Explosão de casos de covid-19 pressiona produtividade e impacta rotina das empresas

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27.02.2022, 11:00:00
Funcionários da Avatim foram vacinados dentro da empresa, para conter a disseminação do vírus (Foto: Taironny Maia/ Divulgação)

Explosão de casos de covid-19 pressiona produtividade e impacta rotina das empresas

Onda de afastados: organizações reforçam campanhas de prevenção, estimulam vacinação de colaboradores e voltam a intensificar o home office

Em uma unidade inteira, 20% da força de trabalho afastada por casos de covid, logo nas primeiras semanas de janeiro. Essa nova onda foi a que mais atingiu a Avatim, em número de casos simultâneos. “A cada funcionário afastado, orientávamos os demais a observar sintomas e encaminhávamos para testagem. Todos foram vacinados aqui na empresa, o que possibilitou uma garantia maior da segurança e prevenção”, pontua o diretor administrativo-financeiro da Avatim, Wald Melo. 

A chegada da variante ômicron atingiu com tudo a operação das empresas no primeiro bimestre de 2022, na mesma velocidade do crescimento de infecções pelo vírus desde o último mês. Ainda do caso da Avatim, o impacto se estendeu a cadeia de fornecimento de insumos, como complementa Melo:

“Os afastamentos não chegaram a comprometer a produção, mas tivemos dificuldade com disponibilidade de matéria-prima como as embalagens importadas da China e em derivados do papel no mercado nacional. Isso gerou uma falta provisória de alguns produtos do portfólio. Porém, essa situação já está sendo normalizada”.

Na Avatim trabalham 410 colaboradores contratados diretamente pela sede, instalada em Ilhéus. “Difícil dimensionar perdas nesse momento. Precisamos ser responsáveis, altruístas e assertivos”, reforça. 

A alta incidência da variante no país, levou o Ministério do Trabalho e Previdência a fazer atualizações nas portarias 19 e 20, que estabelecem um conjunto de medidas controle e prevenção dos riscos de transmissão no ambiente de trabalho. As principais delas foram a redução no tempo de afastamento por covid - que caiu de 15 para 10 dias - e a não obrigatoriedade de apresentação de atestado para licença de 10 dias.  

Juíza do Trabalho e professora do curso de Direito do UniRuy Wyden, Angélica de Mello destaca que o home office não pode ser confundido com afastamento, ou seja, o colaborador, mesmo com sintomas leves, deve ser liberado das suas atividades. Por outro lado, o trabalhador deve seguir todas as medidas de prevenção e normas de segurança da empresa, como distanciamento social, uso de máscaras e álcool em gel, além da vacinação.

“Caso o empregado desrespeite as regras de segurança, é capaz de ser punido com advertência, suspensão ou até dispensado por justa causa. E se souber que está contaminado com a covid-19 e ainda assim comparecer, pode ser considerado imprudente e ser despedido”, comenta. 

A reportagem tentou levantar números consolidados sobre o volume de afastamentos pela doença junto ao Ministério do Trabalho e Previdência que, em nota, disse que não havia disponibilidade de dados. A alternativa, então, foi buscar as entidades que representam os principais setores da economia no estado - entre eles, o comércio, agricultura e administração pública – porém, informaram que não contavam com esse estudo. Algumas empresas procuradas diretamente também não quiseram comentar sobre os afastamentos por covid-19.

Tamanho do problema 
Só para se ter uma ideia da dimensão dessa onda na Bahia, de 25 de dezembro de 2021 a 25 de fevereiro de 2022 foram 233.931 casos confirmados. No entanto, em 24 horas, entre quinta (24) e sexta (25), foram registrados 10.372 casos ativos de covid-19. De janeiro até agora, os números já somam 40 óbitos. Os dados são do Boletim Epidemiológico desta sexta-feira (25), divulgado pela Secretaria de saúde do Estado (Sesab-BA).

A gerente de saúde do Sesi Bahia Cristina Pacheco afirma que, em dezembro, a média de testes feitos na unidade, a fim de atender a demanda da indústria, era de 713 exames. Antes do final do mês de janeiro, o volume pulou para 1.243 mil testagens.

“Também enfrentamos problemas de desabastecimento de insumos para a testagem, mesmo o material custando mais caro. Tivemos dificuldade, inclusive, com fornecedores que já eram nossos parceiros desde o início da pandemia”. 

Em unidades como o Complexo Acrílico da Basf, em Camaçari, foi preciso remanejar parte da equipe do administrativo para o home office. Apesar de não divulgar dados sobre o percentual de afastados, a diretora industrial, Tânia Oberding, afirma que a empresa desenvolveu um aplicativo para diagnóstico e testagem precoce de seus colaboradores.

“Diante sesse cenário, intensificamos a recomendação do home office, readequamos os espaços e incentivamos fortemente a vacinação. Todas as ações foram e estão sendo fundamentais para garantir a proteção da equipe e a continuidade dos negócios”. 

Mais efeitos 
A onda de contaminação em massa mexeu ainda com um dos ativos mais significativos para as organizações: a produtividade. Para o mestre em Administração Estratégica, Peter Barros, isso vai exigir das empresas ações que melhorem o clima organizacional.

