Guia para uma confraternização segura: como reduzir os riscos da ceia

entre
11.12.2021, 07:00:00
Em 2020, a família de dona Maria Villar (ao centro, de óculos) não pôde se reunir no Natal devido à covid-19. Este ano, ela vai viajar e ainda fará uma ceia antecipada (Foto: Acervo pessoal)

Guia para uma confraternização segura: como reduzir os riscos da ceia

Alto percentual de vacinação traz contexto confortável, mas surgimento da variante Ômicron inspira cautela

O Natal de 2020 foi difícil para a família da aposentada Maria José Villar, 84 anos. Justamente na manhã do dia 24 de dezembro, ela recebeu a notícia mais indesejada: o filho, a filha, o genro e o neto estavam com covid-19. O genro chegou a parar na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Ela própria, como teve a confirmação depois, também tinha sido infectada, com sintomas leves. Resultado: não havia como fazer qualquer celebração. 

Mas o Natal de 2021 deve ser diferente. Na próxima terça-feira (14), dona Maria José viaja para Boca Raton, na Flórida, para comemorar a data ao lado da filha, da neta e do genro que moram nos Estados Unidos há 20 anos. Antes disso, porém, neste domingo (12), vai se reunir para uma espécie de ceia antecipada com os filhos e netos que vão ficar aqui no Brasil. 

“No ano passado, cada um ficou em sua casa. Esse ano, como todo mundo está bem, eu vou viajar para ver minha filha, com quem só passei um Natal nesse tempo que ela mora fora e estou há dois anos sem vê-la por causa da pandemia”, explica ela, que deve ir sozinha e já tomou a terceira dose. Nos EUA, a filha e o genro também receberam a dose de reforço. “Vai ser um Natal para compensar o do ano passado. Vai ser reduzido, só eu e eles, mas vou matar as saudades”, conta. 

Já a ceia antecipada será só com a família mais próxima. Todos também estão vacinados com as doses disponíveis para cada um. Dona Maria José se sente mais segura, mas, ainda assim, diz que não deixa de tomar seus cuidados. “Continuo fazendo tudo, só ando de máscara e não vou em lugar com aglomeração”, acrescenta. 

A história de dona Maria José se repete, em certos aspectos, em muitos lares. Entre os baianos, são muitos os relatos de pessoas que, no ano passado, deixaram de se encontrar para celebrar algumas das principais datas festivas do calendário devido à covid-19. Naquele contexto, as vacinas ainda eram uma realidade distante: países como Reino Unido, Estados Unidos e Canadá já começavam o processo, mas o Brasil, que demorou a comprar os imunizantes, só deu início à vacinação em janeiro. 

Hoje, o contexto é outro. Com 80% da população acima de 12 anos vacinada em Salvador e 78% na Bahia, o cenário é apontado como mais confortável pela maioria dos especialistas. No entanto, o surgimento da variante Ômicron, considerada mais transmissiva e mais mutável, no mês passado, inspira cautela, assim como o alto número de faltosos para a segunda e a terceira doses da vacina. Só na capital, são 200 mil pessoas com a segunda dose atrasada, além de 120 mil que deveriam já ter tomado a terceira, mas ainda não fizeram isso. 

Por isso, é importante ser realista. “As pessoas já abriram mão disso no ano passado, deixaram de fazer, e praticamente tudo já voltou ao normal. Elas estão pegando ônibus, indo para o escritório. Então, pensam: ‘por que vou abrir mão do momento de lazer com a família?”, pondera o físico Vitor Mori, doutor em Engenharia Biomédica e pesquisador do Observatório Covid-19. 

“O que eu acho que a gente deveria fazer é comunicar com muita clareza que é uma decisão que deve ser tomada a partir dos riscos e benefícios. A partir disso, cada pessoa e cada família tomam a sua decisão”, orienta. 

Riscos 
Os benefícios de um Natal em família - ou qualquer outra confraternização - vão de cada um. Nenhum cientista é capaz de medir. É algo que deve ser analisado individualmente, por cada um. Já os riscos, por outro lado, devem ser alertados - e, a partir disso, é possível falar em formas de reduzi-los. 

“É muito difícil querer controlar as pessoas. Se a gente insiste muito na proibição, na restrição, chega um ponto que a população para de escutar a gente e dar valor às nossas sugestões. Por isso, a gente deve dar dicas do que fazer, se as pessoas decidirem fazer, e como reduzir os riscos”, analisa Mori. 

