Fechou para quê? Prédio do antigo hospital Couto Maia está abandonado

salvador
14.04.2019, 05:24:00
Atualizado: 15.04.2019, 09:50:25

Fechou para quê? Prédio do antigo hospital Couto Maia está abandonado

Moradores e comerciantes relatam prejuízos após fechamento de unidade

É quase meio dia e as cadeiras dos restaurantes e quiosques da Rua Rio São Francisco, no Monte Serrat, ainda estão vazias. Desde o dia 9 de julho de 2018, quando as portas do Hospital Couto Maia abriram pela última vez, o bairro vive as consequências deixadas pelo vazio. Os moradores acompanham as mudanças e os comerciantes sofrem a queda dos lucros, enquanto esperam sem nenhuma definição o futuro da unidade que, por 165 anos, delineou parte da vida econômica, urbana e social da região.

Fosse nove meses atrás, Maria do Carmo, 73, sequer conseguiria tempo para conversar com a reportagem. “Eu não estaria aqui sentada não. Só estou conseguindo manter o restaurante porque é próprio”, acredita a senhora que, há 40 anos, vive do comércio naquela mesma rua. A estimativa é de uma queda de 80% nas vendas, decorrentes da falta de um projeto para os prédios, depois da transferência do hospital para Águas Claras.

A Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (Sesab) afirmou que no local será instalada uma nova unidade voltada para pacientes que precisam de cuidados paliativos.

Nesse domingo (14) , após a publicação da reprotagem do CORREIO, a Sesab procurou a redação e  informou que as obras começarão no segundo semestre e devem durar até seis meses. O investimento será de R$ 10 milhões. 

Quiosques e rua vazios depois da desativação do Couto Maia
(Foto: Evandro Veiga/CORREIO)

A promessa é transformar a unidade em um centro de cuidados para pacientes crônicos. Que os pacientes do interior, por exemplo, pudessem ficar internados por mais de um mês. 

Na porta de seu restaurante, criado há três anos para atender a demanda dos visitantes dos pacientes do Couto Maia, Paulo Roberto, 52, vê a rotina mudar bruscamente. Se antes vendia 15 quentinhas por dia, hoje não vende três.

Mensalmente, 1,5 mil pessoas eram atendidas nos 97 leitos do Couto Maia, de acordo com a Sesab. Além, claro, dos 500 funcionários. Eram os clientes em potencial de Paulo Roberto. 

Hoje, apenas o Hospital Sagrada Família, também no bairro, não consegue movimentar a economia local como fazia o centro de referência no tratamento de doenças infectocontagiosas na Bahia.

“Quando chega 16h, já é um esmo. Eles falam que inauguraram, mas cadê o novo? Agora, temos que competir por três clientes que saem de lá”, conta Paulo, morador do bairro há 30 anos.  

A hora do café da manhã e do almoço costumavam ser as melhores para o comércio local. Afinal, o tratamento dos enfermos era geralmente longo. Ali internavam-se doentes de febre amarela, febre tifoide, varíola. Também pessoas em tratamento contra a Aids, por exemplo. A demora impunha uma nova rotina aos acompanhantes.


“Mudou tudo. Simplesmente fechou e ficamos sem nada”, lamenta, de frente para a rua quase vazia. 

Na banca da família de Cleonice Santana, 54, os bolos, salgados e café eram os favoritos. Na semana passada, decidiram que venderiam somente bolo - e assado em casa. Na visita em uma quarta-feira, Cleonice, no ponto há 10 anos, tinha em caixa R$ 2 da venda de uma fatia.  

Dona Maria do Carmo lamenta queda nas vendas
Dona Maria do Carmo lamenta queda nas vendas (Evandro Veiga/CORREIO)
Rua Plínio de Lima, vizinha do antigo Couto Maia
Rua Plínio de Lima, vizinha do antigo Couto Maia (Foto: Evandro Veiga/CORREIO)
Paulo Roberto vê planos de aproveitar a movimentação no bairro frustados
Paulo Roberto vê planos de aproveitar a movimentação no bairro frustados (Evandro Veiga/CORREIO)

O vazio da rua começa a semear entre os comerciantes a necessidade de, quem sabe, deixar para trás o trabalho. “Se não há cliente, a gente não vende. Há dois anos, comecei para encher o tempo, estava aposentado. É como se fosse uma terapia”, afirma Manoel Messias, 71, sentado em frente ao quiosque onde vende doces e a sobrinha atende em um pequeno salão de beleza.

