Filha narra desespero ao ver pai sendo morto ao reagir a assalto: 'Ele era cabeça quente'

salvador
16.09.2021, 05:00:00
(Foto: Paula Fróes/ CORREIO)

Filha narra desespero ao ver pai sendo morto ao reagir a assalto: 'Ele era cabeça quente'

'Na hora eu disse: ‘Não, pai!'. Mas ele pensou que o bandido poderia fazer algo comigo e tentou dominá-lo'

Enquanto não era chamada à recepção do Instituto Médico Legal (IML), a fisioterapeuta Renata Teles da Silva, 33 anos, aguardava do lado de fora, olhando fixamente para a foto do pai na tela do celular. O silêncio imperou até as primeiras lágrimas. “Ele faria qualquer coisa para proteger minha mãe e eu”, desabafou ela, sobre o aposentado Antônio Carlos Barbosa da Silva, 66, morto durante assalto na noite desta terça-feira (15), no bairro de Caminho de Areia

Antônio Carlos observava a filha que chegava estacionando o veículo, um Toyota Etios prata, quando um homem de bicicleta se aproximou e anunciou o assalto na Rua Visconde de Abaeté. O idoso reagiu e foi baleado na cabeça na porta de casa. “O bandido apontou a arma. Eu disse que ia entregar o celular. Ao mesmo tempo, meu pai vinha pelo outro lado com as mãos para o alto, mostrando que não estava armado. Foi aí que tentou dominá-lo, mas não conseguiu e o homem deu um tiro na cabeça dele”, contou Renata. 

O aposentado foi socorrido ao Hospital do Subúrbio, mas não resistiu. Toda a ação foi registada por câmeras. O crime é investigado pelo Departamento de Homicídio e Proteção à Pessoa (DHPP). Até agora não há pista do bandido. 

Reação 
Instante antes do disparo, ao perceber que o pai se aproximava, a fisioterapeuta pediu para o aposentado não reagir. “Ele era cabeça quente, era superprotetor, eu sabia que reagiria. Na hora disse: ‘Não, pai!. Ele pensou que o bandido poderia fazer algo comigo e tentou dominá-lo, mas não conseguiu. Meu pai perece que escorregou na hora, era um idoso, não tinha mais a força de jovem, foi quando o bandido aproveitou para atirar”, detalhou a filha. 

Renata disse que todos os dias os pais a esperam chegar em casa, por conta dos assaltos na região. Na noite desta terça, quando estacionava após o aposentado retirar os piquetes que demarcavam a garagem em frente à casa, a fisioterapeuta já imaginava que seria abordada pelo bandido. “Eu já estava desconfiada. A rua estava deserta. Vi ele (bandido) se aproximando através do retrovisor, ao mesmo tempo que meu pai vinha do outro lado. Mas foi tudo muito rápido”, disse ela. 

Se não fosse a tragédia, Renata estaria a caminho da cidade de Gramado, no Rio Grande do Sul, curtindo as férias logo nas primeiras horas dessa quarta-feira (15). No entanto, precisou ir ao IML. “Estamos arrasadas. A dor é muito grande, mas tenho que ser forte por minha mãe, que é hipertensa”, disse ela, que era a filha única de Antônio Carlos 

Fisioterapeuta pediu para o aposentado não reagir ao assalto (Foto: Paula Fróes / CORREIO)

Vizinhos
Apesar de aposentado, Antônio Carlos trabalhava numa empresa no Polo Petroquímico de Camaçari na função de comprador. “Ele sempre foi uma pessoa ativa”, disse a filha que, emocionada, preferiu não mais falar sobre o assunto. 

Antônio Carlos morava no local há mais de 30 anos e a sua morte causou revolta aos demais moradores. “Ele era uma pessoa muito querida aqui. Jogava bola com o meu pai, me viu pequeno, falava com todo mundo. Sempre depois das 18h, ele colocava a roupa dele e saia para andar por aqui mesmo. Uma lástima tudo isso”, lamentou o vidraceiro Francisco José Souza Ferreira, 36

Mais vizinhos se solidarizaram com a dor da família do aposentado. “Quando se leva um celular, uma corrente, um carro, a gente recupera depois, mas o que fazer quando se leva a vida? Se está sendo doloroso para nós, vizinhos, que o tínhamos como uma pessoa maravilhosa, imagina para a família? Como está o coração da filha? E a mulher dele, porque eram só os três na casa. É uma dor que eu espero nunca passar. Que Deus conforte todos”, disse a dona de casa Jaqueline Menezes, 54.    

Outros aproveitaram a situação para falar sobre a insegurança. “Aqui já teve roubo de celular, carro, mas foi a primeira vez que tivemos uma morte. A segurança aqui vai de mal a pior”, declarou a cuidadora de idosos Maria Aparecida Monteiro, 47.
 

Moradores instalaram câmeras para inibir assaltos

A lente que registrou o momento em que o aposentado Antônio Carlos é baleado faz parte das sete câmeras colocadas pelos próprios moradores na tentativa de inibir os assaltantes. “Mas como se viu, eles não estão nem aí para as câmeras. São ousados”, pontuou o vigilante Gregório Anunciação, 37. 

Mesmo com sete câmeras, rua é palco de assaltos constantes (Foto: Paula Fróes/CORREIO) 

Segundo ele, diante dos inúmeros assaltos, os moradores recolheram entre si pouco mais de R$ 2 mil e instalaram as câmeras há pouco mais de um ano. Um grupo no WhatsApp foi criado especialmente para troca de informações entre os moradores sobre a segurança na rua.   

Apesar disso, a medida não foi suficiente para deter a ação dos criminosos. Em outubro do ano passado, eles colocaram um portão na entrada da rua, mas devido à denúncia de outros moradores, a prefeitura acabou retirando o portão, colocado sem autorização. “O bloqueio de acesso de pessoas estranhas reduziu bastante o número de assaltos, mas em janeiro deste ano a prefeitura acabou retirando”, disse ele. 

A Rua Visconde de Abaeté tem becos que dão para outras localidades, o que acaba tornando o local preferido pelos ladrões. “A rua acaba sendo rota de fuga para as localidades de Massaranduba, Baixa do Petróleo, Mangueira e Leblon”, declarou. 

A reportagem pediu um posicionamento à Polícia Militar sobre a insegurança relatada pelos moradores. Em nota, a corporação informou que o policiamento é realizado pela 17ª CIPM, unidade que atende à área, por meio de guarnições convencionais em regime de 24h, com o reforço do Pelotão de Emprego Tático Operacional (Peto) e da Companhia Independente de Policiamento Tático (CIPT) Rondesp Baía de Todos- os-Santos, bem como de guarnições especializadas por meio de rondas.

A instituição orienta que, ao observar pessoas em atitude suspeita ou ações delituosas, o cidadão deve ligar imediatamente para o 190 ou o disque denúncia (181) e informar a situação. "É importante também que a vítima registre a queixa na delegacia da área, pois o policiamento é estabelecido de acordo com os índices de ocorrências registradas", informou a nota.

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