Fazendas Sustentáveis: um caminho sem volta

economia
25.02.2019, 06:00:00
(Acervo Grupo Aurantiaca)

Fazendas Sustentáveis: um caminho sem volta

Produtores rurais agregam valor a seus produtos ao investirem em ações ecologicamente corretas

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É uma tendência crescente. Nos últimos anos, os caminhos da agricultura e da sustentabilidade passaram a se cruzar, e o desenvolvimento do setor agropecuário se alinha, cada vez mais, com ações sustentáveis no campo. Tem sido assim no mundo inteiro, e no Brasil não é diferente.

Na Bahia não existem números oficiais sobre as fazendas que já desenvolvem práticas sustentáveis. O que se sabe é que elas vieram para ficar, se espalham por todas as regiões do estado e servem de incentivo e inspiração para muita gente. O CORREIO mostra abaixo dois exemplos de fazendas que priorizam a preservação ambiental no campo e agregam sustentabilidade aos alimentos que chegam à mesa do consumidor.


Sistema de irrigação automatizado permite economia de água no cultivo dos coqueirais. (Foto: Acervo Grupo Aurantiaca) 

Fazendas do Litoral Norte da Bahia são reconhecidas internacionalmente 

Os coqueirais de longe chamam a atenção de quem passa pelas estradas do Litoral Norte. A perder de vista, os coqueiros alinhados em mosaico se espalham por morros e áreas planas. Eles formam as maiores plantações de coco do Nordeste, e refletem vários conceitos do que é sustentável no campo.

Os sinais de sustentabilidade estão nos detalhes. A margem dos coqueirais, uma vasta área dos 6 mil hectares de Mata Atlântica nativa está preservada. O cenário faz parte do conjunto de Fazendas Obrigado, do grupo Aurantiaca. Atualmente a companhia mantém 1.750 hectares plantados de coco nos municípios de Esplanada e Conde.

Depois de extrair o principal produto, a água de coco, quase todo o restante da matéria-prima ganha um novo destino. A casca é levada para uma agroindústria para ser transformada em fibras, e em seguida elas viram biomanta, uma espécie de manta biodegradável que se incorpora ao solo em contato com o sol. As biomantas são muito usadas na agricultura para cobertura do solo, preservação da umidade, proteção de plantios e até contenção de encostas. Para além da função econômica, elas servem para tornar possível a reutilização de quase tudo que sai do campo, com geração de resíduo quase zero. Em 2018, foram produzidas mais de dois milhões de metros quadrados de biomantas.

“Está no nosso DNA. Desde a origem, ainda na implantação dos projetos, pensamos na sustentabilidade como sendo estratégica. Nós preservamos mais de 70% da mata nativa, ou seja, além do que exige a lei. Isso faz com que o nosso equilíbrio ecológico seja extremamente beneficiado, até porque a presença das matas ao redor dos coqueirais protege as plantações também de inimigos naturais das áreas vizinhas, que poderiam trazer pragas e doenças”, afirma Roberto Lessa, CEO Global do Grupo Aurantiaca.

As reservas naturais das fazendas colaboram com a redução de 34 mil toneladas de dióxido de carbono, o equivalente à emissão de CO² de 4 mil lares por ano. Também foram aprimorados vários outros itens do sistema produtivo. O processo de irrigação dos coqueirais é um dos mais modernos do mundo. Automatizado, ele tem sensores ligados a computadores que identificam se o solo esta úmido e se necessita, ou não, de irrigação. Assim é possível economizar quatro vezes mais água em relação a um sistema comum.


A grande produção de coco ocorre junto com a preservação de 70% da mata nativa. (Foto: Acervo Grupo Aurantiaca)

As práticas sustentáveis se prolongam na gestão das pessoas. Através do manejo produtivo, todos os funcionários recebem treinamentos e cursos para entender mais sobre a produção ecológica de coco. Assim foram criados os “aristas”, funcionários que ficam responsáveis por determinada área da plantação. Mais próximos do campo, eles se tornam uma espécie de guardiões da lavoura.