Como diminui o movimento, também cresceu a sensação de insegurança. No dia anterior à visita da reportagem, por exemplo, um assalto assustou os moradores. Em nota, a Polícia Militar (PM) informou que o policiamento na região segue sem alterações, diuturnamente. 

"Tá horrível. Aumentou o número de assaltos. A população ficou sem recursos. Foi comunicado que seria fechado porque teria um modelo. Até agora nada", lamentou Marcos Zanata, segurança e morador do entorno há 23 anos. 

Nos últimos três meses, dois incêndios na vegetação no terreno do Couto Maia também acenderam o alerta dos moradores. O fogo foi interrompido, mas ficou a preocupação com os cinco pavilhões do antigo hospital, vigiado por dois seguranças e de onde o material hospitalar já foi retirado. De certa forma, no entanto, aquele vazio sempre foi temido pela população. Desde as primeiras décadas de vida, a localização e a estrutura do Couto Maia são colocadas em dúvida. 

Nova realidade
No dia 25 de janeiro de 2013, na Bolsa de Valores de São Paulo, MRM e SM Gestão Hospitalar comemoravam a vitória na licitação que definiu a parceria público-privada lançada pelo Governo do Estado para a construção do Instituto Couto Maia. Foram R$ 120 milhões investidos para construção de 120 leitos e ampliação para consultas ambulatoriais. Exatos 102 anos atrás, Augusto de Couto Maia estava convencido de que o Hospital de Isolamento de Monte Serrat, como era chamada a unidade, deveria migrar para um bairro mais central como Santo Antônio Além do Carmo ou Brotas. 

Mas a construção dos novos pavilhões do hospital, iniciada 1917, permaneceu no Monte Serrat, por vontade do então Departamento do Serviço, explica a funcionária Maria de Fátima Lorenzo, com mestrado dedicado à história do hospital onde trabalha há 30 anos. Somente em 1925 acontece a inauguração. Coincidentemente, também houve intenção de juntar o Hospital Dom Rodrigues de Menezes, para hansenianos, com o Couto Maia. Novamente, a ideia ficou no papel. Mas, foi justamente no local onde funcionava o Rodrigues de Menezes que se ergueu a nova sede do Couto Maia.

Novo Couto Maia, em Águas Claras (Foto: Carol Garcia/GOVBA) 

Desde os primeiros dias no Couto Maia, na década de 80, a enfermeira Laurinda Machado, 58, ouvia as especulações de transferência. A estrutura antiga parecia não acompanhar as necessidades e modernizações. Os pequenos reparos eram quase anuais.

“Não lembro de um ano sequer sem reforma. Desde lá, era uma luta por melhorias. Mas era muito carinho. Aquele lugar, a vista para o mar, a vizinha. Ainda íamos almoçar na Pedra Furada. Tudo isso era diferente. Um balaio de saudade”.


Por pouco, inclusive, uma dessas tentativas de mudança não provocou a transferência do Couto Maia para a Avenida Vasco da Gama, próximo ao Hospital Geral do Estado, em 1995. A proposta chegou a ser apresentada pelo então diretor da unidade, José Tavares Neto. Nunca foi à frente. “O hospital tinha condições pequenas de expansão. Por outro lado, o terreno do fundo era grande [...] Aquele hospital foi fundamental ao ensino de gerações”, opina Tavares.    

Diferentemente do que afirmam funcionários ouvidos pelo CORREIO, sob anonimato, a Sesab nega qualquer condenação de área do Couto Maia pela Vigilância Sanitária. "Aquele espaço não tinha condições de funcionar como hospital. Não conseguíamos nos adequar, era uma estrutura obsoleta", diz a atual diretora, Ceuci Nunes. Outros hospitais antigos, no entanto, seguiram em suas primeiras sedes. É o caso, por exemplo, do Hospital Santa Izabel, o mais antigo da Bahia, inaugurado em 1893, em Nazaré. 

