Fila de espera por bicicleta em Salvador leva até seis meses 

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17.05.2021, 05:00:00
Espera por uma bike pode chegar a seis meses em lojas baianas (Nara Gentil/CORREIO)

Fila de espera por bicicleta em Salvador leva até seis meses 

Procura aumenta nas lojas durante a pandemia e fabricantes não dão conta da demanda 

O desejo de praticar um esporte ao ar livre, sem necessariamente ter contato com outras pessoas durante a pandemia, fez a procura por bicicletas explodir em Salvador. Desde março do ano passado, quando surgiram os primeiros casos de covid-19, até agora, as lojas viram as vendas aumentaram em até 80% e, hoje, são raros os estabelecimentos que têm o produto para pronta-entrega. Mesmo quem paga à vista tem que ficar na fila de espera, que pode levar até seis meses. Já o tempo médio para que a bike chegue aos lojistas tem variado de 60 a 120 dias. 

E as pessoas esperam. O empresário Oscar Cardoso Neto, 41 anos, espera desde novembro de 2020 pela chegada da sonhada bicicleta. Ele estava afastado do esporte, mas, com a pandemia, o desejo de pedalar voltou. “Sempre fui ciclista, mas tinha uns dois anos que vendi minhas bicicletas. Ano passado, com a pandemia, as academias fechadas, eu resolvi comprar outra bike. Fui na loja, mas já não tinha bicicleta disponível, estava em falta, aí comprei uma seminova. Esperei um pouco, chegou uma bicicleta nova, uma mountain bike, só que quis comprar uma de estrada, de speed, e tem seis meses que estou tentando comprar, mas não tem no estoque. A previsão agora é no meio do ano mais ou menos, está faltando no Brasil inteiro”, relata Neto.  

O preço desse modelo aumentou de R$54 mil para R$ 66 mil, segundo o empresário – a alta afeta todos os outros produtos. Por ser de uma marca americana, o valor depende do câmbio do dólar em relação ao real, atualmente em R$ 5,27. A seminova, que usou de agosto a novembro, ele conseguiu vender em menos de 24h.

"Botei no OLX, parecia pólvora, não deu nem 24h horas. Botei de noite, e quando foi no outro dia, o cara já estava marcando para buscar, porque não tinha essa bicicleta, e o mercado tá superaquecido, mesmo de usados”, conta o empresário.  

A média Maili Ferner, 53, aproveitou a pandemia para entrar no esporte. Ela ganhou de presente de Natal do marido uma Caloi aro 29 – um dos modelos mais vendidos hoje – para se exercitar. “Com a pandemia, a gente fica muito trancada em casa e a bicicleta dá uma sensação de liberdade, você se sente mais seguro porque não está em contato direto com ninguém e em ambiente aberto, em contato com a natureza, sem tanto medo de se contaminar. É um risco, mas um pouco menor”, desabafa a médica, que já tomou a primeira dose da vacina – de Oxford – contra a covid-19.  

Por sorte, ela não precisou esperar muito na encomenda. “Na época, não tinha bicicleta em Salvador, estava faltando em todas as lojas, mas ele conseguiu de um amigo, que desistiu da compra”, explica Maili. Sempre que vai pedalar pela orla, ela vê as ciclovias lotadas. Ela ainda diz que, se existissem faixas em todos os locais, deixaria inclusive de andar de carro.

“Se tivesse ciclovia em tudo, iria facilmente trabalhar de bicicleta”, confessa Maili. 

Vendas crescem até 80% 
Na Alan Bike, loja que funciona na Boca do Rio desde 1995, as vendas aumentaram cerca de 80%, segundo o proprietário, Alan Ramos. “A gente nunca vai vender tanta bicicleta como esse ano e ano passado. Não tá tendo bike suficiente para vender o que o mercado precisa. Hoje, a procura está maior que a oferta”, afirma Ramos. Logo quando começou a pandemia, em março de 2020, ele tinha 1,5 mil bicicletas no depósito. Em junho, já não tinha mais nenhuma e, hoje, pelo menos 40 pessoas aguardam na fila.  

“Dependendo da especificação, em uma fila de espera muito grande, em torno de 40 pessoas estão esperando a bicicleta chegar. Final do ano passado não tinha bike para vender, foi uma explosão muito grande, nunca tinha acontecido. Os pedidos de dezembro só chegaram agora em fevereiro e a média de espera é essa, de 60 a 90 dias”, detalha Alan. Antes da pandemia, não havia dificuldade de entrega, nem fila.  