Para a médica imunologista Viviane Boaventura, pesquisadora da Fiocruz e Rede Covida, a queda nas taxas de infecção nos últimos meses é positiva para a flexibilização e o maior convívio social. Isso se deve justamente à alta taxa de vacinação e às medidas não farmacológicas, como o uso de máscaras e o distanciamento. Mesmo assim, a avaliação dela é de que é preciso lembrar que ninguém está livre da pandemia, já que o Sars-cov-2 continua circulando. 

“Podemos ver um recrudescimento caso não sejam mantidos os cuidados. A despeito do surgimento da Ômicron, a forma de prevenir-se da infecção continua a mesma: vacinação, distanciamento e uso de máscaras. Se respeitados esses princípios, os encontros poderão ser feitos com boa segurança”, diz. 

Como fazer
No ano passado, provavelmente você viu uma lista de orientações como a que verá a seguir. No entanto, ainda havia uma preocupação excessiva com superfícies. Hoje, como os cientistas já entendem que o coronavírus é principalmente um vírus de transmissão aérea, o foco maior deve ser em outros cuidados. 

“Sempre que possível, priorizar encontros em locais abertos. Se for optar por locais fechados, com pouca circulação de ar, faz-se necessário o uso de máscaras de boa qualidade e usada corretamente (cobrindo nariz e boca). O distanciamento é especialmente importante nos momentos de retirada das máscaras para alimentação”, completa Viviane. 

Uma das medidas mais importantes é garantir que todas as pessoas que vão participar do encontro estejam vacinadas contra a covid-19, com o esquema de vacinação completo.

“Quem estiver no prazo da terceira dose não deve deixar de tomar, porque isso vai conferir um grau de proteção maior não só para essa pessoa, mas também para as outras que estão nesse ambiente”, diz o imunologista, alergologista e pediatra Celso Sant’Anna, professor de Medicina da UniFTC e da Universidade Federal da Bahia (Ufba). 

Pesquisadores de todo o mundo, assim como as próprias farmacêuticas que produzem as vacinas, estão debruçados sobre a variante Ômicron agora: seria ela capaz de escapar às vacinas? O quanto ela pode ameaçar a segurança dessas confraternizações de fim de ano? Apesar dessa incerteza, Sant’Anna explica que é preciso tomar as vacinas. 

“Pelas características dessa variante, ela deve infectar algo nas respostas das vacinas, já que muitas delas bloqueiam o vírus a partir da proteína S.Vamos ter respostas nos próximos dias. Mas diante desse cenário, o que podemos fazer para minimizar os riscos?”, argumenta. Esta semana, a Pfizer anunciou que três doses do imunizante são capazes de neutralizar a Ômicron, enquanto duas previnem as formas graves. 

Já há um aumento nos casos ativos de covid-19 no estado, nos últimos dias: se há um mês, os casos novos diários ficavam na casa dos 300, hoje já chegam a 600, segundo dados compilados pela Secretaria da Saúde do Estado (Sesab). Ainda assim, nos piores momentos da segunda onda, a Bahia chegou a ter mais de 20 mil casos ativos da doença contra os cerca de três mil ativos atualmente. 

Por isso, o pneumologista e intensivista Octávio Messeder, chefe do setor de Pneumologia e da UTI Geral do Hospital Português e professor da Ufba, reforça que é preciso se guiar pelas informações disponíveis - a exemplo do fato de que a maioria das pessoas que está sendo internada, neste momento, são as que não foram vacinadas. 

"Está claro que os protocolos podem ser seguidos para a proteção das pessoas", diz, citando exigências de vacinação, de exames negativos e uso de máscaras. "Sabe-se que esse protocolo funciona e um exemplo disso são as viagens aéreas internacionais. Elas são extremamente organizadas porque exigem tudo isso, então existe como você se precaver. Vacina e protocolos orientados pela ciência funcionam", enfatiza. 


Os passos para reduzir os riscos nas festas de fim de ano

1. Todos os participantes devem estar vacinados 

Para todos os cientistas ouvidos pela reportagem, esse é o primeiro cuidado que deve ser observado: estar com o esquema vacinal completo. Isso inclui pelo menos as duas doses iniciais, mas também o reforço da terceira dose para aqueles que estão elegíveis. 

Segundo a imunologista Viviane Boaventura, essa medida é importante porque, para todas as vacinas contra a covid-19, a capacidade protetora vai caindo ao longo dos meses depois da imunização. Ter o esquema em dia ajuda a reduzir as chances de contaminação, do desenvolvimento de formas graves da doença e a própria transmissão do vírus. 

