Insegurança até em casa: Salvador tem sete casos de crimes com refém em um mês

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29.09.2021, 05:00:00
(Alberto Maraux/ SPP )

Insegurança até em casa: Salvador tem sete casos de crimes com refém em um mês

Relembre os casos recentes que assustaram soteropolitanos

A invasão por homens armados, nesta terça-feira (28), em uma casa no bairro de Engomadeira, em Salvador, com pelo menos sete pessoas reféns, reiterou  uma tática que vem sendo empregada com frequência pelos bandidos durante as ações de enfrentamento da Polícia Militar.  Criminosos descobriram que fazer reféns é a moeda de troca para saírem vivos durante as perseguições policiais nas comunidades de Salvador.  

Somente em 28 dias deste ano, o Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) foi acionado para sete situações em que havia a necessidade de uma negociação para libertar moradores que estavam em poder de homens armados. Ontem, a PM realizava ações de combate ao tráfico no bairro de Engomadeira, quando uma guarnição da 23ª CIPM foi recebida a tiros por um grupo de homens armados. Após perseguição, duas casas foram invadidas. Os reféns foram liberados após cerca de 1h30 de negociação. 

O Bope é uma unidade da PM que atua em ocorrências de alta complexidade e foi acionado nas ocorrências.  “Isso vem acontecendo em virtude do próprio trabalho da PM.  Em todos os casos, os bandidos tiveram suas ações frustradas pela polícia. Eles querem sair com vida, não querem embate com a PM. Então, adentram nas residências. Usam dessa tática para saírem com vida, já que não querem o confronto. Neste último caso mesmo, foram sete criminosos, dois numa residência e o restante em outra. Tudo indica que estavam juntos e, quando a polícia chegou, fugiram do local e invadiram as casas”, declarou o comandante do Bope, major Cledson Souza, ciotando como exemplo o episódio ocorrido no bairro de Cidade Nova no último sábado (25).  

O major Cledson  ressaltou  que o objetivo do gerenciamento de crise é salvar vidas. “Queremos garantir a vida das vítimas, dos policiais e também dos criminosos. Que todo saiam ilesos”, disse.   

Em nota, A  Secretaria da Segurança Pública (SSP) ressaltou a "atuação eficiente de unidades da Polícia Militar, com destaque para o Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), nos casos de cárcere privado ocorridos nos últimos dias, na capital baiana".  "Em todas as ocorrências, as vítimas saíram ilesas, sem ferimentos graves. A SSP destaca o empenho e treinamento das tropas, para sempre servir com excelência aos baianos", diz a SSP. 

Facilidade

O comandante do Bope disse ainda que, numa avaliação preliminar, houve mais ocorrências de moradores feitos reféns até agora neste ano, do que o ano passado. “Levando em consideração a quantidade das ações, este ano tivemos mais casos. Em algumas situações em que fomos acionados, mas não chegamos a deslocar porque a companhia da área já tinha contornado toda a situação. Isso nos mostra também que houve uma intensificação da presença da PM nos bairros e, como sequência, os bandidos tiveram suas ações frustradas”, disse ele. A reportagem solicitou à PM dados sobre essas ações, mas até o momento não houve resposta.  

De acordo com o comandante, algumas comunidades são obrigadas a facilitarem o acesso dos traficantes aos imóveis.  “Moradores relataram que existe uma ordem porte das lideranças do tráfico para deixarem as portas das casas abertas para que eles possam entrar no caso de uma perseguição com policial”, contou. Essa situação não de agora. Em maio de 2019, o CORREIO mostrou que uma família que foi feita refém no Complexo do Nordeste de Amarlina havia cumprido a determinação dos integrantes do Comando da Paz (CP), hoje Comando Vermelho (CV).  Foram duas horas de negociação para os cinco criminosos libertarem as vítimas e se entregarem. 

