Filme vai celebrar a amizade entre Caymmi, Carybé e Jorge Amado através de suas cartas

variedades
10.10.2021, 11:00:00
Atualizado: 10.10.2021, 11:41:52
Jorge Amado, Carybé e Caymmi: amizade de toda vida (Divulgação)

Filme vai celebrar a amizade entre Caymmi, Carybé e Jorge Amado através de suas cartas

Com título provisório de Sal da Vida, filme começa a ser rodado ainda este ano com produção da Globo Filmes em parceria com a Coqueirão Filmes e a Janela do Mundo

“Somos o primeiro trio elétrico”, costumava brincar o pintor Carybé ao falar sobre a amizade que o unia ao escritor Jorge Amado e ao cantor Dorival Caymmi. O trio, considerado um dos inventores da baianidade, refletiu um jeito de ser baiano que se perdeu na mudança de século. Parceiros no “crime”, os três não se desgrudavam nem mesmo quando estavam distantes. Nestes períodos, alguns bem longos em função de suas agendas, o amor, o humor, a irreverência e o afeto se mantinham vivos nas longas e divertidas missivas que trocavam.

(Divulgação)
Carta ilustrada escrita por Carybé para Caymmi em 1953

“Ontem saí com Carybé, fomos buscar Camafeu na Rampa do Mercado, andamos por aí trocando pernas, sentindo os cheiros, tantos, um perfume de vida ao sol, vendo as cores, só de azuis contamos mais de quinze e havia um ocre na parede de uma casa, nem te digo. Então ao voltar, pintei um quadro, tão bonito, irmão, de causar inveja a Graciano. De inveja, Carybé quase morreu, e Jenner, imagine!, se fartou de elogiar, te juro... O tempo que tenho mal chega para viver: visitar dona Menininha, saudar Xangô, conversar com Mirabeau, me aconselhar com Celestino sobre como investir o dinheiro que não tenho e nunca terei, graças a Deus, ouvir Carybé mentir, andar nas ruas, olhar o mar, não fazer nada e tantas outras obrigações que me ocupam o dia inteiro. Cadê tempo pra pintar...?”

(Acervo pessoal/Sergio Machado)
Encontro entre Sergio Machado e Jorge Amado

São cartas como esta, que tinha como remetente o compositor baiano, e como destinatário, o escritor de Terras do Sem Fim, o fio condutor do documentário O Sal da Vida – título provisório - que começará a ser rodado até o final deste ano, sob a direção do cineasta baiano Sergio Machado, numa produção conjunta da Globo Filmes com a Coqueirão Filmes e a produtora baiana Janela do Mundo.

Na semana passada, Machado e os produtores Claudia Lima e Diogo Dahl se reuniram fisicamente com as famílias dos artistas pela primeira vez em Salvador para iniciar o trabalho de pesquisa que dará suporte ao roteiro que está sendo construído pelos roteiristas Gabriel Meyohas e Rita Piffer. 

(Divulgação)
Sergio Machado vai dirigir o documentário Sal da Vida


A equipe ainda não definiu se o fotografo francês Pierre Verger vai elevar o trio a um quarteto, já que integrava o grupo de amigos, mas é o trabalho de pesquisa que vai nortear não apenas os rumos desta história como a entrada ou não de outros personagens. “Estamos selecionando as cartas, pesquisando o envolvimento deles, para que tenhamos uma definição inclusive de como vamos construir esta história”, conta Sergio Machado.

A expectativa do cineasta é de que a história que será contada emocione a todos que assistirem. “Minha ideia é que a pessoa que assista ao filme, em qualquer parte do mundo, que nunca ouviu nestes artistas, se emocione com essa relação de amizade entre eles”. Se depender de material de pesquisa, a equipe terá bastante trabalho. De acordo com Maria João Amado, neta do escritor, existem mais de 10 mil missivas ainda não catalogadas. “E meu avô fazia questão de responder a todas, mas não conseguimos dar conta de tudo”, conta. Parte do acervo de cartas de Jorge Amado que já foi catalogado está dividido entre a Casa do Rio Vermelho, onde viveram Jorge e Zélia Gattai, e a Fundação Casa de Jorge Amado. 

