Esquema de falsos médicos na Bahia teve morte, plantão ilegal e registro fake

bahia
10.09.2021, 05:30:00
(Shutterstock)

Esquema de falsos médicos na Bahia teve morte, plantão ilegal e registro fake

Prefeitura e Câmara de Vereadores acreditam que haja quadrilha em Cruz das Almas; um paciente morreu

Vereadores e a prefeitura de Cruz das Almas, município do Recôncavo baiano, suspeitam que haja uma quadrilha atuando em hospitais na cidade. Após um suposto erro na hora da intubação, que causou a morte do paciente Ronaldo Conceição Teles, 42 anos, no dia 5 de abril deste ano, a Comissão Especial de Investigação (CEI) -CPI de caráter municipal -  instaurada pela Câmara Municipal descobriu que a médica que supostamente tinha atendido Ronaldo Teles, Alana Maria Sena Ferreira, na verdade, nunca foi contratada pelo município e não foi ela quem o atendeu naquele dia. A polícia investiga o caso.

Pelos prontuários médicos da Prefeitura, no entanto, consta que quem se fez passar por Alana esteve em três plantões diferentes pelo município, entre março e agosto de 2021. Com o avanço das investigações, um segundo caso foi descoberto, desta vez, pela Secretaria Municipal de Saúde de Cruz das Almas. A médica Nara Djane Barbosa Novais assina prontuários e receitas médicas nos postos de saúde da cidade desde outubro de 2020. Contudo, a verdadeira Nara Djane mora e trabalha em Petrolina, Pernambuco, a mais de 460 quilômetros de Cruz das Almas.

Ao diretor médico de Cruz das Almas, Vitor Lúcio Alves, Nara Djane afirmou que nunca tinha estado no município baiano, nem de passagem. “Só conheço de nome”, afirma ela, em vídeo divulgado pela Prefeitura. Nele, ela se diz surpresa com os prontuários em seu nome em unidades covid-19 da cidade. “O nome é igual, o CRM é o mesmo, mas a assinatura não é a minha e nem a letra”, afirma. Esse segundo caso ainda não está sendo investigado pela CEI, somente pela Secretaria de Saúde.

Nara, que é especialista em patologia, segundo consta no site do Conselho Regional de Medicina do Estado da Bahia (Cremeb), disse que isso já ocorreu com ela antes, no início do ano. “Abri uma denúncia no Cremeb e na delegacia, em abril, porque fiquei sabendo que uma pessoa estava usando indevidamente meu CRM em outro município. Um paciente me ligou e viu, pela foto do Cremeb, que não era a mesma pessoa, e que isso já tinha acontecido na cidade dele, em Nilo Peçanha”, conta Nara Djane (CRM 23333 BA).

A médica patologista Nara Djane informou à polícia que mora e trabalha em Petrolina, PE (Foto: Divulgação)

Ela não quis passar os números dos boletins de ocorrência que disse ter aberto sobre os dois casos. “A Justiça já tem todos os dados”, comentou. Ao ser perguntada se alguém teria estado em seu lugar no plantão em Cruz das Almas, ela disse que o caso agora está nas mãos da polícia, “que é quem realmente pode resolver essa situação”. Alana Maria Sena Ferreira (CRM 30244-BA) foi procurada pela reportagem, mas não respondeu.

Depois de descobrir esse segundo caso, a Secretaria de Saúde de Cruz das Almas afirmou, em nota, que isso “leva a suspeitar que o crime vem ocorrendo há algum tempo e pode ter outros municípios da região envolvidos”.

Essa também é a tese do vereador Paulo Sérgio Oliveira, presidente da Comissão de Investigação na Câmara, que não descarta que as pessoas que se fizeram passar pelas médicas sejam também médicos.

“Acredito que tenha uma quadrilha, com médicos envolvidos, porque já ouvi queixas de outros profissionais em outros municípios. Temos prints de grupo de Whatsapp dos médicos oferecendo plantão, para um cobrir o plantão do outro no posto de saúde, e o pagamento é em dinheiro vivo”, conta o vereador. O CORREIO teve acesso às mensagens e viu que qualquer médico, mesmo sem ser contratado pela Prefeitura, poderia atuar nos postos de saúde por esse esquema de permuta, sem mesmo apresentar documentação.

Segundo a secretária de saúde interina, Kaliane Ferreira, não havia controle de quem estava ou não no plantão, porque o diretor médico dava autonomia para que os contratados fizessem trocas com quem quisesse. Ela afirma que Alana e Nara não foram contratadas pela Prefeitura. “Segundo a Comissão, que está acompanhando o fato com a secretaria, elas [quem se passou por Alana e Nara] vieram cobrir o plantão de colegas, que foram contratados pelo processo seletivo de 2020”, esclarece Kaliane.

