Filho de juiz que matou universitária em Cachoeira é preso em Feira de Santana

bahia
29.11.2019, 15:55:00
Atualizado: 29.11.2019, 18:41:09

Filho de juiz que matou universitária em Cachoeira é preso em Feira de Santana

Ele se apresentou numa delegacia e será conduzido para Cachoeira, onde será ouvido

Foto: Reprodução

José Alexandre Passos Góes Silva, 34 anos, assassino da estudante Elitânia de Souza da Hora, 25, teve o mandado de prisão por feminicídio cumprido pela Polícia Civil, na tarde desta sexta-feira (29). A informação foi revelada pelo delegado João Matheus, titular da Delegacia Territorial (DT), de Cachoeira, responsável pela investigação do crime.

Acompanhado de um advogado, Alexandre, que é filho de um juiz aposentado, apresentou-se espontaneamente, por volta das 13h30 desta sexta (29) em uma delegacia de Feira de Santana.

De acordo com o delegado, Alexandre foi encaminhado para o presídio regional de Feira de Santana. O acusado ainda foi interrogado por João Matheus na cidade.

“No interrogatório, ele não falou sobre os fatos. Só vai se manifestar em juízo. Independente do investigado não ter confessado, podemos apontar ele como autor a partir do depoimento de uma testemunha ocular”, afirmou o delegado.

Elitânia foi baleada quando chegava em casa, por volta das 22h40, no bairro Currais Velhos, em Cachoeira. Alexandre não aceitava o fim da relação e fugiu do local após o crime. Equipes da DT/Cachoeira ouviram testemunhas e realizaram buscas, no intuito de localizar o criminoso.

O delegado afirmou que Alexandre não tinha antecedentes criminais, mas que estava importunando Elitânia antes de cometer o crime. A estudante já havia informado o fato à polícia de Cachoeira.

“Durante o processo de separação e mudança de Elitânia, ela alegou que ele a importunava na tentativa de reatar o relacionamento. Ela havia procurado a polícia de cachoeira, assim como fez com a de São Félix, quando morava com Alexandre”, relatou o delegado.

O casal havia se separado há cerca de sete meses e chegou a morar junto por aproximadamente um ano em São Félix, segundo o delegado.

A universitária era estudante do 7º semestre do curso de Serviço Social e foi assassinada às 22h50 desta quarta-feira (27), após deixar a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) na Rua do Fogo, que fica perto da instituição, no Centro da cidade, a pouco metros onde morava com uma amiga num apartamento. Nos finais de semana, ela tinha o hábito de ficar com a família, que mora na Fazenda Guaíba, no Quilombo Tabuleiro da Vitória, na zona rural de Cachoeira. É lá que ela terminava a construção de sua casa, seu maior sonho. 


Casa que Elitânia construiu no Quilombo Tabuleiro da Vitória (Foto: Tiago Caldas)

Em nota, a UFRB informou que decretou luto oficial de três dias pela morte da estudante e lamentou "as terríveis circunstâncias do crime" e pede Justiça. "As terríveis circunstâncias do crime contra Elitânia causam tristeza e indignação de toda a comunidade acadêmica. A UFRB deposita sua confiança nas autoridades para que a justiça seja feita", disse a instituição de ensino.

A Polícia Militar, em nota, informou que por volta das 23h de quarta-feira (27), a PM foi acionada sobre um homicídio de uma jovem de 25 anos, atingida por disparos de arma de fogo na cidade de Cachoeira.  "A guarnição da 27ª CIPM foi ao local e recebeu a informação que a vítima foi socorrida por prepostos da Polícia Civil para o hospital local, onde não resistiu aos ferimentos", disse a polícia. 

No mesmo dia do crime, o autor já tinha sido identificado. Isso foi possível através do depoimento de uma testemunha: uma colega da universidade que estava ao lado de Elitânia na hora dos disparos. O CORREIO teve acesso ao boletim de ocorrência do fato. Em um dos trechos, a testemunha tem a certeza de que o crime foi cometido por Alexandre. 

"Que reconhece sem dúvidas a pessoa de Alexandre Passos Silva Góes como o autor dos disparos, pois já o tinha visto pessoalmente e também através de fotos", diz trecho do documento.  

Crime
Era por volta das 22h40 quando Elitânia tinha acabado de deixar a UFRB, no Centro da cidade. Ela e uma amiga estavam indo para casa caminhando na Rua do Fogo, ainda no Centro, quando foram surpreendidas pelo acusado. De acordo com as informações do boletim de ocorrência, a testemunha disse que Alexandre atirou três vezes contra Elitânia. Ela relatou que não soube distinguir se era um revólver ou uma pistola, mas que a arma era de cor preta. Disse ainda que o acusado "usava  um boné de cor escura, calça jeans e camisa longa. Que Alexandre não falou nada e saiu correndo após os disparos". 

Elitânia foi socorrida para o hospital municipal da cidade, mas não resistiu aos ferimentos. Segundo a polícia, os disparos foram efetuados entre o tórax e a cabeça. 

Medida 
Segundo o delegado João Mateus, Elitânia tinha uma medida protetiva contra o acusado concedida pela Justiça em Cachoeira.  "O que a gente buscava era elementos para pedir a prisão do acusado, inclusive a vítima ficou de levar a avó para prestar depoimento no Ministério Público", disse.  

Outra medida protetiva chegou a ser solicitada na comarca de São Félix. "Ela morava com a amiga há um ano aqui, em Cachoeira. Mas antes, morou um ano com o acusado em São Félix, onde registrou a primeira queixa de agressão", contou o delegado. 

Dor
A notícia da morte de Elitânia deixou estudantes, professores e funcionários da universidade consternados - uma faixa preta foi estendida na entrada da instituição. Além de aluna da UFRB, Elitânia era secretária do Núcleo de Turismo Étnico Quilombola de Cachoeira e do projeto Maravilhas do Quilombo.

"Ainda estou em estado de choque. Ficamos sabendo logo após o ocorrido e passamos a madrugada arrasados", declarou o vice-diretor do Centro de Artes, Humanidades e Letras (CAHL) da UFRB, campus Cachoeira, Gabriel Avilar. 

A professora do curso de Serviço Social Heleni Àvila lamentou a morte brutal da aluna. "Uma ótima pessoa, uma liderança quilombola. Um exemplo para todos de luta e representatividade", disse. 

Elitânia chegou a cogitar como projeto de conclusão de curso o tema Feminicídio, mas acabou desistindo. "Ela desistiu por que o assunto mexia muito com o emocional dela, pois apanhava do ex-companheiro. Ela já chegou aqui com marcas no corpo", declarou o professor João Paulo Aguiar, orientador dela do trabalho de conclusão. Elitânia optou, então, por um tema relacionado à inserção de crianças quilombolas no ensino regular. 

Protesto
Era por volta das 10h30 quando professores e alunos deixaram a UFRB e seguiram para o Fórum Augusto Teixeira de Freitas. A maioria vestia preto em sinal de luto e algumas levavam cartazes pedindo justiça.  "Não podemos aceitar isso. Hoje foi Elitânia, amanhã será mais quem? Quantas mulheres precisam morrer para que uma atitude seja tomada", declarou Angélica Santos, aluna do curso de Serviço Social. 

"Ela era uma pessoa muito linda e.corajosa. Sabíamos dos seus problemas com o ex-namorado, mas o medo não a fez desistir do curso", lamentou Ana Paula Faria, também aluna de Serviço Social.

A Universidade decretou luto oficial de três dias pela morte da estudante e lamentou "as terríveis circunstâncias do crime" e pede Justiça.


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