(Foto:Nara Gentil/Correio)
Equipe com Maria João, neta de Jorge Amado, na Casa do Rio Vermelho

O diretor ainda não definiu também como vai trabalhar a narrativa. “Ainda não sabemos se teremos um ator lendo as cartas, mostrando como elas se comunicam, ou através de trechos de áudios dos três, enfim, certo mesmo é que o filme será centrado nas cartas, com poucas intervenções”, explica.

Reconhecimento
A ideia do filme nasceu de um desejo do produtor Diogo Dahl, que é filho do cineasta Nelson Pereira dos Santos, personalidade que conviveu muito com Jorge Amado. “Quando surgiu a ideia, pensei logo em Sérgio Machado para dirigir. Falei com Paloma (Amado) e ela abraçou o projeto, o que me dá muita satisfação de realizar porque, especialmente neste momento em que estamos vivendo, é importante reconstruir essa história de amor, de respeito e de amizade”, afirma Dahl.

(Foto:Nara Gentil/Correio)
Troca de cartas e cartões postais entre o trio era bastante comum

Se para o produtor carioca o filme representa uma celebração à amizade, para o diretor é também uma forma de reconhecimento pelo que o escritor fez por ele quando ainda era um jovem aspirante a cineasta. “Jorge Amado mudou a minha vida. Foi ele que, me conhecendo pouco, me indicou para Walter Salles Jr.. Ele escreveu uma carta para o cineasta me apresentando, que dizia mais ou menos assim: - Apresento-lhe este jovem que não é nem meu amigo nem parente, mas que acreditamos ter um grande talento, se você achar o mesmo que eu e Zélia, dê prosseguimento”, conta Machado, emocionado, na Casa do Rio Vermelho, onde visitou o casal de escritores algumas vezes.

A apresentação deu resultado. Depois de passar por uma via crucis para chegar até Salles Jr., o diretor conseguiu enfim o que buscava. Começou no cinema pela porta da frente, como assistente de direção de Waltinho em Central do Brasil (1998), marco na história do cinema brasileiro.

“Fiz de tudo na produção de Central do Brasil, e desde então, eu e Walter Salles não nos separamos mais. É também uma grande relação de amizade. Então estar aqui hoje, na casa onde viveram Jorge e Zélia, trabalhando num filme que vai exaltar a importância que ele dava à amizade, é muito especial pra mim”, diz Machado, que dirigiu Quincas Berro D’Água (2010), baseado em obra de Jorge Amado.
 

(Foto:Nara Gentil/Correio)
Cartão enviado por Caymmi a Jorge Amado

Nesta primeira etapa do processo de construção do documentário, a equipe esteve também com a família de Caymmi no Rio, e com a do pintor Carybé, em Salvador. “Danilo Caymmi abriu o baú de Dorival para nós e também abraçou o projeto, o que nos deixa muito felizes e seguros do que vamos levar para o cinema”, diz Dahl.

O atelier de Carybé, em Brotas, também está à disposição da equipe. No espaço, onde hoje funciona o Instituto Carybé, a equipe se encontrou com Gabriel Bernabó, neto do artista argentino “naturalizado” baiano e abriu o acervo, especialmente das cartas, para a equipe, bem como contou histórias divertidas sobre a amizade do trio elétrico.

Tudo tem fluido como numa grande amizade, sentimento tão leve e especial, que, como o Sal da Vida, parece ter tocado todos que, de uma forma ou de outra, estão envolvidos no processo. A julgar pelo patrocinador, peça fundamental e cada vez mais rara quando o assunto é cultura neste país. “Apresentamos o projeto a uma empresa baiana do segmento de energia, a Global Participações Ltda, que abraçou o projeto de imediato e garantiu a realização do filme”, conta Claudia Lima, da Janela do Mundo, coprodutora do documentário.

Com pesquisa em andamento, equipe definida e recursos captados, os produtores aguardam apenas a liberação da Ancine para iniciar os trabalhos de filmagem.
 


***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas