles são muitos claros nisso, eles quantificam dizendo ‘você investiu X reais e tantos % foram para essa atividade social Y’. Então eles dizem onde foi colocado aquilo que você investiu. Cuidando, também, para que aquele valor não vá financiar, lá numa ponta muito distante da cadeia, uma atividade ilegal como corrupção ou venda de drogas, por exemplo”, exemplifica Marmund.

Em resumo, são aplicações em que o investidor alinha aquilo que acredita com o retorno financeiro. "Você investe muito mais tranquilo. Acredito que isso é muito legal especialmente para quem está começando nesse mundo, dando os primeiros passos. Porque há aquela ideia de que mercado financeiro é só dinheiro por dinheiro, gerando desigualdade, e esses fundos ESG são uma forma de diminuir isso", argumenta o especialista.

Ou seja, o gestor de um fundo de investimentos ESG vai estudar a política das empresa em relação ao meio-ambiente, ao impacto das suas ações na sociedade e no controle do uso do dinheiro. E ele só vai comprar ações de empresas que sigam rigorosamente essas políticas. Se elas obedecem aos pactos de clima, por exemplo, ou se realizam as contrapartidas ambientais e sociais pela instalação de uma fábrica.

Questão de necessidade

O crescimento desses fundos que se pautam pela preocupação ESG - e não apenas pelo retorno financeiro a qualquer custo - nesse início de Século XXI não é à toa. Cada vez mais, as grandes empresas estão sendo obrigadas por governos, como o da União Europeia, e por pactos internacionais a controlarem, por exemplo, o seu desmatamento e a sua emissão de carbono. E empresas que seguem essa política governamental, portanto, podem obter melhores resultados nesses mercados regulados.

Além disso, a preocupação com o futuro, sobretudo do aquecimento global, é genuína. Até porque o clima pode gerar um prejuízo impossivel de ser administrado por parte das maiores empresas que atuam no mercado financeiro, como é o caso das seguradoras.

"As seguradoras administram fundos com bilhões, trilhões de dólares, correto? Porque? Quando ocorre um grande desastre natural, quem precisa bancar os prejuízos materiais são as seguradoras. Então, digamos que o impacto do Furacão Katrina custou a uma determinada seguradora R$ 80 bilhões de dólares. É pesado, né? Mas e se você pensar que um furacão desses pode acontecer todo ano daqui a 20, 30 anos, por conta das mudanças climáticas?", explica Máximo Marmund.

Além disso, os fundos começaram a se pautar pelo ESG pela própria sobrevivência de seus negócios. Como sobreviver no mercado vendendo e comprando ações de empresas que podem ter um curto período de vida?

"Quando alguém analisa qual investimento vai fazer, ela está sempre - ou deveria estar - pensando no longo prazo, algo que do qual ela vai poder usufruir daqui a 20, 30 anos. Só que tem um porém: o que tá acontecendo hoje, atualmente? Um movimento forte de carros elétricos, de fomento à energia solar, eólica. Controle da emissão de carbono, do uso da água. Essas são as tendências para o futuro", explica o especialista.

"Então, quando a pessoa pensa em investir, ela precisa investir em empresas que daqui a 20, 30 anos estarão vivas. Uma empresa que hoje trabalha com energia eólica ou solar é uma empresa com maior chance de sobrevivência. Se você colocar todo o seu dinheiro numa petrolífera, será que daqui a 30 anos ela estará viva, valorizada? Naturalmente, os fundos que miram companhias que estão se adaptando às novas tendências terão preferência no mercado", completa Marmund.

Mas, quem considera um determinado fundo como ESG? Existem agências e órgãos que monitoram isso e determinam critérios para que um fundo seja entitulado ESG. Um deles é o PRI (Principles for Responsible Investment), órgão mundial, parceiro das Nações Unidas, que determina seis princípios de governança ambiental e social e acompanha fundos de investimento.

Além disso, na própria bolsa brasileira, a B3, existem índices que apontam a aderência de companhias a determinadas políticas ambientais e sociais. Um deles é o ICO2, que faz o ranking de empresas mais eficientes na gestão do carbono. Ou, outro exemplo, o ISE, Índice de Sustentabilidade Empresarial, que apontam empresas com melhores práticas sociais e de governança.

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