“Para os idosos, essa queda na proteção foi mais evidente e acreditamos que seja resultado da combinação do envelhecimento do sistema imunológico e do tempo longo desde a última dose. Com a terceira dose, há um aumento desse nível de proteção e portanto redução do risco de hospitalização ou óbito”, diz Viviane. 

Se houver alguém no grupo que não se vacinou, a recomendação é chamar a pessoa para conversar, como recomenda o pesquisador Vitor Mori, do Observatório Covid-19. “A gente deve tentar entender os motivos para ela não ter se vacinado, mas buscar convencer essa pessoa explicando os benefícios da vacinação”, afirma. 

A vacinação só é considerada completa com duas doses do imunizante, além da dose de reforço após cinco meses. Hoje, mesmo a vacina da Janssen, que era considerada dose única até o mês passado, requer a aplicação de uma segunda dose após dois meses. 

2. Promover os encontros em ambientes abertos e ventilados 

Este é outro ponto chave para tornar as confraternizações menos arriscadas. A ventilação dos ambientes abertos reduz as chances de o vírus ser transmitido, algo que aumenta muito em ambientes fechados.”Na medida do possível, devemos evitar essas aglomerações em ambientes fechados, porque elas são extremamente perigosas”, alerta o imunologista e pediatra Celso Sant’Anna, professor de Medicina da UniFTC e da Ufba.  

Só para dar uma ideia, o caso de um possível surto da variante Ômicron em uma festa de Natal numa empresa em Oslo, na Noruega, no fim de novembro, assustou especialistas de todo o mundo. Entre 100 e 120 pessoas se reuniram em uma festa de fim de ano de uma empresa de energia solar em um restaurante. 

Para participar, todas estavam com duas doses da vacina e haviam sido testadas para a covid-19 antes do evento. No entanto, até a semana passada, 60 pessoas tinham sido infectadas pelo Sars-cov-2. Desse total, ao menos 17 casos eram suspeitos da nova variante Ômicron. Um dos participantes da festa tinha voltado de uma viagem no Sul do continente africano. 

“Em síntese, em função desse cenário novo, a gente não pode baixar a guarda. Tem que continuar vigilante em relação a esse vírus terrível e traiçoeiro. Eu recomendaria, inclusive, que se fizessem festas menores. Quem puder se isolar até o período dessas festas seria uma boa medida. Evitar sair e ficar se expondo, porque ainda temos mais 15 dias até essas reuniões (de Natal e Ano Novo)”, completa Sant’Anna. 

3. Não dispensar a máscara 

Mesmo em reuniões de família, por mais difícil que seja, a máscara continua sendo uma ferramenta importante de proteção. Se o encontro não for ao ar livre e acontecer em um ambiente interno - ou, em algum momento, for necessário ficar em um ambiente interno - é interessante que ela seja usada. 

“Isso é importante até para proteger as pessoas mais vulneráveis, que são as pessoas mais idosas ou as crianças, que ainda não estão vacinadas. Essa máscara, de preferência, deve ser a PFF2”, recomenda o físico Vitor Mori. 

As máscaras PFF2 - que também ficaram conhecidas como N95, embora essa seja a nomenclatura utilizada nos Estados Unidos - são as que conferem o maior grau de proteção, inclusive individual, devido à alta capacidade de filtragem de partículas. 

Desde o ano passado, diferentes estudos de grandes universidades e centros de pesquisa ao redor do mundo têm comprovado a eficácia das máscaras do tipo PFF2, especialmente quando estão bem vedadas ao rosto. Um dos mais famosos, da Universidade de Duke, nos Estados Unidos, analisou 14 máscaras diferentes e identificou que a do tipo PFF2 era a mais eficiente. 

Logo após as máscaras PFF2/N95, vêm as máscaras cirúrgicas, que também têm boa capacidade de filtração, mas precisam ser trocadas em um intervalo de tempo menor - em até duas horas. As PFF2 podem ser utilizadas ao longo de todo o dia e até ser ser reutilizadas, se a pessoa fizer um esquema de rodízio em que os respiradores ficam pelo menos três dias ‘descansando’. Elas não precisam ser lavadas, apenas colocadas em um local arejado e protegido do sol. 

“É uma proteção muito boa. Se você usar essa máscara corretamente, tem um risco quase nulo de pegar covid-19. Se você não usa máscara, suas chances de contaminação são de 90% em um ambiente com possibilidade de covid-19”, ressalta o pneumologista e intensivista Octávio Messeder, chefe do setor de pneumologia e da UTI Geral do Hospital Português. 

