Liminar proíbe mais uma vez desfile de jegues na Lavagem do Bonfim

salvador
11.01.2012, 07:56:00
Atualizado: 11.01.2012, 08:00:27

Liminar proíbe mais uma vez desfile de jegues na Lavagem do Bonfim

A decisão foi expedida ontem pela 6ª Vara da Fazenda Pública

Alexandre Mota e Ítalo Oliveira
alexandro.mota@redebahia.com.br

Caracterizado de Charlie Chaplin, Ubiratan Tavares, 70, estará amanhã na tradicional festa do Senhor do Bonfim, protestando. “Eu quero meu jegue, cadê o meu jegue?!”, ouvirá quem caminhar próximo a ele, que reivindica o direito de desfilar com o animal que desde 1986 o acompanha no cortejo e que o tornou conhecido como Bira do Jegue.

Ana Rita Tavares, presidente da Federação Baiana de Entidades Ambientalistas Defensoras dos Animais (Febadan) também protestará. “Nossa luta é pelo direito à vida, pelo respeito aos animais, que ao longo de mais de 220 anos de festa foram maltratados”, explica.

O motivo pelo qual Bira do Jegue não poderá comemorar o seu aniversário de 71 anos na festa com seu amigo, o jegue, é uma renovação da liminar que proíbe “a participação de carroças conduzidas ou puxadas por animais, em destaque os equinos”, sob pena de multa de R$ 90 mil em caso de descumprimento.

A decisão foi expedida ontem pela 6ª Vara da Fazenda Pública, assinada pelo juiz Ruy Eduardo Almeida Brito. O atual documento, emitido também no ano passado com similar teor, designa para cumprimento da decisão o Comando Geral da Polícia Militar, que contará com mais de 2 mil policiais no festejo.

Por mais estranho que pareça, o futuro do jegue em festas populares será decidido na segunda-feira, quatro dias após o Bonfim, quando será julgada no Juizado Especial Criminal de Nazaré a ação criminal movida pelo Ministério Público e ONGs de defesa dos animais.

Argumentos
Para Bira, barrar o jegue é quebrar uma tradição. “O jegue, que levava a água para lavar a escadaria, é um símbolo do Nordeste, do trabalho, da seca. Jesus fugiu em um jegue”, diz.

Já a advogada e diretora da ONG Bicho Feliz, Gislane Brandão, diz que “a tradição não pode estar acima da lei e a cultura não é estática. Hoje, nossa cultura não aceita maus-tratos”. Para os representantes das nove ONGs que fiscalizarão a ordem no Bonfim, a exposição a sons elevados, a possibilidade dos equinos se assustarem com os fogos e com a multidão, e o trajeto de 8 km sob o sol escaldante são as principais agressões contra os jegues.

Celebração começa às 8h no Comércio
A tradicional lavagem do Bonfim, amanhã, começa às 8h, na área externa da Igreja da Conceição da Praia, no Comércio. A celebração inicia com uma mensagem do vigário da Basílica da Conceição da Praia, padre Valson Sandes.

Depois, haverá uma apresentação do coral da basílica e mensagens de representantes de várias religiões, como espiritismo, candomblé, evangélicos e hinduísmo.

Por volta das 9h, o cortejo segue pelos 8 km que levam à Colina Sagrada, onde o cortejo deve chegar às 12h. Lá, acontecerá a tradicional lavagem das escadarias da igreja, pelas baianas, com  água de cheiro. A igreja estará fechada, mas os fiéis poderão ver a imagem do Senhor do Bonfim, que será erguida na janela do local pelo padre Edson Menezes. Cerca de 1 milhão de pessoas devem participar da festa.

Entenda o caso

2008
A ONG Bicho Feliz solicita representação junto ao Ministério Público denunciando os maus-tratos.

2009 
O MP-BA aciona criminalmente a Fundação Gregório de Matos (pelo concurso da mais bela carroça, realizado até 2007) e a Saltur como estimuladores da prática.

2011
A OAB-BA e três ONGs abrem ação cível e liminar proíbe os animais no cortejo.

2012
A liminar de proibição é renovada.

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