Geração hiperconectada desafia pais a entenderem fascínio por ídolos digitais

bahia
28.04.2019, 03:32:00
Atualizado: 09.05.2019, 15:03:34
(Mauro Akin Nassor/CORREIO)

Geração hiperconectada desafia pais a entenderem fascínio por ídolos digitais

CORREIO ouviu pais sobressaltados e em busca de limites, especialistas e as crianças sobre o que elas andam assistindo

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Um jovem de seus vinte e poucos anos vai ao supermercado, compra 80 quilos de Nutella e mergulha o próprio corpo em uma banheira cheia da “gosma” de creme de avelã e chocolate. Um outro explica em dez minutos, de forma didática, divertida e cheia de alegorias, as causas da guerra na Síria, a vida polêmica de Charlie Chaplin ou como funciona a força da gravidade. Qual deles você escolheria para o seu filho assistir?

As chances são grandes de que, independentemente da sua escolha, ele tenha visto os dois. Ambos youtubers têm milhões de visualizações e são idolatrados por crianças e adolescentes brasileiros. 

O CORREIO ouviu pais sobressaltados, especialistas e as próprias crianças sobre os conteúdos que internautas entre 3 e 15 anos andam assistindo. O que tem exercido fascínio nessa geração hiperconectada? 

Leia também: Quais os ídolos e temas mais buscados na web e o que eles oferecem?

Primeiro é preciso saber o que exatamente meninos e meninas estão assistindo quando insistem em não largar as telas, seja em casa, no restaurante, na fila do supermercado ou até em uma festa.

Defronte a um celular, tablet ou computador, seus filhos adoram, por exemplo, assistir outras crianças ou youtubers adultos desembrulhando brinquedos e brincando com presentes. É o fenômeno unboxing.

“Essas publicidades embutidas nos vídeos do YouTube são bastante nocivas e incentivam o consumismo. Isso inclui de tudo, de brinquedos a alimentação não saudável”, alerta Rodrigo Nejm, da Safernet, ONG de direito civil que combate crimes e violações a Direitos Humanos na Internet.

Pais também andam se perguntando porque seus filhos andam assistindo outras crianças (e alguns adultos) jogarem games como Minecraft ou porque estão fissurados em AuthenticGames, canal em que um garoto joga vídeo game. Relaxe. Isso é normal. 

“Ordinariamente não tem produto cultural para a criança produzido pela criança. Sempre o adulto que escreve, geralmente, com intuito de educar. Muito natural que as crianças se vejam representadas. Acho que ‘viciadas’ é um termo forte. Penso que há mesmo um encantamento de se ver representada”, diz Rosemary de Oliveira, professora da Uneb, pós doutora em educação e mestre em letras e linguística.

É difícil para um pai que na infância gostava de jogar botão ou uma mãe que brincava de elástico entender porque os filhos assistem loucamente tutoriais de como fabricar massas de modelar, as  chamadas slimes, uma ‘geleca’ moderna; jogam games de guerra ou são apaixonados por nerds que bombardeiam informações e curiosidades. Mas, tratar com estranhamento o conteúdo que o filho consome não mudará nada. 

No final das contas, dizem especialistas, a questão não é só o tempo que os jovens passam na Web, mas o que consomem. O que os pais precisam fazer é conhecer esses conteúdos e estabelecer o melhor controle, evitando que crianças e adolescentes passem horas do dia olhando para as telas. Pedro, de 10 anos, é desses. 

“A vida virtual é, muitas vezes, mais legal que a vida real. Meus pais ficam super preocupados porque acham que eu passo muito tempo no computador e no celular. Ficar sem computador é o pior castigo do mundo”, admite. Sua mãe, a funcionária pública e fotógrafa Renata Carvalho, diz que a dificuldade maior é saber onde está o limite.

“Percebo que tô errando a mão. Apesar de gostar de jogar futebol e ir para casa dos amigos, Pedro troca qualquer coisa, seja festa ou viagens, para ficar no computador jogando. Ele prefere jogar do que fazer qualquer outra coisa na vida dele. Já Maria toma banho assistindo vídeo no Instagram”, entrega a mãe.

