Golpe do iPhone: após assalto, bandidos fingem ser da Apple para roubar senhas 

salvador
06.10.2021, 05:30:00
Ladrões entraram em contato e enviaram link supostamente malicioso (Imagens: Reprodução/WhatsApp)

Golpe do iPhone: após assalto, bandidos fingem ser da Apple para roubar senhas 

Três pessoas em Salvador sofreram tentativas de golpe pelo WhatsApp após assalto em arrastões na última semana; saiba como criminosos agem

Donos de iPhone precisam ficar atentos para um novo golpe na praça que afeta aquelas pessoas que tiveram seus aparelhos roubados e solicitaram o bloqueio para impedir acesso aos seus dados. Fingindo que são funcionários da Apple, a empresa fabricante dos iPhones, os criminosos tentam justamente conseguir as senhas das vítimas.

Segundo o delegado Delmar Bitencourt, especialista em crimes cibernéticos e responsável pelo Laboratório de Inteligência Cibernética da Polícia Civil da Bahia, esse tipo de crime é o que se chama de golpe de engenharia social. “Eles [os bandidos] criam um site com dados falsos e entram em contato com a vítima de um modo que ela imagina estar realmente conversando com a empresa Apple. Quando não obtém êxito, chegam a ameaçar através dos dados pessoais que a pessoa tinha no celular”, explica.

Ainda segundo o delegado, não há uma estatística para a ocorrência desse tipo de golpe na Bahia. No entanto, ele reconhece que os casos como esses têm aparecido cada vez mais nas delegacias. Somente nessa reportagem, são três relatos de baianos que passaram pelo problema.

Uma dessas pessoas é o hipnoterapeuta Wedson Mendes, 35 anos, que teve o iPhone roubado no Costa Azul, no meio da tarde, em uma rua movimentada. Uma semana depois de terem levado o celular, os bandidos fingiram que eram funcionários da Apple e entraram em contato pelo número de telefone do chip que Wedson tinha recuperado.

Através do aplicativo WhatsApp, os ladrões enviaram mensagens informando que o iPhone havia sido ativado e localizado, e solicitaram confirmação para saber se a vítima tinha interesse em receber o local onde o dispositivo foi encontrado. Ao responder que sim, Wedson recebeu em seguida um link supostamente malicioso que, segundo os bandidos, serviria para rastrear o aparelho. O hipnoterapeuta desconfiou e não clicou.

Criminosos tentaram imitar comunicação da Apple

(Imagem: Reprodução/WhatsApp)

Ameaças e armas

Outra vítima, que preferiu não se identificar, contou à reportagem que seu iPhone foi levado há pouco mais de uma semana, em um arrastão no Rio Vermelho. No caso dela, porém, os bandidos fizeram ameaças com mensagens do tipo ‘temos todos os seus dados, endereço, vamos atrás de você’. Para amedrontar, os golpistas enviaram as informações dela às quais tiveram acesso e ainda imagens e vídeos de armamento pesado.

"Provavelmente, quem me roubou repassou para alguém que deve entender de técnica de celular. É sempre assim, né? Alguém rouba, outro mexe nas coisas para desbloquear o celular e revender ou até mesmo vender as peças", supõe.

A vítima manteve o modo “iPhone perdido” ativado para rastrear o aparelho quando ele fosse ligado após o roubo. Usando um número com DDD do Rio de Janeiro, bandidos entraram em contato para intimidá-la a desativar o rastreamento. Ela já havia registrado o roubo na 7ª Delegacia (Rio Vermelho) e retornou, depois, para acrescentar as ameaças à ocorrência, mas como o delegado estava ausente, a tentativa de golpe não foi registrada.

A tentativa de intimidação também aconteceu com a estudante Maria Lara Pires, 22. Após ter o iPhone roubado, ela recuperou o número de telefone e começou a receber mensagens estranhas. Primeiro, por SMS. Depois, através do WhatsApp. “Eles chegaram até a ligar para mim, mas em nenhum momento dei retorno, pois sabia que não eram da Apple”, lembra.  

Percebendo que a vítima não cairia no golpe, os bandidos começaram a mandar mensagens de um número com DDD 71 (Salvador e Região Metropolitana - RMS), onde Maria Lara vive. Na conversa, eles enviaram fotos com o endereço da moça e de armamento pesado.  