Alan Ramos, da Alan Bike, na Boca do Rio, viu as vendas aumentaram 80% na pandemia
(Foto: Nara Gentil/CORREIO)

O poder de compra já nem adianta mais, segundo ele, porque as fábricas estão todas sobrecarregadas. “A gente tem marca que fabrica 30 mil bikes por mês e está vendendo 70 mil bikes mês. Antigamente, você tinha o poder de compra, você chegava e comprava à vista, conseguia negociar com o lojista, mas hoje nem consegue”, conclui. As mais vendidas na Alan Bike são as de aro 29, mais superiores do que as básicas. O preço dela aumentou 16% - de R$ 1,5 mil, subiu para R$ 1,8 mil.  

O presidente da Federação Baiana de Ciclismo, Orlando Schimidt, confirma: nunca as lojas venderam tanto como agora.

“Não tem bicicleta no mercado, isso é algo que nunca aconteceu. Nos meses de abril e maio, os lojistas não vendiam muito, sempre eram meses de crise no mercado porque ninguém comprava bike, o pessoal não saía para pedalar por conta das chuvas. Hoje, você não tem nem peça para as bicicletas”, garante Schimidt.

Fábricas não dão conta
Um dos representantes na Bahia das marcas TSW e Rava, Maurício Cruz, não consegue dar conta da demanda das lojas baianas. “São, em média, 100 lojas esperando pedido, com pedido médio de cinco bikes. Então, são 500 bicicletas que estão esperando só da minha marca. A fila de espera tá maior que a fila para vacina”, brinca Cruz. “A gente tem uma gama de 150 clientes que querem comprar bicicleta na Bahia, mas quando chega, só chegam 20, 30 bikes para o estoque, que não atende todo mundo. Assim que chega, em dez minutos vende tudo”, acrescenta Maurício.  

O representante conta que, no final do ano passado, a espera para a entrega chegou a quatro meses. Agora em abril, diminuiu para 90 dias. Os preços, desde março de 2020, aumentaram em média 30% a 40%. A perspectiva é que o mercado continue sofrendo com desabastecimento até o final do ano.

“Às vezes, a marca tem o quadro pronto, mas não tem as peças para montar a bicicleta. Tem empresas que tão vendendo até bicicleta sem pneu, porque a procura tá tão grande que o cliente não quer esperar”, revela Cruz.

Na Terrasol Bike e Café, na Pituba, o aumento nas vendas foi entre 40% e 50%. O empresário Maurício Lopes, gerente da loja, diz que só não vendeu mais porque a fábrica não conseguiu entregar os pedidos. “Teve um aumento na procura por bike e por serviço de manutenção também, muita gente que estava com a bicicleta parada, com algum tempo sem uso, resolveu pedalar. Só que tivemos a questão da falta de produtos, começou a faltar muita coisa e atrapalhou as vendas”, conta. As bikes mais básicas são as que mais saem e existem dois clientes na fila de espera. O prazo de entrega é de até 60 dias.  

Na Galego Bike, em Lauro de Freitas, cidade na Região Metropolitana de Salvador (RMS), a dificuldade também é atender à demanda dos clientes. Segundo o dono, Gilberto Gomes, houve aumento de 70% na procura por bicicletas em sua loja, assim como na Isaías Bike Service, em Itapuã. Outro desafio é encontrar acessórios: são 30 pessoas na fila de espera, de acordo com Gomes. Já na loja de Isaías França, o aumento do serviço para manutenção foi de 100%. Na sua loja, as bicicletas de estrada foram as mais vendidas, além das que custam entre R$ 7 mil e R$ 8 mil. Ele já não encontra peças com alguns fabricantes e resolveu, ele mesmo, fazer a montagem para poder vender. Hoje, são 15 pessoas na fila. 

No bairro de Amaralina, na Colaí Bike Shop, nem há um prazo certo de entrega. “Tenho algumas bicicletas para pronta-entrega, mas se você quiser encomendar, não tem estoque e os fornecedores nem dizem quando vai chegar”, relata o dono, Arthur Velloso. Quando há disponibilidade, a entrega é feita em oito dias. Os clientes chegam a pagar adiantado, para já garantir o produto. “Tem gente já comprando bike antes de chegar, para que, quando chegue, a pessoa já tenha ela certa, de tão escasso que está o negócio”, adiciona Velloso. Lá, onde as vendas cresceram 60%, são 15 pessoas na fila de espera para comprar uma bike.  