Um outro ponto citado pelo comandante do Bope é que em alguns casos há uma relação próxima entre os bandidos e os reféns. “A gente observa também que os criminosos têm algum conhecimento do morador. As vítimas seriam parentes ou pessoas que já os conheciam, como vizinhos ou alguém que os viram crescer declinando para o mundo do crime”, declarou major Cledson. 

Ações de enfrentamento

Especialista em segurança pública, o professor Antônio Jorge Melo afirma que o posicionamento da Polícia Militar apontando que a intensificação das ações de enfrentamento fiez os bandidos adotarem essa tática de atacar moradores faz sentido e a PM fica em uma situação difícil.

Segundo Melo, houve uma intensificação nas ações de combate após o crescimento da guerra por território protagonizada por facções como o Primeiro Comando da Capital e Comando Vermelho e por isso a Secretaria de Segurança Pública precisou se fazer presente para tentar coibir os recorrentes tiroteios que aconteciam por toda a cidade. Com a chegada da polícia, os bandidos, já mobilizados, fazem pessoas de refém para não serem mortas em eventuais confrontos.

"Há uma espécie de efeito dominó: isso é divulgado na mídia, as pessoas tomam conhecimento e outros vão para a mesma estratégia para que eles não sejam vitimizados por parte da polícia. É o que chamamos tradicionalmente de uma sinuca de bico. Se você intensifica as ações, corre-se o risco de ver esses casos repetidos. Se diminui a presença, pode haver o recrudecimento dos confrontos entre essas gangues rivais", disse o professor.

Ele não enxerga uma saída fácil para essa sinuca de bico. A sugestão do especialista é um maior investimento em ações de patrulhamento, além de investigação e muita inteligência para conseguir desarticular e desmobilizar facções criminosas e seus líderes.


Casos registrados durante os 28 dias em Salvador 


25.09
Um homem foi feito de refém por dois criminosos que fugiam da polícia. A vítima, que tem deficiência física e usa uma cadeira de rodas, ficou na mira dos bandidos enquanto a polícia negociava. Outros cinco homens invadiram outra casa e fizeram mais reféns. O sequestro aconteceu no bairro da Cidade Nova e terminou sem feridos. Policiais militares faziam uma operação de combate ao tráfico de drogas na região quando os sete criminosos fugiram. Eles foram perseguidos, invadiram duas casas na comunidade do Forno e fizeram os moradores de reféns.

23.09
Dois homens armados invadiram um imóvel na Rua Padre Eloy, e fizeram uma idosa de 65 anos refém no bairro de Brotas. O caso acontece na 12ª Travessa Sérgio Francis, na região do Vale do Ogunjá.  Segundo informações da Polícia Militar, uma equipe do Bope conseguiu conduzir as negociações e os bandidos libertaram a refém. Eles foram detidos em seguida.

17.09
Uma família foi feita refém por dois assaltantes no bairro de Boa Vista do Lobato. Suspeitos invadiram uma casa ao tentar fugir da polícia depois de realizarem um assalto a um supermercado. Os suspeitos foram perseguidos e, para se esconderem dos policiais militares, invadiram uma casa e fizeram três moradores reféns, dentre eles duas mulheres e uma criança. A polícia cercou a casa e manteve negociação com os dois suspeitos.

12/09
Dois suspeitos de participar da morte de um tenente da Rondesp no bairro de Cosme de Farias foram presos. Um deles invadiu uma festa e fez uma família refém na região do Alto do Cruzeiro e foi preso após negociação da polícia.  

25.08
Uma família foi mantida refém por uma quadrilha na localidade da Divinéia no IAPI. Após negociações com equipes especializadas da Polícia Militar, a família foi libertada. De acordo com a Secretaria de Segurança Pública, a ocorrência foi iniciada quando guarnições do Pelotão de Emprego Tático Operacional (Peto) da 37a CIPM (Liberdade) flagraram um grupo armado.  Na tentativa de prisão os criminosos invadiram uma residência. 
 

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