Grupo Vila Galé tem 90 dias para fazer estudo sobre Palácio Rio Branco

salvador
03.09.2019, 05:00:00

Grupo Vila Galé tem 90 dias para fazer estudo sobre Palácio Rio Branco

Governo do estado autorizou estudo para construção de empreendimento hoteleiro na antiga sede do governo brasileiro

O Palácio Rio Branco, no Centro Histórico de Salvador, pode estar mais próximo de se tornar um hotel. O grupo hoteleiro português Vila Galé recebeu autorização do governo do estado para elaborar um projeto básico de estudo de viabilidade a fim de transformar o prédio de mais de 400 anos em um empreendimento hoteleiro. A autorização foi publicada no Diário Oficial do Estado (DOE) do último sábado (31).

A notícia de que o governo pretendia ceder o prédio para ser transformado em hotel foi antecipada pela coluna de Ronaldo Jacobina, do CORREIO, em abril deste ano. O secretário de Turismo do estado da Bahia, Fausto Franco, defende que a utilização de edificações históricas para abrigar empreendimentos é comum mundo afora.

“É um modelo do mundo todo e não podemos ficar de fora pelo potencial histórico e cultural da região da cidade. Adaptamos o modelo para nossa cidade”, afirma o secretário.

Caso o Palácio seja realmente cedido à iniciativa privada, a empresa - nesse caso, o grupo Vila Galé - deve recuperar e revitalizar o prédio, sem modificar a sua estrutura arquitetônica, ressalta Franco. De acordo com a publicação no DOE, ainda seriam construídos três novos prédios adjacentes ao atual.

Procurado, o grupo Vila Galé afirmou que não iria se pronunciar sobre o empreendimento. A autorização publicada no Diário Oficial estabelece que o grupo tem dez dias para firmar um Termo de Compromisso e, então, 90 dias para a conclusão do estudo, prazo que pode ser prorrogado por mais 30 dias.

A autorização não gera qualquer obrigação de ressarcimento de custos. No entanto, no caso de aprovação e seleção do projeto pelo governo, há o compromisso de que seja contemplada no edital da futura licitação e no contrato de concessão a obrigação do contratado em ressarcir os valores. 

Palácio Rio Branco, no Centro Histórico de Salvador, vai passar por estudos técnicos de grupo português
(Foto: Betto Jr./CORREIO)

Ainda de acordo com a publicação, o valor máximo para o ressarcimento dos estudos não deverá ultrapassar 4% do valor total estimado. “Os estudos apresentados poderão ser utilizados, total ou parcialmente, na elaboração de editais, contratos e demais documentos referentes à concessão, permissão, arrendamento ou concessão de direito real de uso”, diz trecho da autorização assinada por Fausto Franco.

Caso o projeto seja aprovado e a empresa contemplada, a rede hoteleira Vila Galé ampliará de três para quatro empreendimentos no estado – além das unidades de Ondina e Guarajuba (Litoral Norte), a rede prevê inaugurar em 2021 a Vila Galé Costa do Cacau.

Patrimônio histórico
A manutenção do patrimônio histórico é o que mais preocupa os historiadores e até mesmo o setor do turismo. O advogado Luiz Walter Coelho Filho, autor do livro ‘A Fortaleza do Salvador na Baía De Todos Os Santos’, aponta que os monumentos históricos são responsáveis pela construção da identidade cultural de uma localidade.

“É importante conseguir conservar dentro do espaço urbano as histórias dos diversos momentos da cidade. Assim, as pessoas podem ter um convívio e vivenciar os espaços. O contato com a história faz com que ela adquira mais valor”, explica.

Entretanto, Coelho Filho ressalta que as modificações e melhorias feitas em áreas históricas são positivas quando mantêm as características locais.

O secretário do Turismo do estado ressalta que o governo exige que a Galeria dos Governadores continue com acesso livre para a população. Os quartos deverão ser construídos onde hoje fica a sede da Secretaria da Cultura. “A Galeria dos Governadores deve ser restaurada e mantida aberta. Deve-se manter as características originais do prédio”, explica Franco.

Apesar da manutenção do espaço aberto, a possibilidade de se privar o acesso a parte do prédio histórico é contraditória. O historiador Jaime Nascimento afirma que outras áreas do Palácio também têm grande beleza e valor histórico. 

“Eu acho que é um equívoco fechar o espaço, tudo aquilo é público e diz respeito à história. Aquilo deve ser um órgão público com a possibilidade de visitar qualquer área do Palácio. Ele conta a história do Brasil desde a fundação, pertence à população”, afirma.

Sala dos Espelhos ou Salão Nobre: um dos locais mais apreciados pelos visitantes
(Foto: Arisson Marinho/Arquivo CORREIO)

Turismo
Para o turismo, a manutenção do patrimônio histórico também é necessária, aponta a presidente da Associação Brasileira das Agências de Viagens na Bahia (ABAV-BA), Angela Carvalho.