Arthur Veloso, da Colaí Bike Shop, diz que clientes pagam adiantado para tentar garantir uma bicicleta
(Foto: Nara Gentil/CORREIO)

Na loja do educador físico Henrique Marinho, a Biciclettaria, na Pituba, aparecem em média cinco pessoas por dia. A marca que ele trabalha, a Trek, produzia 60 mil unidades por mês do modelo de estrada no mundo inteiro. Só em abril, a marca recebeu um pedido de 200 mil unidades. Mesmo com falta de algumas peças - Henrique recebe da fábrica cerca de um terço dos pedidos - ele teve aumento de 40% nas vendas. São, hoje, 12 pessoas na fila de espera, apesar de os preços terem ficado até quatro vezes maiores.  

O aumento das vendas não aconteceu só em Salvador e na Região Metropolitana. Em 2020, o mercado de bicicletas no Brasil registrou uma média de 50% de aumento nas vendas em comparação a 2019, aponta o balanço do levantamento realizado pela Associação Brasileira do Setor de Bicicletas (Aliança Bike) ao longo do ano passado e em janeiro de 2021. Ainda segundo o levantamento, o pico das vendas ocorreu no mês de julho, em que houve um aumento de mais de 118% nas vendas de bicicletas, em comparação ao mesmo período de 2019. Entre os modelos mais vendidos estão as bicicletas de entrada – tanto urbanas, quanto mountain bikes aro 29 –, com valores que variaram entre R$ 800 e R$ 2 mil. 

“Foi um ano que, apesar de muito positivo para o mercado brasileiro de bicicletas, foi repleto de desafios. Acreditamos que a demanda vai continuar boa para 2021, as pessoas vão continuar buscando a bicicleta, seja pra lazer ou pra transporte, seguindo, inclusive, recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS)”, afirma o presidente da Aliança Bike, Giancarlo Clini.

O monitoramento da Aliança Bike percebeu ainda que as vendas só não foram maiores por conta da falta de componentes e insumos para a linha de montagem das bicicletas. Este fator impacta diretamente na oferta de modelos aos consumidores. "Uma das dificuldades tem sido a falta de produtos, mas ainda assim o ano foi excelente pro mercado”, comenta Clini.

Produção sofre com falta de insumos
Em abril de 2021, só no Polo Industrial de Manaus (PIM), foram produzidas 51.281 bicicletas, segundo dados Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares (Abraciclo). O montante é 11,3% menor que a produção do mês anterior, que foi de 57.843 unidades. E o motivo dessa redução é o desabastecimento de peças e componentes.

“Há falta de alguns componentes como sistemas de freios e de transmissões, por exemplo, que dificultam a montagem e geram a falta de alguns modelos no mercado”, explica Cyro Gazola, vice-presidente do segmento de bicicletas da Abraciclo. “A demanda por bicicletas continua alta e acreditamos que o fornecimento de peças será normalizado no segundo semestre deste ano”, avalia.

Gazola aponta que, se o abastecimento de peças e componentes for normalizado, além da aceleração do programa de vacinação para evitar um novo agravamento da crise sanitária, a indústria pode crescer acima da expectativa.

“Se o fornecimento de peças for atendido, as fabricantes irão adequar seu planejamento de produção à demanda do mercado. O consumidor quer e aguarda por bicicletas”, avalia.

Para este ano, a produção é estimada em 750 mil unidades, alta de 12,8% na comparação com 2020, que foi de 665.186 bicicletas. 

Ao todo, o Brasil tem 359 empresas da indústria da bicicleta, de acordo com o levantamento de 2019 da Aliança Bike. A concentração da indústria, além do PIM, é na região Sul-Sudeste. Na Bahia são 13 estabelecimentos. 

Maurício Lopes, gerente da Terrasol Bike e Café, disse que só não vendeu mais porque as fábricas não conseguiram entregar os pedidos
(Foto: Nara Gentil/CORREIO)

Alíquota reduzida
Em fevereiro deste ano, a Câmara de Comércio Exterior (Camex) publicou no Diário Oficial da União a resolução que reduziu a alíquota do imposto de importação de bicicletas de 35% para 30%. Ainda segundo a norma, o imposto seria reduzido novamente, a partir de julho, para 25%. A partir de 31 de dezembro, um novo corte, para que ele chegasse em 20%. 

No entanto, a redução foi criticada por fabricantes de bicicletas e pela bancada do Amazonas no Congresso Nacional. Eles alegaram que a diminuição da alíquota iria aumentar a importação de produtos, especialmente da China, e que isso poderia colocar em risco os empregos nas fábricas brasileiras, além da desindustrialização do setor. 