“Nós distribuímos os conhecimentos sobre a cultura do coco não apenas para os técnicos e gerentes. Treinamos também os trabalhadores rurais para difundir o conhecimento sobre o coco. Isso aumenta a nossa eficiência, e faz com que a gente produza muito mais do que coco, a gente produza orgulho”, explica Lessa.

O grupo criou ainda o Instituto Gente, que mantem a Escola Castro Alves no povoado Pedra Grande, uma pequena comunidade remanescente de quilombos na zona rural do Conde. A escola atende 120 crianças e 40 adultos com aulas e atividades extracurriculares, como aulas de música e informática.

A implantação de ações sustentáveis já rendeu às fazendas vários certificados e prêmios de sustentabilidade. Ano passado, a marca baiana foi a primeira produtora de coco do mundo a receber a certificação B Corp, concedida pela empresa américa B Lab, que analisa mais de 180 fatores para considerar a empresa Benéfica do ponto de vista ecológico e da transparência coorporativa.

Com o certificado, o grupo baiano passou a fazer parte da rede global de empresas e organizações que unem bem-estar social e ambiental ao crescimento econômico. Também em 2018, uma das fazendas do grupo, a Campo Grande, no município de Esplanada, foi uma das vencedoras do Prêmio Fazenda Sustentável, um reconhecimento da Revista Globo Rural aos produtores rurais que praticam a sustentabilidade na agropecuária.

As iniciativas seguem a tendência mundial do chamado Fair Trade, o comércio justo, produzido de forma limpa e sustentável. Estudos internacionais indicam que as empresas que aplicam estas práticas no dia-a-dia conseguem valorizar os produtos entre 20% a 30%, acima dos valores médios praticados no mercado. Consumidores de países como Bélgica, Suiça e Finlândia já exigem dos fornecedores pelo menos um selo de sustentabilidade para importar algumas mercadorias.

“Nós sentimos em todos os mercados uma preocupação sobre como a empresa se comporta em relação ao meio ambiente, a comunidade onde está inserida, aos trabalhadores e aos fornecedores. A questão do fair trade é extremamente segmentada. O nosso conceito é um pouco mais amplo. Para nós, a cadeia do coco sempre tem que ser mais justa com a comunidade, com o meio ambiente e com a logística”, conclui Lessa.

O grupo mantem 590 funcionários no Brasil. Ano passado, as fazendas Obrigado produziram 33 milhões de frutos. Já da fábrica Frysk, instalada no município do Conde, saíram 20 milhões de litros de água de coco. A produção foi 28% maior do que em 2017, e o faturamento do grupo chegou a R$ 90 milhões.

A expectativa é alcançar 100% de aproveitamento da produção daqui a quatro anos, quando a empresa deve passar a gerar óleo e bioenergia a partir da matéria-prima do coco.


Belo Alto Sustentável: Produtor rural implanta fazenda sustentável no cerrado baiano

Em pleno cerrado baiano, distante mais de 900 quilômetros de Salvador, uma fazenda também vem se transformando em referência na produção agropecuária. Quem chega na Fazenda Belo Alto, no município de Riachão das Neves, encontra um conjunto de iniciativas sustentáveis que impressiona. Não são apenas as 132 placas de energia solar que fazem os olhos do visitante brilhar, todo o restante da propriedade tem funções múltiplas.

Desde 1996, a principal atividade da fazenda é a criação de gado. Mas nos últimos anos, o esterco dos animais ajuda a recuperar solos degradados ao ser aplicado no pasto. Os restos dos alimentos são separados através de coleta seletiva e armazenados em compostagem para virar adubo. A nascente, de onde mina um olho d´água potável, está preservada.

A água da chuva também recebe tratamento especial. Captada por um telhado de 900 metros quadrados, ela é direcionada para reservatórios com capacidade para acumular mais de um milhão de litros de água, suficientes para vários meses em períodos de extrema seca. É esta água que abastece o gado e a sede da fazenda.

