Irmão de morto por idoso no Dois de Julho lamenta impunidade: 'Filho sente falta de ar'

salvador
22.09.2021, 05:00:00
(Arisson Marinho/ CORREIO)

Irmão de morto por idoso no Dois de Julho lamenta impunidade: 'Filho sente falta de ar'

Welton foi morto há um mês e deixou dois filhos, que têm traumas; mãe também está inconformada

Há 15 dias o eletrotécnico Weiden Lopes Costa, 35 anos, fez um macarrão com camarão. Na hora, uma lembrança veio à tona. “Welton vai querer. É prato preferido dele”, disse ele, em voz alta, enquanto separava um pouco para o irmão. Mas foi somente ao chegar em frente à casa, ainda segurando a quentinha, que ele se deu conta de que por alguns instantes sua memória havia deletado a tragédia.“A porta estava fechada e só havia escuridão. Foi aí que a ficha caiu”, declarou Weiden, emocionado ao falar sobre o assassinato do comerciante Welton, 34, no bairro do Dois de Julho. Nesta quarta (22), o crime completa um mês. 

Welton Lopes Costa foi baleado em frente a um bar no Largo Dois de Julho. O autor dos disparos, um PM aposentado de 98 anos identificado como Tzeu, está respondendo pelo crime em liberdade. “Ele está solto, dormindo bem, com a família e a gente? Olhar para tudo isso aqui e não ver ele é um doloroso para todos nós”, disse Weiden, enquanto mostra o local de trabalho do irmão, que tinha uma empresa de instalação e conserto de refrigeradores e de câmeras e também de manutenção de computadores.

Sobre a investigação do caso, a Polícia Civil disse, em nota, que "já fez a solicitação ao Poder Judiciário de medidas restritivas em relação ao autor, e no momento aguarda o deferimento ou não do pedido. A apuração teve avanços significativos nas últimas semanas, com importantes definições sobre as circunstâncias do caso. Mais detalhes não estão sendo divulgados para não interferir no andamento das investigações".

A reportagem procurou o acusado e a família dele, mas ninguém estava no apartamento do endereço informado. Segundo os moradores, dias depois do crime, o acusado não mais foi visto no Dois de Julho. Eles disseram que o idoso está em uma de suas fazendas na cidade de Jaguaquara, no Vale do Jiquiriçá.  Ele teria uma outra propriedade no município de Pojuca, onde já teria baleado uma outra pessoa. . 

Lembranças 
Após a morte do comerciante, nada foi mexido no escritório, que também funciona como uma oficina.  “Tudo está do jeito que ele deixou. Para onde a gente olha aqui só tem lembranças boas dele. Está muito difícil viver sem ele por perto. Aqui tem os computadores, peças, ferramentas dele. Tem também os equipamentos dos clientes, que estamos devolvendo à medida que comprovem a propriedade mediante apresentação de documento”, contou Weiden. 

Welton morava no terceiro andar de um prédio da família, na Rua Areal de Baixo. Ele era casado e deixou dois filhos  – uma menina de 8 e um menino de 14, que não moram mais no Dois de Julho desde o episódio. O garoto presenciou o crime. “Meu sobrinho não consegue ir mais lá no bairro, pois se lembra de tudo. A menina ainda vai, mas ele não. Toda vez que tenta ir fica passando mal, o filho fica com falta de ar”, contou o eletrotécnico.  

O  local de trabalho de Welton está do jeito que ele deixou (Foto: Arisson Marinho/CORREIO)

Sonhos 
O comerciante era muito ligado à família e tinha vários sonhos. Um deles era construir a casa da mãe em Mapele, bairro do município de Simões Filho, Região Metropolitana de Salvador (RMS). “A nossa mãe tem um terreno lá e Welton queria construir uma casa nova pra ela lá, porque aqui tem muitas escadas para uma pessoa idosa ficar subindo e descendo”, relatou Weiden.

A ideia de Welton é que todos fossem morar junto com a mãe, Ana Lopes, 67. Inclusive, a empresa dele iria junto. “Como todos somos apegados a nossa mãe, estava tudo certo para a obra começar no ano que vem. Íamos trabalhar todos nos finais de semana. A empresa dele iria também, pois o terreno é muito grande e dá para fazer um galpão”, disse o eletrotécnico.   