É preciso mesmo controlar. Mais do que isso, é preciso mediar essa relação, em vez de simplesmente oferecer o celular para o filho para se ver livre dele por um tempo. Usar as telas como as antigas “chupetas” é onde mora o perigo.

Para a educadora Rosemary de Oliveira, os jovens só ficam bitolados se os pais deixarem. “A única coisa que ‘bitola’ alguém é ouvir sempre um mesmo e repetido discurso acrítico. É preciso diálogo”, diz. 

Balaio de gato
Na página de trend topics do Youtube é possível comparar a diferença de temas pesquisados no Brasil. Quando se coloca, por exemplo, os termos ‘slime’ e 'matemática', o resultado é: de cada 100 buscas no período de 1 ano, 94% eram sobre a geleca.

Ou seja, você precisa estar atento muito mais ao que seu filho anda assistindo do que ao tempo que ele passa grudado na tela. “Não demonizo as novas tecnologias de forma nenhuma. Mas não sabemos o impacto disso nos nossos filhos. É um fascínio que eles têm que espanta”, preocupa-se Renata.

Deixar a relação da criança com a web correr solta pode ser perigoso. “No YouTube é como se seu filho estivesse na maior locadora de vídeos do mundo, acessando conteúdos para maiores de 18 anos”, diz Nejm.

A boa notícia é que há jeito  para que a educação digital não seja tão diferente do que os pais faziam no passado, quando controlavam os horários dos filhos que jogavam bola ou brincavam na rua.

“A formação cidadã sempre foi feita em rede, mesmo quando nem se pensava em internet. Qualquer pessoa, objeto ou ambiente com quem a criança ou jovem interaja influencia sua formação. Pais e professores devem fazer seu papel de orientadores e mediadores”, ensina Rosemary de Oliveira, professora da Uneb, pós doutora em educação e mestre em letras e linguística.

“A internet é um mundo muito maior do que podemos imaginar e todo dia aparece algo diferente para fazer”, dá a pista, Maria, de 12, sobre o balaio de gato que é o mundo virtual. 

No caso de Caio* (nome fictício), de 14 anos, o impacto foi péssimo. Com sobrepeso na infância, os pais marcaram consultas com médico e nutricionista. Mas, a Internet fez o menino passar do ponto, conta a mãe sem se identificar.

“Não satisfeito com as dietas que os médicos passavam, ele começou a criar as próprias dietas e receitas a partir de coisas que via no YouTube. Teve uma mesmo que era só aveia, banana, café e suplementos. Percebi que estava se tornando quase um vício. Ele estava indo dormir de madrugada vendo esses vídeos, passava a tarde vendo também. Então decidi tirar o celular durante a semana e só dar nos finais de semana”.

Isso porque a tentativa de controle esbarra na enormidade de informação às quais as crianças e adolescentes têm contato e a falta de tempo dos pais.

“Lembro que no meu tempo minha mãe não deixava eu assistir Os Trapalhões porque eles falavam alguns palavrões. Olha que era um programa que passava de domingo em domingo. Imagine a quantidade de conteúdo que esses meninos de hoje são bombardeados todos os dias. A gente tem que tá ligado o tempo inteiro”, pondera o jornalista Sérgio Pinheiro, pai de Pedro, de 9 anos.

“Eu não deixo minha filha assistir ao Felipe Neto ou Whindersson Nunes. Eles fazem uns besteirois adultos com cara de infantil”, diz a funcionária pública Lília Fortuna, 46 anos, mãe de Janine, de 6 anos. Ela cita Whindersson, um dos maiores fenômenos da Internet, mas que não se propõe a ser infantil. As crianças, contudo, adoram. E a própria Janine, quando perguntada sobre seus canais preferidos, citou ambos, Felipe e Whindersson. “Você vê que não consigo controlar o tempo todo. Ela aproveita quando não estou em casa. Não tem celular, mas não pode ver um dando sopa que pega”, diz a mãe.