“Usamos técnicas para preservar a água, os minadouros, a água do subsolo, e para alimentar os rios. Todo produtor rural deve ser um produtor de água. Ser sustentável é produzir com consciência. Procura-se sempre fazer o melhor. Aqui temos uma reserva legal, que a gente protege como se fosse nossa família”, diz o produtor rural e médico veterinário Mário Mascarenhas, dono da fazenda. Com pontos intactos de mata preservada, a todo momento aparecem animais nativos, como tatu, porco do mato, cobras e cotias. Até uma onça já foi vista no local.


Com a mata preservada dentro da Fazenda Belo Alto, o produtor rural Mário Mascarenhas recebe estudantes e também a 'visita' constante de animais nativos.

(Foto:Acervo Fazenda Belo Alto)

O complexo de ações sustentáveis começou a ser implantado há cerca de 30 anos, quando a família, natural de Feira de Santana, se mudou para o Oeste da Bahia para trabalhar na área da saúde. Em 1989, o produtor rural comprou a fazenda e, junto com a esposa, Edna, começou a colocar em prática o antigo sonho de trabalhar com agricultura, assim como tinha feito na infância quando acompanhava os país na lavoura.

Há dois anos a fazenda ganhou outras finalidades: a criação de peixes e ovelhas, confinadas também de forma sustentável. “Hoje tem que se pensar em reutilizar 100%. A gente pega o esterco dos ovinos, transforma em fertilizante, e põe em solos que estejam degradados. Isso recupera pontos em processo de desertificação. Já a água dos peixes é reutilizada", diz Mário.

"Este é o caminho, porque se a gente fizer uma produção sem integrar, com desperdício, estaremos no caminho errado. Temos que usar técnicas de conservação para evitar a perda de solo, de matéria orgânica e a desertificação. Por isso muitos produtores estão usando técnicas como o plantio direto, quando não há remoção do solo, e o sistema agroflorestal, integrando lavoura e pecuária. Só assim daremos um drible na devastação”, completa.

As ações sustentáveis continuam se expandindo. Nos próximos meses será implantado um consórcio de cultivos na fazenda. Em uma mesma área vão ser cultivados pinha, grama, limão e galinha caipira. Em outra, serão implantados palma, pinha, maxixe e feijão de corda, que é uma leguminosa indicada para incorporar nitrogênio ao solo e reduzir a necessidade de adubos químicos.

Os projetos viraram referência na região e as porteiras são constantemente abertas para estudantes, pesquisadores e curiosos que planejam replicar as ideias.

Foram investidos R$ 380 mil para ampliar o sistema de energia solar que antes abastecia apenas a sede da fazenda. As novas placas passaram a gerar 32 quilowatts de energia e estão servindo também para o sistema de criação de peixes e para o aprisco das ovelhas. O produtor rural espera recuperar todo o investimento em cinco anos.

“Quando não tinha energia solar eu gastava 8 litros de óleo diesel por hora. Eram R$ 224 por dia, R$ 6.720 por mês. Somando com os gastos para trazer o combustível até aqui, eram quase R$ 10 mil por mês, cerca de R$ 100 mil por ano. O sistema atual também evita a poluição, o barulho dos motores, e tem um banco de baterias que consegue armazenar carga para a noite e para os dias nublados”, explica.

Reservatórios gigantes armazenam água da chuva.  'Produzir' água é um dos maiores objetivos do produtor rural do Oeste. (Foto: Acervo Fazenda Belo Alto) 

O retorno financeiro vem de forma indireta, através das vendas dos produtos gerados dentro das fazendas. “Muitas pessoas já sabem como produzimos e valorizam os nossos produtos, porque o manejo da pastagem e a forma como tratamos os animais, prezando pela sanidade e bem-estar, com ração balanceada e silagem de qualidade, se refletem também no sabor e numa carne mais macia. Os consumidores procuram sem que eu ofereça no mercado. Hoje não conseguimos atender à demanda, os produtos não encalham”, acrescenta Mário Mascarenhas, que emprega 20 pessoas nas três unidades produtivas que mantem. 