“Os profissionais que não se afastaram do trabalho ficaram sobrecarregados com o acúmulo das atividades. Isso proporciona a insatisfação no grupo e, inevitavelmente, interfere no aspecto moral da equipe, pois a pessoa se sente injustamente prejudicada”. 

Outro ponto que as empresas precisam focar está em campanhas de conscientização que influenciem seus colaboradores a perceberem sua corresponsabilidade em minimizar as chances de propagação do vírus. Não dá para deixar de insistir em prevenção. “Isso inclui o estímulo à imunização e adoção dos protocolos - que já são de conhecimento de todos - não só no ambiente corporativo, mas fora dele”, acrescenta o especialista. 

Co-fundador da consultoria especializada em desenvolvimento humano e organizacional Opus Human, Wladimir Martins concorda. “Foram feitas adaptações para os processos não pararem e tudo isso de uma maneira muito enxuta. Mais orientação e medidas de segurança preparam as empresas para a mitigação desses impactos”, reforça. 

Dentro ou fora do ambiente de trabalho, o fato é que o risco vai sempre existir seja em maior ou menor proporção. No entanto, o momento mais crítico e propício à disseminação do vírus nas empresas é, principalmente, durante a hora do almoço nos refeitórios, como alerta o infectologista e professor do curso de Medicina da Rede UniFTC, Antônio Bandeira.

“Nessa situação, as barreiras entre as pessoas são imprescindíveis enquanto almoçam. E durante a permanência no trabalho, se todos estiverem utilizando máscaras cirúrgicas ou as do tipo N95 e higienizarem suas mãos antes de levá-las a boca ou ao nariz, o risco de contaminação é bem menor”, recomenda.


Setor da construção aumenta contratação de mão-de-obra 

O efeito da ômicron não foi diferente do canteiro de obras. Segundo o presidente do Sindicato da Indústria da Construção do Estado da Bahia (Sinduscon-BA), Alexandre Landim, o impacto direto dos afastamentos por covid no primeiro mês do ano representou uma média de 15% de trabalhadores afastados, o que levou o setor a buscar um plano de contingência para manter os prazos dos projetos.

“Tivemos um acréscimo de 5% na contratação de mão de obra e intensificamos muito o treinamento e capacitação, visando reativar as campanhas de prevenção com um programa de orientação, que transformasse o colaborador em multiplicador dessas informações em casa, entre os vizinhos, no bairro onde mora”. 

 Em uma pesquisa realizada pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), entre os dias 14 a 21 janeiro, com 482 empresas do setor que atuam no país, 30,08% tiveram casos de covid identificados no último mês. Ainda com base na pesquisa, 80,08% delas afirmaram que foram impactadas de alguma maneira pela onda de contágio provocada pela variante. Em média, cinco em cada dez empresas (58,30%) forneceram ou exigiram testes de covid para seus trabalhadores. 

“Há uma diferença muito grande entre a primeira onda, lá no início da pandemia, e essa que atravessamos agora. Antes, não sabíamos o que era e como combater a pandemia e preservar os colaboradores. Hoje, temos recomendações científicas para nos posicionarmos e o combate é justamente esse, orientando as pessoas. Ainda não é hora de baixar a guarda”, completa Landim.


O QUE DIZ A LEGISLAÇÃO

. Quanto tempo o profissional deve ser afastado? O Ministério da Saúde e o Ministério do Trabalho e Previdência assinaram uma portaria no final do mês de janeiro que reduziu o tempo de afastamento de 15 dias para 10 dias em casos confirmados, suspeitos ou que tiveram contato com pessoas com casos suspeitos da doença. O início do afastamento é considerado a partir do dia seguinte ao início dos sintomas ou a data da coleta de teste RT-PCR ou de teste de antígeno.

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. Mesmo com sintomas leves, o profissional pode permanecer nas atividades em home office? A empresa deve respeitar as recomendações registradas no atestado. Ou seja, o profissional deve se manter afastado das atividades conforme a orientação médica.

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. O profissional precisa apresentar o atestado médico para ser afastado? Também conforme a portaria interministerial, afastamentos de até 10 dias, devido à covid-19, não precisam de atestado médico, só se o afastamento ultrapassar esse período.

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. Que garantias a empresa precisa oferecer ao profissional que se contaminou? A empresa deve garantir que o empregado possa ficar isolado dos demais enquanto estiver doente e manter o salário integral durante os primeiros 15 dias. Se o afastamento for por mais tempo, o trabalhador deve solicitar o auxílio-doença para o INSS.

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. Quem se negar a tomar a vacina pode ser demitido? A juíza do Trabalho e professora do curso de Direito da UniRuy Wyden, Angélica de Mello, ressalta que esse é um tema ainda bastante polêmico porém, o posicionamento majoritário é no sentido de que o empregador pode exigir que o funcionário se vacine contra a covid-19. “É dever do empregado, segundo o artigo 158 da CLT, se submeter as regras de saúde e segurança do trabalho”, afirma.

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