Gatos são cada vez mais bem-vindos nas casas brasileiras

entre
22.01.2022, 11:00:00
Hoje, são cerca de 26 milhões de gatos nos lares brasileiros (Foto: Nara Gentil/ CORREIO)

Gatos são cada vez mais bem-vindos nas casas brasileiras

Junto com o aumento do número de felinos como mascotes, mercado pet expande também a oferta de produtos e serviços específicos

Um, dois, três felinos. Quando decidiu sair da casa dos pais, a assessora de comunicação Laís Matos adotou Amélie para ter uma companhia e aí não deu outra: “Virei a ‘doida’ dos gatos. Encontrei minha gatinha num grupo para adoção no Facebook. Era a única pretinha da ninhada e me apaixonei logo de cara. Acolhi outros gatinhos como lar temporário e uns dois anos depois de Amélie, andando na rua, achei mais duas gatinhas filhotes num terreno abandonado: Larissa e Jonpal. Peguei as duas e também trouxe para casa. O que mais gosto nos gatos é o jeito independente e meio selvagem deles, cada um tem uma personalidade (ou gatidade) muito única”, afirma. 

E dá para entender porque tem cada vez mais gente querendo ter um bichano por perto. Segundo o último estudo feito pelo Instituto Pet Brasil (IPB), ainda que os cães ainda sejam os bichos de estimação mais populares no país, o número de pessoas que está optando pelos felinos é cada vez maior. Para se ter uma ideia, no Brasil, entre 2019 e 2020, o crescimento dos gatos como mascotes foi de 3,6%. Entre os cães, o aumento foi de 1,45%. Ou seja, um pouco mais que o dobro.  

A entidade ainda não tem os dados consolidados do último ano, porém, não nega que esse é um segmento que deve crescer ainda mais, como destaca o presidente do Conselho Consultivo do IPB, Nelo Marraccini. 

“Por serem animais que se adaptam mais facilmente a espaços menores, como apartamentos, e têm uma autonomia maior para ficar períodos mais longos sem interação intensa, eles são cada vez mais procurados por pessoas que moram sozinhas, ou pequenas famílias em cidades mais verticalizadas”, avalia.

Só para ilustrar o que Marraccini diz, os gatos domésticos costumam dormir cerca de 16 horas por dia, ou seja, podem perfeitamente ficar em casa sem interação alguma. 

Hoje, são cerca de 60 milhões de cães nos lares brasileiros, e 26 milhões de gatos. Em todo o mundo, as estimativas apontam para quase 1,7 bilhão de animais domésticos sob tutela de um humano. No  planeta, a população de gatos que cresceu 3,1% quando comparada a  2019, antes da pandemia. 

“Os brasileiros são muito conectados à cultura de manter um animal em casa como membro da família, e isso deve se acentuar ao longo dos próximos anos. Percebemos cada vez mais a integração de pets gatos em todas as atividades cotidianas da casa”, analisa Marraccini. 

No caso do trio ‘gatástico’ formado por Amélie, Larissa e Jonpal, a tutora Laís Matos reconhece que o universo de produtos e serviços para felinos se abriu e vai além da ração ou da caixinha de areia. “Isso é maravilhoso porque esse mundo de produtos pet é um convite para mais gatinhos de rua serem adotados e terem um destino mais feliz, já que não existe uma cultura forte de comprar gatos aqui, como acontece com os cachorros”, opina ela. 

Laís gasta, em média, R$ 130 por mês com o básico para as gatinhas, sem contar com os mimos. Ao escolher esses produtos e serviços, ela sempre leva em conta o melhor custo-benefício:

“Analiso o preço e a qualidade, conforme o meu orçamento. Gosto de pesquisar para conhecer todas as opções. Já quando busco serviço, procuro olhar também a questão do atendimento, se a pessoa tem manejo com gato e se minhas gatas vão gostar dela ou não”. 

Nesse universo de possibilidades vai dar para encontrar mais coisa do que se imagina. Em Salvador, por exemplo, tem uma clínica especializada só para o atendimento de gatos - creia, eles são muito diferentes dos cachorros no trato cotidiano. 
A Clínica Felina para Gatos é a primeira do Norte Nordeste e faz, em média, 300 atendimentos de consultório por mês. A médica veterinária e fundadora da Felina, Ilka Gonçalves, pontua que a demanda maior é a maior por consultas, internações e depois cirurgias, exames de sangue e imagem.  