Serginho, de 6 anos, tem acesso ao YouTube e ao Game PS4. A mãe, a psicóloga Juliana Silvany Tavares, busca alternativas para que o menino não fique fissurado nas telas. “É uma geração tecnológica e não podemos privá-los completamente. Mas, é preciso restringir. O uso que ele faz é somente à noite, quando chega em casa. E tem alguns conteúdos que não acrescentam em nada. Por isso, durante a semana fiscalizo e determino horários. Final de semana tentamos evitar que ele fique muito com esses recursos, saindo de casa e fazendo passeios”.

Juliana e o filho Serginho, de 6 anos: garoto assiste pelo YouTube outras crianças jogando vídeo games (Foto: Mauro Akin Nassor/CORREIO)

Serginho não leva telas para a escola e nos turnos opostos ao que estuda faz diversas outras atividades. “Assim ele não fica muito bitolado, não fica nessa ansiedade”. Já Pedro, de 9 anos, filho de Sérgio, sequer tem celular. 

Ele adora jogos e youtubers que tratem do tema futebol, como Fifa, Futparódias e Desimpedidos. E só acessa no celular dos pais ou tablet nos finais de semana. “Ele diz que é o único da turma que não tem aparelho”, conta Sérgio

Squad
E do que a criançada gosta mais? De assistir aos irmãos youtubers Lucas e Felipe Neto - que no ano passado foram o segundo e terceiro canais que receberam mais inscritos em todo o país; de jogar Fortnite – game que é febre mundial e reproduz cenários de guerra; ou de assistir às Fanfics - ficções criadas por fãs a partir da vida de seus ídolos?

Não dá pra saber. Até porque na Web, os conteúdos se entrelaçam. Um squad (grupo de amigos conectados) de Fortnite envolveu em março desse ano os irmãos Neto no mesmo vídeo e quase 3 milhões pararam para assistir. Seu filho deve ter visto!

Só é preciso cuidado para não ser rígido demais. Por ser avesso a alguns palavrões, por exemplo, um pai pode privar o seu filho de assistir ao Canal Nostalgia, apresentado por Felipe Castanhari, com mais de 12 milhões de inscritos. Lá, estão vídeos sobre os mais diversos temas - da vida controversa de Charlie Chaplin ao Holocausto. É dele o vídeo sobre a Guerra na Síria, no qual compara o país a uma grande escola em que o ditador Bashar al-Assad é o diretor do colégio odiado pelos alunos.

Mas, até aí tem que ter atenção. É preciso saber se o youtuber realmente dá conta da história real ou há fantasia e invenção. Portanto, pais, deve-se estar atento à forma, à linguagem e ao conteúdo. E tudo acontece muito rápido no mundo da web. Inclusive a mudança de interesse. No final das contas, são duas as saídas para uma boa educação digital: estabelecer certo controle sobre os conteúdos e diversificar as atividades. Ou seja, o mesmo de sempre, só que com mais agilidade e diálogo.
 

Guia YouTube Kids
Mas, como estabelecer esse controle com eficiência diante de uma mundão de informações? Bom, além de exercer a autoridade, os pais podem buscar ferramentas na própria tecnologia. O YouTube por exemplo apresenta o aplicativo YouTube Kids como alternativa.

Procurado, o YouTube alertou que é uma plataforma aberta e destinada a maiores de 13 anos conforme descrito nos termos de serviço. “Seu uso por adolescentes deve sempre ser feito num contexto familiar e com supervisão de um adulto responsável”, informa a plataforma. Crianças menores de 13 anos, devem acessar o YouTube Kids.

Até porque, criticam pais, ainda que você acesse inicialmente um vídeo infantil, o algoritmo do YouTube adulto pode levar a conteúdos impróprios para determinadas idades. “Temos recomendado o YouTube Kids para que os próprios pais possam fazer uma play list do que os filhos podem assistir”, afirma Rodrigo Nejm, da Safernet.

É no ambiente do YouTube Kids que, segundo o Google, os pais conseguem estabelecer um maior controle. O aplicativo tem um guia para os pais

Segundo a plataforma de vídeos, diferente do que alguns pais entendem, o YouTube Kids não diz respeito aos conteúdos infantis da plataforma comum. Este, na verdade, é um aplicativo a parte, feito para Android e IOS, onde não entram conteúdos para maiores de 13 anos. Quem faz o filtro? Uma equipe do próprio YouTube formada por máquinas (programas) e pessoas. 