Quem são?
Sobre a falsa Alana, não há indícios de quem seja, porque os colegas não conseguiram identificá-la. A verdadeira Alana foi ouvida em 19 de agosto pela CEI e confirmou que, no dia 4 de abril, estava trabalhando em Uauá. “Todos que foram ouvidos não sabem quem é essa mulher, porque ela ficou 24h paramentada. Disseram que não podem responder por ética médica. Mas essa mulher tem que aparecer, porque foi uma vida perdida”, acrescenta o vereador.

A médica Alana Ferreira se reuniu com vereadores em Uauá, onde trabalha (Foto: Divulgação)

Já no caso da falsa Nara, há pistas das características físicas dela, de acordo com a secretária interina. A partir de agora, só será permitida a troca de plantão entre contratados da prefeitura. Em meio a tudo isso, no dia 1º de setembro, o secretário de Saúde de Cruz das Almas, Sandro Borges, pediu afastamento do cargo, um dia antes de depor à CEI. Foi a terceira vez que ele foi convocado, o que o levaria a ser conduzido coercitivamente.

O vereador Paulo Oliveira ainda afirmou que a CEI enfrenta outra dificuldade: o sistema do Tribunal de Contas dos Município (TCM) ficou fora do ar durante oito dias. A sorte dos vereadores foi que os documentos  tinham sido salvos antes e possíveis alterações nos valores dos contratos só estão sendo investigadas agora. 

Investigações em curso
Além de uma investigação interna na Secretaria de Saúde de Cruz das Almas, a polícia local e a Polícia Federal investigam o caso. A pasta também formalizou com o Cremeb e o Ministério Público da Bahia. O MP confirmou que recebeu a notícia-crime da Prefeitura na quarta-feira (1º) da semana passada “em relação a duas pessoas que se valeram de falsa identidade para se passar por médicos e está apreciando o fato para adotar as medidas cabíveis”, informou o órgão.

Já o Cremeb instaurou uma sindicância para apurar os fatos. “Caso haja indícios de infração ética, será aberto um Processo Ético-Profissional. No entanto, toda denúncia no Cremeb tramita em segredo de Justiça”, explicou. Quanto às possíveis penalidades, as falsas médicas poderão responder por advertência e censura confidencial em aviso reservado, censura pública em publicação oficial, suspensão do exercício profissional por até 30 dias e cassação do exercício profissional.

A Polícia Civil informou que a investigação está em fase inicial, “não tendo elementos suficientes para afirmar se realmente existe uma quadrilha de falsos médicos atuando na região. Também não existem elementos para afirmar que a morte de Ronaldo Conceição Teles foi decorrente de erro médico”, diz a polícia. “Até onde foi apurado, a responsabilidade criminal pela atuação da falsa médica foi do coordenador médico das Unidades de Emergência, que indicou a pessoa que se passou pela médica. Esse coordenador pediu exoneração e não foi localizado para ser ouvido.”

A médica Alana Maria Sena Ferreira confirmou à Polícia Civil que nunca atuou em Cruz das Almas e que, no dia 5 de abril deste ano, estava em atendimento médico na UBS de Caldeirão do Almeida, no município de Uauá.

Também prestou depoimento a coordenadora de Enfermagem do PA Covid de Cruz das Almas, “bem como já foram acrescidas aos autos as escalas de Plantão do PA Covid e os processos de pagamentos, onde não consta o nome da verdadeira médica”, informou a Polícia Civil, através da assessoria.

Em relação a suposto erro na vacinação no município que está sendo apurado pela CPI na Câmara (leia abaixo), o assunto não é objeto de apuração, por se tratar de fato atípico e responsabilização administrativa e não criminal.

Procuradas, a Polícia Federal e a Associação Bahiana de Medicina não deram retorno até o fechamento desta edição. Alana Maria Sena Ferreira foi procurada através do advogado, mas não respondeu às ligações ou mensagens, assim como o presidente da Câmara Municipal de Cruz das Almas, Thiago Chagas. 

Comissão na Câmara Municipal apura erros na vacinação
Além da morte no dia 5 de abril de Ronaldo Teles, a Comissão parlamentar da Câmara Municipal de Cruz das Almas também apura um suposto erro na vacinação contra a covid-19 no município, sobre a troca de vacinas e adulteração e destruição de cartões de vacinação dos pacientes. Na última quarta-feira (07/09), a CPI ouviu Daniela Silva Menezes, moradora do Ana Lúcia e filha de Antônia Menezes, que relatou que sua mãe teve o cartão de vacina tomado e rasgado, além de ter sido informada que registraram a vacina errada.

Segundo assessores parlamentares, são mais de 100 cartões de vacinação que foram rasurados e/ou rasgados. Além disso, vários idosos, que se vacinaram nos dias 22 e 23 de março de 2021, receberam a segunda dose da fabricante errada. Era para terem recebido a Coronavac/Sinovac, da China em parceria com o Instituto Butantan, mas, nos postos de vacinação, receberam a Oxford/Astrazeneca. A Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab) foi procurada para comentar o caso, mas não respondeu até o fechamento. 


*Sob orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro

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