No mês seguinte, três senadores do Amazonas assinaram um projeto de decreto legislativo de autoria do senador Eduardo Braga (MDB/AM), pra anular a resolução da Camex. Com a pressão, o ministro da Economia, Paulo Guedes, voltou atrás e a Camex anulou a decisão. Por fim, ficou decidido que a redução da alíquota ficaria em 10% em cima dos 35%. Com isso, o imposto ganhou uma diminuição de 3,5% e ficou em 31,5%.

Enquanto isso, os ativistas do ciclismo, encabeçados pela rede Bicicletas para Todos, tentam outra frente. Eles buscam a isenção de impostos para as bikes. Atualmente, existem pelo menos quatro projetos de lei para a isenção do cobrança do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para bicicletas. Três deles tramitam na Câmara de Deputados e um no Senado. 

De autoria do senador Roberto Rocha (PSDB/MA), o PL 3785, de julho de 2020, concede isenção do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) às motocicletas de cilindrada inferior ou igual a 125 cm³ e às bicicletas. Já o PL 4479/20 do deputado Pompeo de Mattos (PDT-RS), elimina a cobrança do IPI e das contribuições para o PIS/Pasep e para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins). Do mesmo ano, o PL 5368/20, de autoria do deputado Juninho do Pneu (DEM-RJ), isenta importadores e fabricantes de bicicletas e suas peças da cobrança do IPI. Mais recente, o PL 71/21, cujo autor da proposta é o deputado Amaro Neto (Republicanos-ES), também isenta importadores e fabricantes de bicicletas e suas peças da cobrança do IPI e reduz a zero as alíquotas das contribuições para o PIS/Pasep sobre esses produtos.

Cresce também o uso de bicicletas compartilhadas
A laranjinhas também estão disputadas. Isso porque, de acordo com dados da Empresa Salvador Turismo (Saltur), aumentou em 141% o número de viagens pela Bike Salvador comparando o primeiro trimestre de 2021 com o mesmo período em 2019. Em um comparativo de abril deste ano com o mesmo mês de 2020, o projeto cresceu também em número de adeptos, aumentando em 480% o número de usuários, além do crescimento de 368% em números de viagens, comparando o mesmo período. 

“A gestão municipal nos últimos oito anos realmente mudou a cidade quando o assunto é mobilidade ciclística. Eram cerca de 20 quilômetros de sistema cicloviário em 2013 e nenhuma empatia com o uso das bikes e o seu poder de transformação. Nessa nova realidade que temos hoje, com uma cidade que se acostumou com a rotina de ter ciclistas no cotidiano do trânsito, nossa pauta se volta agora para ampliar ainda mais essa convivência intermodal dando segurança e encorajando mais pessoas a usar, quando puder, esse meio de transporte que, como sabemos, tem um papel fundamental na formação de um lugar mais sustentável e responsável", afirma o coordenador do Movimento Salvador Vai de Bike  (MSVB) e presidente da Saltur, Isaac Edington. 

O sistema de bikes compartilhadas é promovido pela Prefeitura de Salvador, através do Movimento Salvador Vai de Bike, operado pela empresa Tembici e patrocinado pelo Itaú Unibanco. “O aumento de mais de 650% de ampliação no sistema, aliado ao trabalho de conscientização, educação e mobilização para introduzir a cultura da bicicleta à rotina da cidade, além das mudanças de hábitos durante a pandemia, são os principais propulsores na adesão ao uso das bikes na região”, comenta Nicole Barbieri, gerente regional da Tembici. 

Por conta da pandemia, em março deste ano, foi implementada a liberação de todas as bicicletas por meio de QR Code. A novidade já registra 54% dos desbloqueios por QR Code. A empresa Tembici também reforçou a higienização de todas as bikes e estações. Além da limpeza diária com álcool 70%, quando ainda estão no centro de operações da empresa todas as bicicletas são lavadas com cloro diluído em água. Mesmo com a limpeza recorrente, a empresa solicita que os usuários também apliquem álcool em gel 70% nas mãos antes e depois de utilizar as bicicletas, além de fazer uso de máscara.

Além disso, o MSVB realizou uma blitz de conscientização ao uso de máscaras e realização dos procedimentos de higienização e distanciamento social com distribuição de máscaras gratuitas. A ação aconteceu no último dia 30. 

*Sob orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro 

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