“As vantagens do serviço especializado é contar com uma estrutura totalmente voltada para o atendimento da espécie felina, ou seja, não tem cheiros nem latidos de outros animais, fatores que costumam elevar o nível de stress do paciente felino. Além disso, a equipe tem um treinamento constante voltado para a fisiologia e farmacologia da espécie”, diz Ilka. 

Na Clínica Felina demanda maior é por consultas, internações e cirurgias
(Foto: Nara Gentil/ CORREIO)

Dificilmente, a clínica atende tutores que têm apenas um gato em casa. “Hoje em dia, há uma preocupação maior sobre manejo de saúde, doenças infecciosas, manejo ambiental e alimentação. Tudo  em busca de melhorar a qualidade de vida e bem-estar para os gatinhos”, complementa a veterinária. 

Outro negócio que não tem do que se queixar diante dessa demanda é o de manipulação veterinária. Na Farma Animal, no Canela, os campeões de venda são os florais para combater o estresse, agressividade, medo, mudanças de ambiente, membros novos na família. A sócia da farmácia, Nívea Braga, ressalta que houve um aumento de 80% do número de clientes tutores de felinos. 

“São consumidores detalhistas, criteriosos e bastante cuidadosos com seus felinos. Como são mais exigentes e sensíveis quanto ao sabor, aromas e texturas, os medicamentos para gatos precisam ser efetivos e de uso prático para o cuidador”, explica Braga.

Cat friendly
Os produtos e serviços não param por aí. Empresas como a marca Amicus, acabou de lançar a Aqua First,  a primeira fonte (bebedouro) de gato USB do mercado, que funciona conectada a qualquer carregador de celular ou tomada USB. “O mercado para gatos vem ano a ano diminuindo a distância com os cães e ganhando destaque nos lançamentos e projetos das empresas do segmento pet. Sem dúvida, estamos investindo de forma mais pesada em produtos para felinos, desenvolvendo novos brinquedos. Também pretendemos trazer inovação no futuro para os alimentadores e caixas de areia”, comenta o diretor da empresa, Francisco Mecchi. 

Já a Perigot apostou em uma linha de cosméticos e perfumaria desenvolvida para gatos. A empresa investe ainda em produtos do segmento home, têxtil e florais. Na última edição da feira Pet South que aconteceu no ano passado, a marca lançou um concentrado de Queratina Hidrolisada para o pelo do gato, o Keratin Force Repair. Em dezembro, trouxe para o mercado a Linha Melancia, composta por shampoo, condicionador, geleia hidratante e a colônia, além da Linha Felix, com shampoo, condicionador e colônia. Tudo específico para os bichanos. 

“O mercado de felinos cresceu cerca de 8% nos últimos anos. Acreditamos que o fato das pessoas estarem mais em casa por conta da pandemia aumentou a vontade de uma companhia e o gato, por ser mais independente, se tornou a opção mais desejada nesse momento”, justifica o diretor da Perigot, Giuseppe Illario. 

Avançando na gatolândia, tem até picolé para o bichano nos sabores carne e iogurte, para incrementar a alimentação deles no verão. O Ipet Gelatto  é snack líquido que refresca os animais em temperaturas quentes - ainda que eles adorem climas mais quentes.  CEO do Ipet Products, Lucas Marques explica que o produto foi pensado tendo em vista a dificuldade dos gatos em ingerir líquidos: “Eles não são de beber muito, por isso são animais que têm muitos problemas renais. O gelatto melhora o funcionamento do intestino e ajuda na diminuição dos odores das fezes dos gatos”. 

A marca Ipet produz outro queridinho da gataria: a graminha para gatos. “O Ipet Grass é um item de necessidade básica e de uso contínuo por conta da necessidade da regurgitação do bichano. A graminha é muito simples de se utilizar. Basta regar uma única vez com cerca de 60 ml de água e, em 10 dias, ela está pronta para ser servida ao felino. Por instinto, o gato vai comer as folhas e a clorofila ajudará no processo de regurgitação natural. O produto não tem agrotóxico e é muito saudável”, pontua. Como se lambem muitas vezes por dia, os gatos costumam vomitar bolas de pelo. As fibras da planta facilitam essa eliminação. 

