Humilhação, machismo e assédio no Ifba: 'Descartei Engenharia por causa do ambiente'

bahia
09.07.2021, 05:30:00
Atualizado: 09.07.2021, 06:25:56
Professor do campus de Barreiras é acusado de assédio sexual e moral contra alunas do instituto (Divulgação)

Humilhação, machismo e assédio no Ifba: 'Descartei Engenharia por causa do ambiente'

Alunas relatam rotina desgastante; professor do instituto foi alvo de operação da PF

Alunas e ex-alunas do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (Ifba) denunciaram e cobram respostas para os casos de assédio que acontecem na instituição. O CORREIO identificou denúncias feitas contra ao menos seis professores, relatando humilhação, assédio e machismo. De acordo com o Ifba, há 21 denúncias registradas de 2015 até o momento atual, em 11 dos 22 campi, com professores diferentes e cursos diferentes. Perfis no Twitter foram criados para expor os casos. As denúncias vieram a público após a Polícia Federal cumprir nesta quinta-feira (8) um mandado de busca contra um dos professores acusados. Os policiais apreenderam o celular do alvo após terem encontrado indícios de materialidade dos crimes. O nome do acusado não foi divulgado. 

Segundo a PF e o próprio Ifba, o alvo é funcionário do campus de Barreiras e o mandado teria sido lançado após o acusado supostamente ameaçar três servidoras do Ifba que acolheram uma denúncia de assédio sexual e moral iniciada por uma aluna contra ele. Após a denúncia, o instituto abriu um processo administrativo interdisciplinar, que ainda está em curso, para análise do caso. O Ifba ainda informou que o professor está atualmente afastado por questões médicas e que irá avaliar quais consequências serão tomadas. O Ifba, a Polícia Federal e o MPF afirmaram que não poderiam revelar informações sobre o professor alvo do mandado de buscas desta quinta-feira porque o caso corre em segredo de justiça.  

Uma ex-aluna do Campus Barreiras, que preferiu não ter a identidade revelada, concedeu entrevista ao CORREIO. Ela estudou no Ifba de 2015 a 2018 e contou o que os assédios que presenciou de um dos professores de Física.

“Ele conseguia o número das alunas e mandava mensagem, ficava comentando sobre pornografia na sala de aula; eram comentários nojentos sobre as preferências dele. Além disso, ele ficava no estacionamento tirando foto de alunas durante a aula de educação física”, afirma. 

A estudante também expôs que o professor usava critérios diferentes para avaliar estudantes homens e mulheres. “Ele falou uma vez sobre como as meninas tinham nota mais baixa porque biologicamente a mulher é menos capaz de aprender exatas. E foi assim que ele justificou diversas notas baixas de excelentes alunas da minha turma. Isso tudo me fez ter um bloqueio com a matéria que ele ministrava, e é algo que eu amo muito e mesmo assim ele conseguiu tirar todo o prazer que eu tinha com as aulas. Pensei em desistir da carreira que eu sempre quis porque as aulas dele quase me fizeram acreditar que eu realmente não conseguiria e que era burra”, acrescenta. 

Como já colocado pela instituição, os casos não são restritos a um único campus. Uma outra ex-aluna, do campus de Salvador, também contou ao CORREIO os casos de assédio que sofreu e presenciou. Ela estudou na instituição de 2014 a 2018, no curso de Eletrônica e diz que os assédios que sofreu foram praticados por dois professores. 

“Os horários de aula nunca eram suficientes para desenvolver os projetos das disciplinas e tirar dúvidas, então o colégio disponibilizava horários de atendimento individual, que era onde alguns aproveitavam para jogar indiretas, fazer elogios e insinuar possibilidade de chamar para sair ou coisa do tipo. Já aconteceu comigo diversas vezes. Já insinuaram coisas de cunho sexual para mim nesses atendimentos e até na frente da sala toda mesmo. É horrível porque é um homem em uma posição superior que tá dando em cima e eu me sentia muito sem graça”, conta.

A aluna explica que não eram casos pontuais e as ocorrências eram, inclusive, de conhecimento de muitos alunos e funcionários.

“Desde que entrei sempre ouvi histórias de professores e alunas que se envolviam. Alguns professores eram casados com ex-alunas e contavam que o relacionamento tinha começado dentro do Ifba. Além disso, tinha uma cultura machista no ensino de que aquelas profissões voltadas para engenharia não é de interesse das meninas, então sempre existiam piadinhas tipo ‘se você for bonita o professor te aprova’, ‘fulana tá muito interessada na matéria, deve tá querendo ficar com professor’, ‘essa nota alta deve ser resultado de outros esforços’”, revela.   

Ela ainda ressalta que teve seus estudos e seu psicológico comprometidos por conta dos casos. “Eu deixei de ir para esses atendimentos particulares. Lembro que meu professor de Sociologia fez uma pesquisa para saber as motivações que nos fizeram escolher o curso da faculdade e eu logo pensei que descartei engenheira por causa de tudo isso que vivi no Ifba”, desabafa.