“O Palácio Rio Branco é um monumento, um prédio histórico. É necessário se atentar para como a utilização do prédio vai ser feita para não tirar o brilho do prédio”, afirmou Carvalho.

Para o presidente da Salvador Destination, Roberto Duran, a possibilidade de chegada de mais um hotel do grupo português em Salvador é benéfica.

“Seria uma expansão de uma rede de renome, que já tem outros empreendimentos na Europa com esse perfil de trabalhar em palácios e fortificações. É uma boa forma de se requalificar um prédio histórico para se manter sem os recursos dos cofres públicos”, disse Duran.

Bombardeios
O Palácio Rio Branco, como conhecemos atualmente, data de 1919, quando foi reinaugurado após ter sido atingido por balas de canhão. O local onde hoje está a edificação já serviu de residência para o primeiro governador geral do Brasil, o português Tomé de Souza.

Na época, Salvador era a sede do governo brasileiro e era do Palácio que saíam as decisões de governo, ainda sob controle português. A arquitetura, hoje, é suntuosa. Mas, o Palácio já foi chamado de Casa do Governador e chegou a ser um edifício  feito de taipa e barro. Só mais tarde, a estrutura foi substituída por alvenaria e cal.

Sala do Despacho é outro local aberto ao público dentro do Palácio Rio Branco
(Foto: Arisson Marinho/Arquivo CORREIO)

Com a transição da capital  para o Rio de Janeiro, em 1763, por determinação de D. José I, o Palácio passou a ser a sede da capitania da Bahia. Até o ano de 1979, o espaço acolheu a administração estadual. E foi justamente durante uma crise política no estado da Bahia que o Palácio foi destruído, junto com o prédio que abriga, hoje, a Câmara Municipal de Salvador, além da Biblioteca Pública, que ficava dentro do Rio Branco, de frente para o mar.

O historiador Jaime Nascimento, do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB), explica que, em 1912, os baianos não estavam satisfeitos com a gestão estadual e desejavam pressionar o governador. Para isso, os fortes de Santo Antônio, São Pedro e São Marcelo dispararam seus canhões no sentido do atual Centro Histórico. 
O edifício foi atingido e , destruído, só foi reinaugurado em  15 de novembro de 1919, com o nome atual, em homenagem ao Barão do Rio Branco.

Construído no estilo neoclássico e art nouveau, o prédio precisou ser reformado seis vezes. Além de ter sido bombardeado,  foi invadido, destruído pelo tempo e quase incendiado. Vários hóspedes ilustres passaram pelo Palácio Rio Branco. Reis, rainhas, príncipes, princesas e outros chefes de estado dormiram, almoçaram e se divertiram no Palácio Rio Branco. O primeiro  foi o próprio D. João VI, rei de Portugal, que se hospedou com parte da Família Real, em 1808. 

Em 1826, foi a vez do filho dele, o imperador D. Pedro I, a imperatriz Leopoldina e a princesa Maria da Glória, futura rainha de Portugal. Já em 1859, D. Pedro II e a imperatriz Tereza Cristina também se hospedaram no local. O último integrante da realeza que aproveitou do Palácio Rio Branco foi a rainha da Inglaterra Elizabeth II, em 1968.

Palácio tem vista para a Baía de Todos os Santos
(Foto: Arisson Marinho/Arquivo CORREIO)

Rede Vila Galé trabalha com prédios históricos
O Grupo Vila Galé tem experiência com hotéis em prédios históricos. Em Portugal, a rede inaugurou o Vila Galé Collection Elvas - Historic Hotel, Conference & Spa, em junho deste ano, em um antigo convento de São Paulo, na região de Alentejo.

O empreendimento é fruto do programa Revive, que visa recuperar imóveis com valor arquitetônico, histórico e cultural para criar equipamentos para o turismo.

O projeto serve de inspiração para a Bahia sobre como administrar os prédios históricos sob custódia do governo do estado. Em junho, o Estado assinou um protocolo de entendimento com a gestão portuguesa para que a nação coopere para ajudar na recuperação do patrimônio arquitetônico, histórico e cultural.

“O Vila Galé é uma rede grande que já tem dois hotéis na Bahia e vários em Portugal, que é um país muito importante no fluxo turístico para aqui”, disse o secretário de Turismo do estado, Fausto Franco.

O gestor disse ainda que responsáveis pelo projeto português virão para a Bahia para auxiliar na remodelação do Revive para a realidade baiana: “Estamos mapeando imóveis que podem ser incluídos numa primeira etapa, a fim de impulsionar a instalação de novos restaurantes, hotéis, cafeterias, lojas de artesanato e outros equipamentos que ativem o mercado turístico”, pontuou Franco.

Ele ressaltou ainda os benefícios do projeto na manutenção dos prédios históricos com auxílio do setor privado. “Mesmo concedendo à iniciativa privada a administração desses imóveis, esse mecanismo mantém a propriedade pública dos mesmos”, disse.

*Com supervisão da chefe de reportagem Perla Ribeiro


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