Juntando os cacos: chuva na Bahia deixa rastro de destruição e riscos à saúde

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28.12.2021, 07:30:00
Nível da água baixou em Jiquiriçá, mas ruas continuaram alagadas (Foto: Reprodução)

Juntando os cacos: chuva na Bahia deixa rastro de destruição e riscos à saúde

Cidades ficam sem água, luz e sinal de celular, atrapalhando comunicação e limpeza de casas e comércios

A chuva deu uma trégua neste domingo (26) e segunda (27) em algumas das regiões da Bahia castigadas pelo temporal. Com a estiagem, uma parte da população retornou às suas casas, contabilizando prejuízos e precisou lidar com outros problemas causados pelas inundações, como falta de energia, de água e de sinal de internet. Em Itabuna, há falta de água em algumas localidades. Em Ubaíra, não há sinal de celular ou internet desde às 10h de domingo e os moradores do local estão incomunicáveis. Cidades como Jequié, Vitória da Conquista e Itapetinga estão sem energia. 

Sônia Rauédys está em Salvador e tem parentes em Ubaíra e Jiquiriçá. Ela diz que as duas cidades estão sem energia elétrica e sem água e não consegue contato com seus familiares. A casa do seu pai ficou totalmente submersa, em Ubaíra. Em Jiquiriçá, a casa do seu tio desabou e a loja da sua mãe foi invadida pela água da chuva. “Estou desde domingo sem falar com eles. A gente fica sabendo das coisas porque conhecidos de cidades vizinhas vão até lá para ver e aí dão notícias”, conta.

“Em Ubaíra e Jiquiriçá, as águas já estão escoando, mas está tudo em lama. Meu pai conseguiu ir até a casa dele, mas está tudo destruído. A loja da minha mãe está cheia de lama. Estou indo para lá nesta terça para ajudar a limpar”. Segundo ela, as estradas e pontes foram reabertas, mas o acesso só está sendo possível para veículos pequenos e ambulâncias.

Em Jiquiriçá, lojistas passaram o dia limpando estabelecimentos e contabilizando prejuízos (Foto: Reprodução)

Em Itabuna, o nível da água diminuiu e peixes começaram a aparecer no meio das ruas. Em um vídeo que circula na internet, um morador mostra diversas pessoas no centro da cidade segurando pescados que dizem ser do tipo bagre e tilápia. Por lá, algumas localidades também estão sem água e sem energia. 

Isabela Celli foi passar o Natal com a família no condomínio Cidadelle House e ficou ilhada porque todo o condomínio ficou alagado. Com a trégua da chuva, o nível da água desceu e a família passou a manhã desta segunda limpando a casa (que teve o primeiro andar invadido pela água) e os carros (que também foram atingidos). Ela e os familiares já conseguiram deixar o local.

A casa estava sem energia e a água estava prestes a acabar. “Meu celular está acabando a bateria, estamos saindo daqui agora porque a água finalmente baixou. Mas estávamos economizando água, sem dar descarga e sem lavar a louça esse final de semana todo”, contou. 

Camila Cunha, de 30 anos, também passou o dia limpando e sem energia elétrica. A loja de material de construção do pai dela (José Roberto), que fica no bairro Urbis IV, em Itabuna, foi invadida pela água. “Está escurecendo e ainda estamos sem luz. Ainda não terminamos a limpeza e vamos ter que parar”, contou Camila, no final da tarde desta segunda. 

Ela conta que o local é de comércio e diversas lojas estão na mesma situação. Camila enviou um vídeo que mostra também um mercadinho com bastante lama e produtos espalhados pelo chão. Ao menos sete pessoas aparecem nas imagens ajudando a limpar o local. “O mercado está desse jeito, 100% de perda. Agora é ter força para lutar para recuperar o prejuízo”, diz o dono do estabelecimento, Paulo Vitor, que não teve o sobrenome e a idade identificados. 

O casal Bruno e Luigi são de Brasília e estão na Bahia indo de carro até Itacaré para passar a virada de ano. Luigi Sturaro, psicólogo de 28 anos, conta que nesta segunda eles conseguiram pegar a estrada novamente. “Pegamos a estrada, mas são muitos buracos, alguns pontos de deslizamento, muitas árvores caídas e diversos acessos bloqueados”, diz.

Eles já passaram por cidades como Ubatã e Camamu e Luigi conta que o cenário ainda é triste e assustador. “Nos deparamos com cenas chocantes. Vimos muitas pessoas que perderam tudo, casas destruídas e ruas completamente alagadas. Outra coisa que chamou a atenção foram as crianças brincando na água de forma tão inocente diante dessa situação toda”, acrescenta o psicólogo. 

Cidades tiveram energia desligada para evitar acidentes

De acordo com a Coelba, por questões de segurança, alguns municípios precisaram ter o fornecimento de energia desligado total ou parcialmente devido ao nível das águas. São eles: Cravolândia; Dário Meira; Ibicaraí; Ilhéus Itabuna; Itacaré; Itajuípe; Itambé; Itapetinga; Jaguaquara; Jequié; Santa Inês; Tremedal; Vitória da Conquista e Wenceslau Guimarães.

