Flora Gil: ‘Tenho receio de cooperar com a pandemia’

sua diversão
24.11.2021, 05:30:00

Flora Gil: ‘Tenho receio de cooperar com a pandemia’

Em entrevista ao CORREIO, empresária e esposa de Gilberto Gil explica motivo de, mesmo havendo o Carnaval, não produzir o Camarote Expresso 2222

A empresária e produtora Flora Gil chegou recentemente da Europa onde acompanhou a turnê do marido, Gilberto Gil. Gil in Concert  passou por oito países num total de 18 apresentações, com abertura de  Adriana Calcanhoto.

De volta ao Brasil, Flora acompanhou com amigos e familiares a eleição de Gil como novo imortal da Academia Brasileira de Letras (cuja posse será ano que vem), no dia 11, e, em seguida, se debruçou sobre a produção do badalado Camarote Expresso 2222, um dos espaços mais disputados no Carnaval de Salvador.

Gilberto GIl e Flora Gil (Foto: Geovane Peixoto/Divulgação)

Por conta da pandemia, Flora decidiu que não haverá o Expresso mesmo que aconteça o Carnaval. Em entrevista exclusiva ao CORREIO, a empresária explicou os motivos dessa decisão, além de falar sobre os projetos dos 80 anos de Gil e de um possível show dele em Salvador.


CORREIO: Se for confirmada a realização do Carnaval, afinal, vamos ter o Camarote Expresso 2222?
Flora Gil: Se os governantes da Bahia acharem que devem seguir com a ideia de fazer o Carnaval, infelizmente o Camarote Expresso 2222 estará por mais um ano fora da folia carnavalesca.

C: Qual seria o motivo?
FG: A pandemia ainda não acabou. A aglomeração é um multiplicador do vírus e o Carnaval é uma aglomeração extraordinária. Tenho receio de  produzir uma festa tão grande com duração de uma semana, como o Camarote Expresso 2222,  e cooperar com a permanência, e até uma expansão, da pandemia. Tenho muito respeito pela minha vida e a vida alheia.

C: Como cidadã, empresária e carnavalesca, você acha que o país já tem condições de realizar o Carnaval de rua como o que acontece em Salvador?
FG: Olhe, o que penso sobre o Carnaval de Salvador, que conheço há mais de 40 anos, é o mesmo que penso sobre aglomeração no Rio, São Paulo, Belo Horizonte, Recife ou qualquer outra cidade que queira brincar nosso tão esperado Carnaval do Brasil em meio a essa pandemia avassaladora. Não temos a menor condição de sairmos às ruas com milhões de pessoas pulando umas ao lado das outras - sem máscaras - porque Carnaval é sinônimo de beijo na boca, abraços e muita bebida e comida. Alguém beija e bebe com máscara?  Não conheço esse folião. Conversei esses dias  com Preta (Gil)  que vem fazendo há anos o bloco no Rio  - Bloco da Preta - com mais de 1 milhão de foliões, e ela me disse que não tem coragem de promover uma festança em meio a tantas tristezas, morte de amigos e notícias que não param de chegar sobre covid. E mesmo depois da vacina, em alguns países, o mar não tá pra peixe. Por isso tudo, acho temerário contribuir para essa situação que ainda é  bastante instável. Uma pena, mas é o que vejo nos noticiários  e nas  entrevistas de especialistas em pandemia.

C: Há os que defendem o Carnaval alegando que a não realização da festa, pelo segundo ano seguido, vai causar um prejuízo em toda  cadeia econômica que vai do setor hoteleiro a todos aqueles que trabalham na festa. E os que são contra, alegam que a saúde está em primeiro lugar. Como você vê esse embate?
FG: É preciso saber quem prefere ficar doente e causar problemas pra tantas pessoas ou ganhar dinheiro pra garantir um pouco de sobrevivência. É um peso, um dilema, que cada um tem que considerar. Eu acredito que as pessoas com essa questão ainda são obrigadas a priorizar a saúde e a sobrevivência. De que adianta ganhar, realizar, garantir a renda, sem a garantia da saúde? Não acredito na felicidade doente. Temos que entender que o momento é delicado. Não dá pra pular etapas. Se a gente pular, certamente o resultado será ruim e teremos que voltar algumas casinhas pra trás, como num jogo infantil de tabuleiro.

Flora e Gil, no Expresso 222 - camarote não acontecerá em 2022 mesmo que haja Carnaval (Foto: Divulgação)

C: Sem o Carnaval - e o Expresso 2022 -, o que você e Gilberto Gil pretendem fazer: virão para a cidade no Verão ou ficarão no Rio?
FG: Com certeza nosso Verão será na Bahia com a mesma devoção e alegria.  Pra mim, será ainda mais importante porque raramente curto o Verão baiano em férias. Enquanto muitos estão nas praias, nos barcos, festas e baladas,  eu estou trancada com minha equipe no escritório produzindo mais uma festa  para os convidados e patrocinadores do Expresso 2222. Quem me conhece sabe bem que gosto de produzir, agregar, juntar pessoas e proporcionar alegria, mas agora penso no que uma festança pode causar de prejuízo na vida de tantos. Vamos esperar e ter fé. Afinal como bem disse Gil “a fé não costuma faiá”.

C: Em 2022, Gilberto Gil, assim como Caetano Veloso, comemora 80 anos. Algum projeto especial para marcar tão importante data?
FG: Nós gravamos a primeira temporada de uma série da família Gil durante o inverno carioca de 2021 em Araras (distrito de Petrópolis, no Rio), a convite da Amazon. A Conspiração Filmes nos convidou pra filmar e a família  logo topou. A direção é de Andrucha Waddington e deve ir ao ar - no Verão europeu 2022 (meio do ano no Brasil) no Amazon Prime Video. Vi alguns episódios e posso adiantar que é muito interessante. A família Gil inteira reunida em nossa casa na serra,  com microfones e câmaras ligadas praticamente 24h ao dia. Tem muito assunto! Muitos têm curiosidade em saber quem é mãe de quem, quem é filho de quem, com quantas mulheres Gil se casou, quantos filhos,  netos, bisnetos, etc.. E agora todos poderão entender um pouco melhor a nossa família.

C: Maria Bethânia vai fazer show em dezembro no TCA. Gal Costa e Caetano Veloso anunciaram também temporadas em Salvador ano que vem. E Gilberto Gil?
FG: A gente está pensando no Verão, mas não sabemos ainda. Meny Lopes (que cuida da agenda de shows) está resolvendo. No Verão, provavelmente, vai ter show em Salvador, mas ela está resolvendo com a Concha (Acústica do TCA).

 C: Gil foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. Agora, como é conviver com um imortal?
 FG: Continua sendo como sempre foi. Gil é tranquilo, baiano e poeta.

***

Em tempos de desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informações nas quais você pode confiar. E para isso precisamos de uma equipe de colaboradores e jornalistas apurando os fatos e se dedicando a entregar conteúdo de qualidade e feito na Bahia. Já pensou que você além de se manter informado com conteúdo confiável, ainda pode apoiar o que é produzido pelo jornalismo profissional baiano? E melhor, custa muito pouco. Assine o jornal.


Relacionadas