“Foi horrível. Eu fiquei achando que estava sendo perseguida. Quando fui roubada, eles levaram minha bolsa, que tinha a chave de casa lá dentro. Eu fiquei tão desesperada que dei a senha do iCloud e desisti de tentar recuperar o celular”, afirma.

Ela estima que seu prejuízo, só com a perda do smartphone, foi de R$ 3,2 mil. Com o trauma das ameaças, decidiu não denunciar o crime. “Quando fiz o Boletim de Ocorrência (BO) do assalto, a polícia fez tanto descaso que não me senti segura para me expor novamente. Nas ameaças, eles diziam inclusive que não era para procurar a polícia, pois eles iriam saber. Eu não quis pagar para ver”, acrescenta. 

Em quase todo o mundo, cerca de 40% dos crimes virtuais envolvem alguma manipulação psicológica para violar os dados das vítimas, diz relatório da Verizon, gigante norte-americana, em parceria com a empresa brasileira Apura Cyber Intelligence.

Ameaças incluíram fotos com armamentos 

(Imagem: Reprodução/WhatsApp)

Senha da nuvem
Mesmo nos casos em que a pessoa entrega a senha do iCloud (a nuvem da Apple, serviço de armazenamento de dados que inclui senhas e informações como de cartões de crédito), o delegado Delmar Bitencourt diz que o ideal é que a vítima procure a delegacia, pois ainda assim será possível recuperar o celular e tomar as medidas cabíveis.

No caso de Wedson, os ladrões que fingiram ser da Apple queriam ter acesso aos dados pessoais dele para usar o iCloud. Exceto por alguns erros de pontuação e escrita meio fajuta, não era tão simples desconfiar de cara dos criminosos, já que para falar com Wedson eles utilizaram um DDI dos Estados Unidos (país de origem da Apple), usavam uma conta comercial do WhatsApp, tinham o IMEI do aparelho, apresentaram o endereço oficial da sede da empresa no status e incluíram um aviso de que o suporte estava sendo oferecido online por causa da pandemia. 

“[Os ladrões] entraram em contato comigo através de um perfil fake da Apple. Vieram com uma mensagem padrão: ‘Olá, prezado cliente’. Não sei como conseguiram o meu telefone”, diz Wedson.

Como no celular roubado havia uma foto com seu nome na tela de bloqueio, ele desconfia que os criminosos conseguiram seu número depois de buscá-lo nas redes sociais. O hipnoterapeuta supõe que os bandidos o encontraram pelo Instagram, já que lá ele disponibiliza seu contato para interessados em seus cursos.

Depois do roubo, Wedson Mendes pediu o bloqueio do IMEI — a Identificação Internacional de Equipamento Móvel, um número que faz com que os aparelhos sejam únicos, como uma impressão digital —, cadastrou o dispositivo no sistema Alerta Celular e registrou queixa na Delegacia Digital, plataformas da Secretaria de Segurança Pública da Bahia (SSP). 

“Até agora, não me deram retorno e amigos me disseram que são muito baixas as chances de recuperação do celular. Esse aparelho tinha minha vida inteira de trabalho, tive um prejuízo financeiro e emocional. Por segurança, tive depois que trocar todas as senhas. É um transtorno grande, mas pelo menos não fizeram nada comigo e o celular, eu volto a trabalhar para comprar outro”, diz.  

Cresce número de pessoas que tiveram dados violados 

Só no primeiro semestre de 2021, o número de pessoas que tiveram dados financeiros ou pessoais violados mais que dobrou em relação ao mesmo período em 2020, mostra o Ministério da Justiça e Segurança Pública. Foram mais de 47,4 mil queixas este ano, contra 21,3 mil no ano passado. O total de reclamações de 2020 foi de 44,7 mil, menor do que o registrado na primeira metade de 2021. 

“A melhor conduta aos cidadãos e usuários de todo e qualquer sistema operacional é ter, a cada dia, o máximo de cuidado na exposição de suas informações. Cuidado com os sites por onde navega e insere os seus dados. Estamos sendo monitorados o tempo inteiro nos ambientes digitais e a cada dia que passa fica mais difícil saber quem está do outro lado da tela”, alerta Ana Paula de Moraes, advogada especialista em Direito Digital. 