Coelba monta operação especial para atender ocorrências de cidades atingidas pelas chuvas (Foto: Divulgação/Coelba)

“Primeiramente, é importante reforçar que água e eletricidade não combinam em nenhuma circunstância. Em situações como as que estamos vendo em diversas regiões do estado, nós precisamos fazer o desligamento de energia das residências onde o nível da água está próximo ou acima do medidor. Isto é feito por questões de segurança, pois, quando submerso, o aparelho pode provocar um curto-circuito e transmitir eletricidade para as pessoas que estão próximas. Além disso, pode gerar prejuízos financeiros, danificando eletrodomésticos", explica o superintendente Técnico da Neoenergia Coelba, André Araújo.

A Coelba informou que montou uma força-tarefa para atender as ocorrências e disse que o restabelecimento da energia só será feito a partir da constatação de segurança em cada caso. 

A Embasa também foi procurada para falar sobre o corte no abastecimento de água de algumas localidades, mas não apresentou retorno até o fechamento da reportagem. 

Equipe de voluntários chega à Bahia para resgatar animais atingidos pelas chuvas

No sul e extremo sul da Bahia, na primeira quinzena de dezembro, mais de mil animais foram resgatados pelo Grupo de Resgate de Animais em Desastres (Grad) por conta das consequências das chuvas. Agora, a equipe de voluntários retorna à Bahia e chega em Ilhéus nesta terça-feira (28). Na primeira ida, os voluntários constataram que animais como patos e galinhas de quintal foram arrastados pelas enchentes e os demais encontrados, em sua maioria cachorros, estavam há dias sem comer. 

A dificuldade de acesso a alguns pontos é o maior desafio para realizar os resgates. Ao todo, são 10 voluntários que representam sete estados brasileiros. Com os custos e dificuldades de acesso, o grupo conta com doações para continuar com o trabalho.

(Foto: Divulgação/Grad)

“A gente visa preservar a vida dos animais e levar comida, mas também estabelecer medidas sanitárias para evitar que haja um surto de zoonoses após as enchentes porque muitos animais começam a apresentar problemas de saúde por causa do contato com a água e do estresse. Eles podem ter leptospirose, infecções bacterianas, esporotricose, e outras”, diz Ilka Gonçalves, veterinária voluntária do Grad.  

Doenças transmissíveis podem surgir por conta de inundações

De acordo com a médica infectologista Áurea Paste, por conta das enchentes, diversas doenças podem ser transmitidas ao ser humano. As mais frequentes são leptospirose (a líder em ocorrências), hepatite A e febre tifóide. O alerta também vale para as arboviroses, como zika, dengue e chikungunya, transmitidas pelo mosquito da dengue. 

“As contaminações podem vir do contato da pele com a água ou da ingestão de água e alimentos contaminados, por exemplo. Além disso, em época de enchente há proliferação de mosquitos e acúmulo de água, causando as arboviroses”, explica a infectologista.

Áurea alerta que os sintomas podem aparecer 2 dias após o contato ou ainda 3 meses depois, a depender da doença. “A leptospirose, geralmente, se manifesta de 3 a 7 dias após a exposição. A hepatite A pode demorar até 3 meses, a febre tifóide é entre 2 e 5 dias”, diz. “No caso da leptospirose, que é uma das mais frequentes, a pessoa tem que ficar atenta porque ela geralmente começa com uma dor muscular muito intensa, febre, dor de cabeça e olhos amarelos. Também pode haver diminuição da quantidade de urina. Com esses sintomas, a pessoa deve procurar assistência médica o mais rápido possível”, acrescenta.
 
A infectologista reconhece que é difícil se prevenir contra esse tipo de doença, principalmente quando o cenário é de enchentes, mas dá dicas. “Se possível, a população deve evitar o contato direto com a água e uma dessas formas é usando botas, por exemplo. O cuidado na hora de preparar e consumir os alimentos deve ser redobrado. Além disso, depois da inundação, é importante que seja feita uma limpeza completa da casa, lavar com água e sabão tudo que teve contato com a água”, finaliza. 

Rui anuncia empréstimo para comerciantes e construção de casas

O governador Rui Costa anunciou nesta segunda (27) durante entrevista à TV Bahia que irá reconstruir em locais mais seguros todas as casas que foram destruídas pelas chuvas em parceria com as prefeituras das cidades atingidas. O chefe do executivo estadual explicou que após o volume das águas reduzirem será feito um balanço para indicar quantas casas precisarão ser reconstruídas. 

Costa também destacou que abrirá linha de crédito para comerciantes que tiveram prejuízos com as chuvas nos moldes do que foi feito, no começo de dezembro, para os comerciantes do Extremo Sul da Bahia. As concessões permitem parcelamento em até 48 meses, incluindo carência de até 12 meses para pagamento da primeira parcela, sem juros para financiamentos de até R$150 mil.  Costa também informou que haverá auxílio para agricultores que perderam plantações e maquinários. 
 

*Com orientação da subeditora Monique Lôbo

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