No entanto, ele alerta que mesmo esses protocolos não se adaptam a todo tipo de celebração. “Não vejo como se pode pensar em aglomerações de grande porte no curso da covid-19. Isso inclui Carnaval, mas também festas de Réveillon públicas. O Carnaval da Bahia, por exemplo, é totalmente incompatível com essa situação de pandemia. São aglomerações impossíveis de serem colocadas em protocolos”, reforça. 

4. Que tal testar antes do encontro? 

Se houver possibilidade, outra medida recomendada é que a família ou os participantes do encontro avaliem a realização de um teste de covid-19. Esse teste pode ser tanto um RT-PCR, considerado o melhor, quanto um de antígeno. 

"Uma pessoa que vai fazer uma festa dessa, em um momento de incerteza, deveria fazer o teste. De preferência, o RT-PCR", diz o imunologista e pediatra Celso Sant'Anna. "Nunca é excessivo proteger a nossa vida e a vida de outras pessoas", acrescenta. 

O problema é que nem sempre o PCR sai a tempo ou é acessível para todas as pessoas. Em Salvador, existem laboratórios em que o resultado do PCR é liberado em duas horas. No entanto, são particulares e chegam a custar até o dobro dos que são divulgados em até 48 horas (custam entre R$ 250 e R$ 300). 

Por isso, o teste de antígeno, que costuma custar entre R$ 80 e R$ 100 em farmácias, aparece como uma alternativa viável. Ele tem uma precisão comparada ao PCR, mas pode ter menos sensibilidade dependendo do dia em que é feito. O resultado sai em minutos.

“Se a pessoa tiver acesso ao PCR rápido, melhor. Mas se demorar, é complicado. Por isso, pode fazer um teste de antígeno logo na manhã do dia 24 ou dia 25 ou no dia 31”, orienta Vitor Mori. 

Essa vem sendo uma estratégia adotada como política pública em países da Europa, como o Reino Unido, que distribuem gratuitamente esses testes para que sejam feitos em casa. “No Brasil, esses testes nem estão aprovados para fazer em casa e você tem que obrigatoriamente ir à farmácia, mas pode ser que ela esteja fechada no dia 24, por exemplo, ou você pode acabar se expondo, com tanta gente fazendo teste. Seria importante a aprovação desses testes”, opina.

No entanto, a imunologista Viviane Boaventura recomenda encarar a situação com cuidado, pois, em certos casos, os testes podem passar uma falsa sensação de segurança que leva as pessoas a abandonar medidas preventivas. 

“Uma pessoa recém-contaminada pode demorar dias até que se tenha o vírus detectável no exame. Isso significa que ela pode testar negativo no momento do exame e em um ou dois dias positivar. Para ter maior segurança seria necessário que o exame fosse feito no mesmo dia do evento, ou múltiplas vezes durante o período de festas, e termos testes acessíveis para todos, o que não é uma realidade no Brasil”, pondera.

5. Cuidado com as viagens

Nessa época do ano, é comum que pessoas que moram em cidades diferentes da família façam viagens para passar as datas festivas em casa. Mas o risco, nesses casos, pode ser ainda maior. Envolve a possibilidade até de levar o vírus novamente para um ambiente em que ele pode estar mais controlado. 

Por isso, existem recomendações específicas para os meios de transporte públicos que são fechados, a exemplo de ônibus com ar-condicionado e aviões, como destaca a imunologista Viviane Boaventura.

“É importante usar máscaras de boa qualidade, como as cirúrgicas e as N95 (PFF2), e evitar retirar a máscara enquanto estiver no ambiente”, orienta.

No caso das viagens internacionais, a maioria dos países que permitem a entrada de brasileiros tem feito exigências como a comprovação da vacinação e um teste negativo de covid-19 feito até 24 horas antes do embarque (pode chegar a 72 horas, em algumas localidades). 

Isso já tem sido feito pelas companhias aéreas, como lembra o pneumologista e intensivista Octávio Messeder, do Hospital Português. “Nas viagens nacionais, não se pede a vacina nem um teste negativo, mas as pessoas devem usar a máscara durante todo o tempo de voo. A máscara bem colocada e as mãos bem lavadas continuam sendo nossa principal defesa, ao lado da vacina, que é a maior delas”, diz. 

***

Em tempos de desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informações nas quais você pode confiar. E para isso precisamos de uma equipe de colaboradores e jornalistas apurando os fatos e se dedicando a entregar conteúdo de qualidade e feito na Bahia. Já pensou que você além de se manter informado com conteúdo confiável, ainda pode apoiar o que é produzido pelo jornalismo profissional baiano? E melhor, custa muito pouco. Assine o jornal.


Relacionadas