A aluna diz que alguns casos foram denunciados e alguns professores chegaram a ser afastados, mas logo retornaram à instituição. “Um tempo e depois eles voltavam como se nada tivesse acontecido. A grande maioria era professor técnico e com muitos anos dentro da instituição. A gente ouvia dos funcionários comentários como ‘ai ele é velho, é assim mesmo, fica emocionado atrás de novinha’ e nunca vi medida efetiva sendo tomada, sempre ficou muito na palavra da aluna contra a do professor que é amigo de quem recebeu a denúncia”, finaliza.  

Ifba exposto na internet

Ao menos dois perfis criados no Twitter para denunciar casos de assédio sexual ocorridos na instituição foram localizados pelo CORREIO. Um deles, o @ifba_relatos, expõe denúncias do campus de Barreiras e foi criado em junho de 2020 por um aluno e uma aluna. Os relatos são recebidos por mensagem direta e divulgados na página preservando a identidade das alunas.

Um deles conta o assédio cometido por um professor de História. “Uma vez ele chegou na sala de aula e tinham poucos alunos (uns 10 e só uns 2 meninos). Eu estava com minhas amigas na sala. Aí ele decidiu que como tinham poucas pessoas, ele iria ficar batendo um papo com a gente. Até aí ‘tudo bem’ né, ele pegou uma cadeira e sentou perto da gente, mais precisamente na minha frente. E ao longo da conversa ele ficava colocando a mão na minha coxa. E teve uma vez que ele colocou e simplesmente ficou com a mão lá, com o jeito ‘espontâneo’ dele (dando a entender que era uma daquelas situações em que a pessoa fala tocando). Me senti muito desconfortável, minhas amigas perceberam, porém eu simplesmente não sabia o que fazer. Me sinto mal por não ter feito nada na hora e nem ter agido, mas eu só não sabia o que fazer”, releva. 

Um dos depoimentos, também sobre um professor de Física, conta que o acusado abordou uma aluna através do Instagram para pedir os chamados ‘nudes’.

“Um professor de Física me mandou mensagem pelo insta perguntando se eu poderia enviar fotos/vídeos íntimos meus pra ele”, diz a aluna.  

Outra menina traz um caso em que um professor de Física também utilizou as redes sociais para assediar uma aluna. “Ele mostrou na sala de aula os prints das conversas onde ele respondia os stories da menina repetidas vezes até ser bloqueado. Estava claro que a menina nunca deu intimidade para ele, mas ele contava como se aquilo fosse tudo normal, ainda consigo lembrar dele dizendo ‘ela vai se arrepender disso, eu a tratava super bem e ela estava com as notas baixas, quis usar isso para melhorar a sua situação, a turma toda vai pagar, eu não vou ajudá-los mais em nada, vão ter que se virar para passar de ano’. Alguns professores já chamavam mesmo as meninas para sair e elas ficavam enrolando eles, com medo de ganhar nota baixa e serem reprovadas caso recusassem”.

Um dos relatos traz o assédio cometido por um professor de Informática. “Ele sempre me abraçava do nada mesmo sabendo que eu odiava. Nunca fui com a cara dele e por isso não dava nenhuma liberdade. Um dia eu tava no bebedouro com minhas amigas e ele veio por trás de mim e apertou meus peitos, eu fiquei paralisada naquele momento não sabia nem como reagir, só conseguia sentir nojo”, revela. 

Outra página, criada em março de 2021, cobra soluções da instituição para os diversos casos de assédio. No @ExposedIfba, o administrador publicou: “O Ifba é uma instituição secular, mas parece que quando se trata de assédio, esses 111 anos não serviram de nada. Como pode essa instituição manter assediadores de alunas, servidoras e professoras em seus cargos? Esses professores continuam em seus cargos, recebendo prestígio e, para piorar, fazendo mais vítimas! Alunas recebendo aula de seus assediadores; professoras e servidoras tendo que conviver com seus assediadores em seu local de trabalho. Até quando isso vai durar? As denúncias estão sempre sendo ‘'apuradas'’, mas não dão em nada!”, diz a postagem.
 
O que diz o Ifba?

A reitora da instituição, Luzia Mota, que assumiu o cargo em janeiro de 2020 e é a segunda mulher na posição, disse, em entrevista ao CORREIO, que vem adotando, desde o início de sua gestão, políticas de combate ao assédio estrutural presente no Ifba “como um reflexo da sociedade em que vivemos”. A assessoria do Ifba informou que, das 21 denúncias registradas, 10 estão em andamento, uma foi anexada à outra e 10 já foram julgadas. A instituição não informou se os professores envolvidos foram punidos. 

“Quando eu assumi, uma das minhas primeiras ações foi solicitar que a Correição, que é o órgão que cuida dos processos administrativos, fizesse um levantamento desses casos de assédio sexual. Era uma pauta que veio do período de campanha eleitoral e eu venho de uma militância dentro do feminismo. A Correição fez um relatório e identificou as denúncias, mas sabemos que há muita subnotificação, não é toda menina que se sente segura para denunciar. Essa ação da PF, inclusive, pode mostrar que elas podem denunciar e que algo vai ser feito”, diz a reitora. 