Gatos  e tutores são clientes bem 'exigentes'
(Foto: Nara Gentil/CORREIO)

Se o tutor é exigente, imagine o gato. Lucas Marques complementa que apesar de ser um mercado bem atrativo para a indústria pet é um desafio trazer esses produtos que estão cada vez mais especializados: “O gateiro tem muita necessidade de agradar aos felinos e atrair a atenção deles, por isso o cenário é muito propício. Mas, quando falamos de inovação temos muitas dificuldades, devido às particularidades dos felinos, à sua personalidade  independente, sistemática e desconfiada. Nosso time de inovação sempre pensa no bem-estar dos gatos e dos tutores, por serem eles os formadores de opinião real quanto ao produto, e, consequentemente, o que nos leva a conquistar de novos clientes”. 

Almofada e trato 
Diante de tantas opções de produtos e serviços e frente a uma oferta que deve crescer bem mais, afinal, é mais caro ter um gato ou um cão? Segundo um levantamento feito pela Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (Abinpet), o custo médio mensal para cães com produtos standard varia de 3,2% a 7% da renda familiar, ou seja, R$ 302. Famílias com gatos, gastam 1,3% e 2,8% da renda/mês com a manutenção do animal, o que corresponde a R$ 121,39. Os números consideram a renda de tutores entre as classes B e C (de 10 a 20 salários mínimos, e de quatro a 10 salários mínimos, respectivamente). 

Bancária e tutora de Fred, Jailana, garante: o bichano é econômico: “A única despesa fixa que tenho com ele é a ração. Compro uma ração premium para gatos castrados, o saco de 3kg custa R$ 70 e dura uns dois meses. Cachorro toma mais vacinas durante o ano, o banho e tosa que tem que ser com mais frequência, e, por saírem mais de casa,
 estão suscetíveis a pegar pulgas e carrapatos, e os produtos para exterminá-los são caros”. 

Isso não quer dizer, no entanto, que a tutora não faça ‘investimentos’ e proporcione alguns luxos ao bichano. “Fred é um gato muito ativo e elétrico, e gosta de gastar energia. Sempre compro brinquedinhos para ele, apesar de sabermos que eles preferem as caixas de papelão e as bolinhas de papel”, conta. 

A última compra de Jailana foi um duplex: “Comprei uma casinha com rede e arranhadores. De início, ele não gostou muito (típico de gato), mas agora já sobe na casinha, dorme dentro, brinca. Só não deita na rede ainda. Ele também ganhou uma fonte de água, que cai água o tempo todo. Gatos gostam de água corrente e ele tem usado bastante a fonte”. 

Os felinos podem ser ‘fofíneos’, não dá para negar. Porém, antes de decidir cuidar de um gato, a médica veterinária Ilka Gonçalves, aconselha que o que a gente precisa entender é que cada espécie tem a sua necessidade de manejo, alimentação e bem-estar. Por isso, é importante pensar o que se quer e espera quando leva um animal para casa.   

“Tem muita coisa diferente de antes ao se introduzir um gato em casa. O gato é muito sutil. Ele precisa ter lugares altos na casa, tem hábito de arranhar, mas isso é uma maneira de marcar territórios. O ideal é levar para o veterinário uma vez por semestre, fazer vacinação anual, realizar parasitológico de fezes. E dentro de casa ter caixinha de areia, pote de água pela casa inteira, fontes, oferecer alimento úmido e alimentação natural”, reforça a especialista. 

***

Em tempos de desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informações nas quais você pode confiar. E para isso precisamos de uma equipe de colaboradores e jornalistas apurando os fatos e se dedicando a entregar conteúdo de qualidade e feito na Bahia. Já pensou que você além de se manter informado com conteúdo confiável, ainda pode apoiar o que é produzido pelo jornalismo profissional baiano? E melhor, custa muito pouco. Assine o jornal.


Relacionadas