Jubarte ao alho e óleo: moradores revelam receitas usadas com carne de baleia

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04.09.2019, 05:10:00
Atualizado: 04.09.2019, 11:21:31
O auxiliar de pedreiro Jorge Silva vendeu parte da carne de baleia e faturou R$ 300 (Foto: Mauro Akin Nassor/CORREIO)

Jubarte ao alho e óleo: moradores revelam receitas usadas com carne de baleia

Ignorando perigo de intoxicação, moradores fizeram até churrasco; veja vídeo

Se em alguns restaurantes de Tóquio são comuns os pedidos de sashimis e até filés de carne de baleia, em Salvador essa novidade chegou há apenas uma semana, embora fora de qualquer estabelecimento comercial.

A iguaria entrou no cardápio de alguns moradores do Subúrbio Ferroviário, desde que, na última sexta-feira (30), uma baleia jubarte adulta morreu após encalhar na praia de Coutos.

Moradores da região aproveitaram a oportunidade para encher os estoques de freezeres e geladeiras, e não demorou para o rango exótico ir parar nas panelas ou churrasqueiras, como na casa do auxiliar de pedreiro Jorge Silva, 28 anos.

Agora conhecido como Jorge da Baleia, ele chegou a se vangloriar por ter um estoque em casa que duraria por até dois meses. Os alertas sobre a possibilidade de intoxicação e até crime ambiental, no entanto, abreviaram o prazo e ele acabou se desfazendo de todo o material.

Antes, no entanto, arriscou algumas receitas usadas no preparo de um churrasco que, segundo ele, tinha gosto de carne de boi e, ao mesmo tempo, de peixe.

“Eu primeiro lavei a carne toda com vinagre, joguei um frasco inteiro. Depois, peguei sete limões, e deixei ela umas duas horas de molho, só no limão e no vinagre”, contou.

“Depois do molho, foi só botar cebola, alho, sal e cominho. Deixei refogar por uma meia hora. Aí foi só largar brasa e saborear”, explicou Jorge, que revelou que o churrasco foi acompanhado de muita cerveja, em Simões Filho, na Região Metropolitana de Salvador. Ouça a receita.

Antes de ir para a churrasqueira, Jorge ainda gravou um vídeo para os amigos, saboreando a iguaria e causando inveja aos colegas da rede social.

Ao alho e óleo
Diferente de Jorge da Baleia, outro morador, que pediu para não ser identificado, contou ao CORREIO que usou bem seus dotes culinários para preparar a iguaria de outra forma. 

Além de refogar a carne de jubarte no alho e óleo, ele fez um cozido recheado de verduras. Na panela, tinha de tudo um pouco: batata, chuchu, cenoura... 

"Deixei a carne descansando por um tempo no tempero seco. Depois, refoguei no óleo com cebola e alho. Por fim, joguei tudo na panela com as verduras e ficou uma delícia. Inclusive o caldo, muito bom mesmo", contou o morador, todo contente com o ensopado.

Além do prato, ainda tirou a gordura para fazer o famoso óleo de baleia, que tem propriedades analgélsicas e, segundo ele, serve até para tratar de dor nos ossos.

Lei e saúde
Assim como Jorge Silva e o outro cozinheiro de ocasião, muitos outros moradores não seguiram à risca a recomendação de especialistas sobre o perigo de consumir carne de baleia, ignorando também o fato de ser uma prática ilegal.

“Consumir a carne de baleia, além de ser crime ambiental, por se tratar de um animal protegido por lei, é também um risco grave à saúde humana. Se esse animal encalhou, é porque estava muito doente. Não é recomendável que comam a carne desse animal”, afirmou a bióloga Luena Fernandes, do Instituto Baleia Jubarte.

A lei que protege os animais de toda espécie de cetáceo - animais de vida aquática e mamíferos das águas jurisdicionais brasileiras - é a Lei nº 7.643, de 18 de dezembro de 1987, que em seu Art. 1º, que prevê a proibição da pesca ou qualquer forma de molestamento intencional de toda espécie.

Quem for pego cometendo o ato, pode responder por crime ambiental, além de ser punido com pena de dois a cinco anos de reclusão e multa.

A gastroenterologista Cristina Martins atesta o que disse a bióloga e, além de alertar para o risco do consumo da carne de baleia, diz que torna-se ainda mais danoso à saúde se o alimento não for devidamente refrigerado.

Ela explicou que, embora o consumo seja autorizado em países da Ásia, no Brasil não se trata de uma prática comum e pode causar uma intoxicação alimentar, que pode provocar sintomas como vômito, náuseas e diarreia.

Quem consumiu a carne deve procurar um posto de saúde ou um médico imediatamente.

Curiosos se aproximaram de animal mesmo após dois dias em decomposição (Foto: Mauro Akin Nassor/CORREIO)

*Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro

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