E por que não o caso do Couto Maia? É o que se perguntam principalmente quem permaneceu em Monte Serrat. A maioria costuma falar da demora para realizar grandes intervenções. A última, em 1992, é lembrada por uma placa na entrada do hospital. No dia 12 de dezembro, já com o Couto Maia fechado, o Sindisaúde realizou manifestação contra desativação. Abraçaram simbolicamente a extinta unidade.

“[Mas] aconteceu mais porque a gente precisava de uma comunicação mais aberta, de como seria o manejo de pessoas, o que aconteceria”, lembra Ivanilda Brito, presidente do Sindicato.   

O problema não é o novo Couto Maia, inclusive bem recebido pelos funcionários. O hospital quase triplicou de tamanho – de 6 mil m² para 17 mil m² - e expandiu os atendimentos para urgência e emergência. A questão, para quem vive em Monte Serrat e os empregados residentes no bairro, é esperar até que a nova unidade seja aberta.

Crescendo à margem 

O século 19 é o século do modelo higienizador. As intervenções urbanas ocorriam de acordo com pautas de saúde e saneamento básico, principalmente. Os hospitais passam a ser criados em locais afastados, como se, assim, estivesse livre das infecções a população. É o caso do Couto Maia, instalado no Monte Serrat em 1853, região pouco habitada de Salvador, com exceção de uma classe média empregada nas fábricas da Penísula de Itapagipe e das famílias em veraneio. 

Pavilhões fechados depois da transferência para Águas Claras (Foto: Evandro Veiga/CORREIO)

O historiador e arquiteto Chico Senna conta que, por isso mesmo, a presença das igrejas e dos hospitais Couto Maia e Sagrada Família, de 1943, foram fundamentais para a conformação urbana do Monte Serrat. "Praias bucólicas, local tranquilo, clima bom. O Couto Maia ficava praticamente isolado", explica. As construções residenciais começavam também em função desses elocais. Hoje são 6,6 mil moradores em Monte Serrat, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

"Se você perceber, naquela área específica, o destaque são os dois hospitais. Principalmente o Couto Maia. A permanência ou retirada causa impacto, porque aquilo ali está inserido no contato da população desde o século 19. [...] A preocupação é qual é o impacto".

A área específica da construção do Couto Maia é uma fazenda arrendada pelo Governo. Inicialmente, alguns moradores até resistem. “O impacto era o medo do contágio. Mas a convivência foi mudando”, conta Maria de Fátima. Mas logo acostumam-se e integram o hospital à rotina. "Querendo ou não, era uma referência. A gente vinha quando precisava... O que é absurdo é deixar fechado", lamenta Simone Franco, 46, moradora do bairro. 

No ano de 1997 e novamente em 2013, há tentativa de tombamento da estrutura do hospital junto ao Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia. Nenhuma das duas surtiram efeito. Da última vez, informou o IPac, o corpo técnico julgou que a solicitação deveria ser feita no âmbito municipal, o que não ocorreu. "Que ele não se torne uma ruína, nem de depredação ou invasões", torce Fátima, pesquisadora da história do hospital.

É impossível mensurar, hoje, a o impacto oficial da saída do hospital. A atual concessionária responsável pelo Icom não tem responsabilidade sobre o destino do antigo Couto Maia, já que a licitação corresponde apenas à nova unidade. "Estou esperando uma providência de Deus", desabafa Maria do Carmo, no restaurante vazio.

Confira na  íntegra a nota enviada pela Sesab ao CORREIO

A Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab) esclarece que com a inauguração do Instituto Couto Maia, em 2018, todos os pacientes foram transferidos para a nova unidade. Diferente do que está sendo especulado em nenhum momento a Vigilância Sanitária interditou ou condenou qualquer área do Hospital Couto Maia. Pelo contrário, apesar dos 166 anos de história, o prédio sempre manteve condições de atendimento da população. Em virtude do novo perfil previsto, focado em cuidados paliativos e não mais em doenças infectocontagiosas, a unidade passará por modernização. A unidade mantinha 97 leitos. O Hospital Couto Maia tinha aproximadamente 500 profissionais e atendia cerca de 1, 5 mil pacientes por mês. 

*com supervisão do chefe de reportagem Jorge Gauthier e da editora Mariana Rios. 


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