Sobre as reclamações das estudantes sobre a impunidade dos professores, Luzia responde: “A gente entende o lado das estudantes de reclamar que a denúncia não dá em nada, mas eu queria explicar que esses processos são longos. Mas nós nunca tivemos aqui na instituição o enfrentamento do problema de forma transparente e com ações sistemáticas, apenas a abertura do processo. Desde que eu assumi, eu tenho a decisão de tentar resolver a questão do assédio de forma mais estruturante, ou seja, através de uma política de combate e enfrentamento ao crime”, explica.

A reitora acrescenta ainda que reconhece o forte movimento de cobrança que parte dos estudantes e que a instituição está fazendo o possível para dar uma resposta ao corpo discente e à sociedade. “Nós temos uma campanha em curso contra o assédio, os processos que estavam parados foram retomados e estamos ouvindo as estudantes. A ação de hoje da Polícia Federal mostra que, quando nós começamos a fazer o enfrentamento, as coisas começam a aparecer. Nós não gostaríamos de ser lembrados pelos casos de assédio sexual, mas é preciso enfrentar o problema de frente. Quanto mais formos na direção do problema, mais casos vão ser denunciados. Isso corta na nossa própria carne, mas é necessário, não dá para fugir dessa situação e colocar para debaixo do tapete”, ressalta. 

Luzia também explica o caminho que alunas vítimas de assédio podem seguir para denunciar os casos. “Elas podem procurar os setores multidisciplinares do campus, compostos por pedagogos, psicólogos e assistentes sociais, e outros. A denúncia vai ser acolhida por esses profissionais e encaminhada para a ouvidoria do Ifba. Será feita uma triagem e encaminhamento para a Correição. Quando a investigação é finalizada dentro da instituição, tendo punição do acusado, nós encaminhamos para o Ministério Público e para a Polícia Federal, se for identificado um possível crime. Aí, o funcionário pode então sofrer punição e ser afastado”, finaliza a reitora. 

Em uma publicação feita no site da instituição em abril deste ano, o Ifba informa as providências que estão sendo tomadas para o combate ao assédio nos seus 22 campi totais. Uma delas é a aprovação, em março, da criação de uma Comissão multicampi e multidisciplinar que vai elaborar a Política de Combate ao Assédio Sexual do Ifba. 

Além disso, a instituição conta com o auxílio do Ministério Público para implementar as ações. A publicação afirma que o Ifba formou uma comissão para elaborar uma Política de Prevenção e Combate ao Assédio Sexual, que definirá as ações a serem implementadas nos diversos campi. Um material também foi criado para tratar do assédio sexual no ambiente institucional. 

O que é assédio sexual e como é possível denunciar?

Assédio sexual é um crime previsto no Código Penal: “Art. 216-A. Constranger alguém com o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se o agente da sua condição de superior hierárquico ou ascendência inerentes ao exercício de emprego, cargo ou função”. Para caracterizar o crime de assédio sexual, o constrangimento pode ser realizado verbalmente, por escrito ou gestos. A pena é de detenção de um a dois anos.

De acordo com uma cartilha do Senado Federal, o  assédio  moral  “consiste  na  repetição  deliberada  de  gestos, palavras  (orais ou  escritas)  e/ou  comportamentos  de  natureza  psicológica,  os  quais  expõem  o(a) servidor(a), o(a)  empregado(a)  ou  o(a)  estagiário(a)  (ou grupo  de servidores(as)  e empregados(as)  a situações humilhantes e constrangedoras,  capazes  de lhes  causar ofensa à personalidade,  à dignidade  ou  à integridade  psíquica ou física, com  o objetivo  de excluí-los(as)  das suas funções ou de deteriorar  o ambiente  de trabalho”.  

Ainda  que frequentemente  a prática do  assédio moral ocorra no local de trabalho, é possível que  se verifique em outros ambientes, também sendo possível na relação entre professores e alunos. 
 
As vítimas devem procurar a delegacia mais próxima e registrar uma denúncia. Nos casos de assédio sexual, se a vítima for mulher, a denúncia ainda pode ser feira na Delegacia da Mulher. Se, eventualmente, a vítima for homem, a ocorrência deve ser registrada na delegacia comum. O FalaBR pode ser utilizado para o envio de denúncias de assédio sexual e moral. A plataforma é acessível por meio do endereço http://falabr.cgu.gov.br.

Antes de fazer uma denúncia, é importante que o denunciante tente obter comprovação do assédio contra si (mensagens, vídeos, gravações etc.), pois as provas trazidas contribuirão e facilitarão a apuração da conduta irregular, trazendo materialidade e autoria à denúncia. Caso o assédio ocorra na presença de outras pessoas, também é importante registrar datas e testemunhas do assédio, para que estas, porventura, sejam ouvidas no âmbito da apuração. 

*Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro
 

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