A professora Luzia Santtos, 28, tem todo esse cuidado, mas caiu no Golpe do Iphone. Quando teve o aparelho roubado, em Feira de Santana, tentou rastreá-lo pelo celular do sobrinho com a ajuda de um amigo policial. “Entreguei o aparelho do meu sobrinho para o policial e, quando chegou a mensagem, meu amigo me pediu minha senha do iCloud para preencher no site. Eu passei e ele [o golpista] imediatamente apagou a conta”, lamenta.  

Felizmente, Luzia não tinha nenhuma informação financeira salva no aplicativo. “Só perdi muitas fotos pessoais e coisas importantes do trabalho. Felizmente, não teve nenhum vazamento das imagens, pois acho que o objetivo deles era apagar o iCloud e tentar vender o aparelho como se fosse novo. Após ter passado a senha, eles não entraram mais em contato comigo”, diz.   

Já a engenheira química Karolyne Souza Costa, 27, relata ter recebido várias mensagens por SMS assim que recuperou o número e a conta do iCloud do aparelho roubado. “Quase caí, pois tinha acabado de ativar o modo perdido do iPhone quando recebi o primeiro SMS. Quando cliquei no link, abriu uma página igual à do iCloud, mas quando fui colocar a senha, parei e pensei que poderia ter algo estranho, pois a mensagem não parecia padrão da Apple”.  

Ela ligou para o suporte da empresa e eles confirmaram que era uma tentativa de golpe e a orientaram sobre como proceder.

“Não foi usada informação pessoal para fazer ameaças, graças a Deus. O pessoal da Apple me orientou por telefone a deixar o aparelho no ‘modo perdido’, pois assim eles não conseguiriam acessar os dados. Ainda tentaram por mais de um mês aplicar o golpe e, como já estava atenta, não acessava nenhum link enviado”, contou.

Primeiro, os bandidos entraram em contato com Karolyne por SMS (esq.) e depois por WhatsApp (dir.) 

O que dizem WhatsApp e Apple?

A Apple adverte que caso seus clientes receberam mensagem ou ligação de alguém se passando por funcionário da empresa, é provável que seja uma tentativa de golpe. De imediato, a companhia diz que não se deve clicar, abrir ou salvar links ou anexos não solicitados.

Se o cliente precisar de suporte da Apple, deve acessar o site oficial em português: https://www.support.apple.com/pt-br.

O WhatsApp, por sua vez, enfatiza que é sempre importante clicar no nome do contato ou número de telefone para visualizar o perfil da pessoa ou a conta que está falando com o usuário. 

Se o perfil for comercial, e pertencente a uma grande empresa, deverá ter um selinho oficial de verificação, em cor verde, que é quando o WhatsApp confirma que aquela é uma empresa relevante, autêntica e, de fato, dona da conta.

O selo aparece no topo direito da conversa com a empresa. O nome da corporação aparecerá sempre visível, mesmo se o usuário não a adicionou à agenda de contatos do seu celular.

Como proceder nesse tipo de crime?

1. Solicite o bloqueio do IMEI do aparelho celular roubado. Isso pode ser feito ligando, de outro aparelho, para a sua operadora de telefonia ou na delegacia;
2. Registre o boletim de ocorrência na delegacia mais próxima à sua residência;
3. Outra opção é utilizar a Delegacia Digital, onde é possível fazer o registro online do fato;
4. Salve todas as provas de golpe, como prints, por exemplo. Compareça a um tabelionato de notas e faça a lavratura de uma Ata Notarial para dar validade jurídica às provas salvas.
5. Registre o roubo ou furto no Alerta Celular, criado pela Secretaria de Segurança Pública da Bahia. A plataforma facilita a identificação e devolução de aparelhos celulares.

LISTA DE GOLPES NOTICIADOS SENDO APLICADOS NA BAHIA:

1. Bandidos imitam redes sociais da prefeitura de Salvador para aplicar golpes
2. Baiano cai em golpe ao tentar vender carro na internet e luta para não ser preso
3. Golpe do Pix causa dor de cabeça em baianos e preocupa autoridades
4. Golpe usa nome de secretaria do Governo para pedir dinheiro por cestas básicas
5. Casal capixaba é preso acusado de aplicar golpe do bilhete em idosa de Ilhéus
6. Prefeitos na mira dos bandidos: políticos do interior sofrem golpes na internet
7. Golpe do motoboy faz vítimas na Bahia; veja como reconhecer

*Colaborou Daniel Aloisio

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