Revolta 
A ausência forçada do filho consume todos os dias a mãe dele, Ana Lopes. “Onde olho, lembro dele. Isso está me matando também”, desabafou.  Durante conversa com a reportagem, ela não escondeu a revolta. “Ele vai ter que pagar. Isso não vai trazer o meu menino de volta, mas vai pagar! Eu sou uma mãe onça. Se ele aparecer aqui, eu vou ‘engarguelar’ ele. Nem que eu vá presa, mas acabo com ele. Quem está sentido a falta do meu filho sou eu!”, declarou ela. 

Moradores do bairro também não mediram as palavras quando o assunto é o crime. “E se fosse o contrário? Se um negro matasse um policial reformado, já estaria preso ou morto”, disse um amigo da vítima, que preferiu não revelar o nome. Um outro disse que um grupo pretende vinga-se. “Tem gente aqui que era muito amiga de Welton, que foi muito ajudada por ele e por isso já disse: ‘se ele puser os pés aqui, vai ser a última vez’”, relatou.  

Em outros momentos, moradores e comerciantes ouvidos pela reportagem disseram que o idoso já atirou em um vizinho por causa de um pombo e que ele odeia crianças. Ele é conhecido como Bin Laden, em referência a Osama bin Laden, fundador do grupo terrorista Al-Qaeda.

O advogado da família de Welton,  Alberto Mariano Junior, acredita que o idoso será indiciado. “O inquérito policial tá tramitando. O delegado já ouviu várias pessoas no sentido de verificar realmente o que ocorreu. Todas as pessoas já ouvidas em depoimento falaram que em nenhum momento houve qualquer tipo de agressão da vítima ao senhor, bem como a agressão da vítima à sua companheira. Então assim a gente está aguardando a conclusão do inquérito policial. Acreditamos que o delegado vai indiciar esse senhor por homicídio doloso, para que seja julgado pelo tribunal do júri. Então ele por enquanto ele está aguardando o processo em liberdade”, declarou.  
 
Segundo parentes, além de trabalhar com o instalação e conserto refrigeradores e câmeras e manutenção de computadores, Welton tocava pandeiro há pouco mais de um ano e meio na banda de partido alto “Namizade”. Ele será homenageado pelos integrantes do grupo neste sábado (27), durante uma apresentação numa cervejaria em Lauro de Freitas, na RMS. “Antes dessa tragédia, estava tudo certo para a apresentação do dia 25, porque é o aniversário de minha mãe e a comemoração seria lá. Porém, apesar do ocorrido, os amigos decidiram manter o show em memória dele. Será um ato lindo, mas não sabemos se ainda iremos, porque ainda dói muito”, disse o irmão do comerciante.    

Ainda abalada, família não sabe se ira à homenagem a Welton (Foto: Arisson Marinho/CORREIO)

Relembre o caso
Welton foi baleado durante uma discussão com o idoso. Um vídeo feito por uma testemunha flagrou o momento do crime. O filho de 14 anos e a esposa do comerciante também presenciaram o crime - ela também ficou ferida.
Segundo moradores, Welton comprou um carro novo no dia 21 e estava celebrando. A esposa dele, Jennifer, que trabalha em uma padaria da região, demorou para voltar para casa e ele acabou indo até o local para buscá-la. Na volta para casa, os dois começaram a brigar.

Tzeu estava bebendo em uma churrascaria próxima desde cedo. Ele viu a discussão e se aproximou. Um vídeo mostra que ele seguiu o casal, mas foi ignorado pelos dois. O idoso é conhecido como uma pessoa temperamental e agressiva pelos moradores da região, que dizem que é normal ele andar armado. As imagens não mostram nenhum tipo de agressão - a cena sai de foco, mas logo é possível ouvir os disparos.

Testemunhas contam que ouviram ele dizer: “Olha para cá, seu filho da p*!". Welton chega a virar - momento em que o idoso atira três vezes. Dois tiros atingiram Welton no peito e o terceiro atingiu Jennifer no pé. O filho adolescente, que tinha acompanhado o pai, se afastou ao notar a presença de Tzeu, justamente por saber do histórico dele, mas voltou a ouvir a confusão e viu o pai ser baleado. Welton chegou a ser socorrido, mas não resistiu. 

Logo depois do crime, o idoso foi dominado pelos moradores. Levado para a delegacia, ele alegou que agiu para se defender após ser agredido no braço, de acordo com as testemunhas. Também contou que Welton estava agredindo a mulher, o que não aparece nas imagens. Os moradores dizem que a lesão no braço dele foi do momento após o crime, quando parte das pessoas tentou linchar o idoso e outra parte impediu. A arma, um revólver calibre 32, foi apreendida.

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