“O conteúdo do YouTube Kids passa por uma curadoria muito grande, inclusive revisores humanos”, informou a plataforma, através de sua assessoria. Além disso, dentro do Youtube Kids é possível colocar senhas, limitar os acessos a conteúdos de determinada faixa etária e apenas aprovados pelos pais.

É possível também impedir que seu filho faça buscas, permite criar perfis diferentes para filhos diferentes, usar um timer com os horários em que o aplicativo não funcione e até bloquear conteúdos a partir da palavra chave. Tudo é feito e monitorado a partir do celular dos pais, que sabem tudo o que o filho está assistindo.

O Google acredita que pais e responsáveis têm um papel fundamental para garantir o uso seguro da internet por crianças e adolescentes. Por isso, criou uma central de segurança especialmente para esse público.

Dicas de educação e segurança
Há pais que não permitem que os filhos usem fones de ouvido. Assim é possível saber o que eles estão assistindo.
Os aplicativos de controle de conteúdo, além do que existe no YouTube Kids, pode ser uma alternativa para monitorar as crianças
Estabeleça horários para que ele tenha acesso às telas e à Web dentro de uma rotina fixa
Diversifique as atividades do seu filho. Faça passeios, viagens e participe de encontros sociais com outras crianças
Não dê o celular para seu filho só para se livrar dele. Dialogue.

Por que as crianças gostam de assistir outras pessoas jogando vídeo games no YouTube?
Faz alguns anos que um curioso hábito se tornou muito popular entre crianças e adolescentes: assistir pelo YouTube outras pessoas (por vezes outras crianças) jogando vídeo games. Alguns adultos reclamam que os filhos estão assistindo conteúdos vazios em vez de estarem exercitando a mente ou produzindo com seus próprios games.

O que muitos pais não sabem é que eles estão fazendo exatamente isso. “Já perguntei a ele porque ele não joga o próprio game em vez de ficar olhando os outros jogares”, admite a psicóloga Juliana Silvany, mãe de Serginho.

Acontece que, no final das contas, o que os pequenos estão fazendo não é muito diferente de quando nós assistimos uma partida de futebol ou outro esporte pela TV.

Confira relato da funcionária pública Renata Carvalho, mãe de Pedro, 10, e Maria, 12: 
"Para mim o mais difícil é saber o limite. Tenho muita dificuldade em dar limite. Percebo que tô errando a mão, preciso dar mais limite, mas não sei como fazer isso. A falta de tempo é um problema. Tenho conversado com meu marido porque Pedro tá realmente me preocupando. 

Acho que saber qual o limite é o maior impasse. Não demonizo as novas tecnologias de forma nenhuma, elas estão aí para serem usadas. Mas não sabemos o impacto disso nos nossos filhos. É muita loucura. É um fascínio que eles têm que espanta. 

Maria e Pedro usam muito, os dois. A diferença é que Maria tem muitos interesses que rivalizam com o uso do celular, como ir para casas das amigas, ficar no condomínio. Não percebo tanta irritação quando a gente tira. Ao mesmo tempo, se deixar ela chega a tomar banho assistindo vídeo no Instagram.

Já Pedro, apesar de gostar de jogar futebol e ir para casa dos amigos, ele troca qualquer coisa (festa, viagens) para ficar no computador jogando. Claro, sei que o jogo on line tem uma certa interação com os amigos. Mas ele prefere jogar do que fazer qualquer outra coisa na vida dele.
Ele gosta de alguns youtubers, como Authentics. Mas o interesse maior é por jogos. Já tirei o celular e o computador.

Porém, é muito difícil. Tem alguns colegas deles que os pais proibiram jogar durante a semana. Tentei fazer isso, mas não consegui. Eu teria que estar em casa. Teria que estar junto o tempo todo. Para ele ficar sem jogar seria praticamente impossível. Estou tentando dar esse limite. O que mais me assusta é que criança hoje não sabe lidar com o ócio. Odeiam ficam entediados, não gostam de praia. Eles não curtem não fazer nada. Parece que a cabeça tem que estar sempre ocupada".

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