Enquanto a arroba do boi na região está sendo comercializada por R$ 155, o produtor rural vende por R$ 158. Já o quilo das ovelhas custa cerca de R$ 2  a mais que o preço médio da região. O quilo do peixe é vendido por R$ 1 a mais. Atualmente são comercializados 240 ovinos por mês, e 20 toneladas de peixe por ano, principalmente o tambaqui.

“Todo o nosso foco na produção busca a sustentabilidade. No sentido de preservar o planeta, de pensar o que será das gerações futuras se a gente não tomar providências. Estamos aqui para colaborar com a natureza. Em tudo o que fazemos para a humanidade, o primeiro beneficiado somos nós, é um processo integrado”, conclui.

Agro Sustentável 

De acordo com a legislação e os principais protocolos internacionais sobre meio ambiente, para serem consideradas sustentáveis, as empresas precisam atender a uma lista de exigências que vai desde o descarte correto dos resíduos que produzem à forma como garantem qualidade de vida e trabalho para os funcionários.

As empresas que promovem ações de conscientização ambiental junto às comunidades do entorno e reduzem a emissão de gases de efeito estufa somam mais pontos neste processo. Em conversa com o CORREIO, o biólogo e especialista em meio ambiente Alexander Alves Gomes, diretor da empresa Ambiente Gaia Consultoria e Engenharia, falou sobre alguns fatores que tornam uma fazenda sustentável.

Alexander Alves, biólogo e especialista em Gestão Ambiental. (Foto: Acervo Pessoal)

O que torna uma fazenda sustentável?

Uma fazenda é considerada sustentável quando fica evidente que o processo produtivo utilizado usa a melhor tecnologia possível para preservar os recursos naturais, e que para tudo que se faz na fazenda existe um procedimento. Não significa necessariamente deixar de usar os recursos, mas utilizá-los com equilíbrio, evitando descontrole e uso demasiado. E realizando atividades com menor impacto aos recursos naturais, como economizar água, descartar o lixo de forma correta e reduzir o gasto com energia. Por exemplo, uma fazenda que utiliza energia hidroelétrica irá impactar mais e produzir mais carbono do que aquela que instala painéis solares.

O que fazer para provar que é sustentável?

Primeiro as fazendas precisam provar que estão seguindo a legislação e que têm gestão ambiental. Um dos primeiros passos é submeter a propriedade ao licenciamento, concedido pelo órgão competente para autorizar o uso do recurso natural. A gestão ambiental é uma gestão pública, então a licença ambiental é concedida geralmente pela secretaria de meio ambiente do município ou do estado, a depender da competência do licenciamento de acordo com a atividade e o porte do empreendimento. O licenciamento mostrará que aquela propriedade tem gestão ambiental sobre os recursos naturais que utiliza. Em linhas gerais são avaliados os recursos naturais e a área ecológica que vai ser utilizada. Quando as fazendas conseguem provar alguns destes itens, e que utiliza a tecnologia de menor impacto ambiental, ela já se candidata a ser considerada sustentável.

Que tipo de propriedade rural precisa ter licença ambiental para começar a operar e aumentar as possibilidades de ser considerada sustentável?

Todos as fazendas, de grande ou pequeno porte, precisam ter licença ambiental, independente da atividade que realiza, seja exploração de minério, ecoturismo ou agricultura. As certificações variam de acordo com a atividade. Por exemplo, as empresas que mantêm fazendas para produção de florestas têm o certificado FSC, que em inglês significa Forest Stewardship Council, que é um conjunto de padrões e procedimentos relacionados ao manejo florestal.

Em geral, quais as vantagens que o dono da propriedade obtém ao provar que a fazenda é sustentável?

São muitas vantagens. Uma delas é a valorização dos produtos da fazenda no mercado. Em muitos países, por exemplo, alguns consumidores só compram produtos de empresa que provam ter certificação de gestão ambiental. Isso acontece principalmente com as empresas voltadas para exportação e que lidam com produtos naturais, como madeira.



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