Mãe tentou impedir morte de blogueiro Pretoozo: 'Pedi de joelhos'

salvador
07.05.2021, 05:00:00
(Foto: (Bruno Wendel/CORREIO))

Mãe tentou impedir morte de blogueiro Pretoozo: 'Pedi de joelhos'

Jovem de 20 anos foi executado no bairro da Fazenda Grande do Retiro

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De nada adiantou a súplica diante de duas pistolas. Mesmo de joelhos, a auxiliar de serviço gerais Patrícia Ferreira Lessa, 44 anos, implorou pela vida do filho, mas os dois homens não tiveram piedade e descarregaram as armas contra o blogueiro Pablo Luiz França, o Pretoozo, 20, nesta quarta-feira (5), no bairro da Fazenda Grande do Retiro, onde morava. O rapaz, que tinha quase 60 mil seguidores no Instagram, morreu na hora. 

“Eu ajoelhei no pé de um deles, pedi ‘Pelo amor de Deus’, que se ele (Pablo) tivesse feito algo de errado, eu mesma daria um corretivo, mas não consegui salvar meu filho”, disse ela ao CORREIO, na manhã desta quinta-feira (6), na porta casa, enquanto era amparada por parentes e vizinhos.  

Em seu perfil no Instagram, Pablo fazia postagens relacionadas à moda e dança, era trancista e irmão da também blogueira Paloma Maraíssa, a Gringa. O enterro do blogueiro foi às 16h no cemitério Quinta dos Lázaros.  

Parentes do blogueiro foram ouvidos no Departamento de Homicídio e Proteção à Pessoa (DHPP). Em nota, a Polícia Civil disse que o caso é investigado pela 3ª DH/BTS. 

Pablo foi morto por bandidos que invadiram sua casa na fazenda Grande do Retiro (Foto: Reprodução)

Crime
O crime aconteceu por volta das 15h30 na Terceira Travessa Lídio dos Santos, na Fonte do Capim. Ainda sob efeito de calmantes, Patrícia contou como o filho morreu. Ela disse que os dois estavam em casa quando abriu a porta após alguém ter gritado o nome dela. Foi quando os dois homens armados invadiram o imóvel e foram ao encontro de Pablo, que estava em um dos quartos. 

“Um deles dizia: ‘Bora Pablo, sai de casa, você quer morrer na frente de sua mãe?’. E eu pedi de joelhos para que não fizessem aquilo, que meu filho era blogueiro, que não se envolvia com nada, mas ele disse: ‘Saia daqui, tia’ e mandou eu sentar e começou a atirar. O outro que estava armado ficou olhando pra mim com dó, mas o primeiro disse: ‘Bora véio, bora!’ e o segundo também descarregou a arma contra meu filho”, detalhou Patrícia, aos prantos.    

Após os disparos, a dupla de assassinos fugiu a pé. De imediato, os moradores acionaram o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), mas Pablo já estava desfalecido nos braços da mãe. “Pedi a Deus que não levasse ele, que desse uma segunda chance... Meu filho tentava me dizer alguma coisa, mas o vi morrendo... Quando a Samu chegou, ele já tinha partido”, contou a mãe de Pablo. 

Ela disse também que, na hora dos disparos, perguntou aos bandidos o porquê de atirarem em Pablo. “Mas eles não respondiam, só disparavam”, relatou. Na manhã desta quinta-feira, Patrícia recebeu o apoio de parentes, amigos e vizinhos pela trágica morte do seu filho mais velho – ela é mãe da também blogueira Gringa, 15, e de um menino de 10 anos. 


Parentes e amigos na porta da casa Pablo na manhã desta quinta (Foto: Bruno Wendel/CORREIO)

Legado
Pablo sempre quis ser famoso e sonhava em ser modelo. Através de suas fotos e vídeos dançando, se tornou popular, principalmente entre os jovens da periferia. “Meu filho tinha orgulho da favela, de ser quem ele é, sempre entrou e saiu dos lugares de cabeça erguida. O trabalho dele sempre foi muito elogiado. As pessoas me paravam na rua para perguntar se realmente eu era a mãe de Pretoozo. O sonho dele sempre foi dar uma vida melhor para toda a família através da arte”, disse a mãe. 

O blogueiro era tido como referência para os jovens da comunidade. “Todo mundo aqui respeitava ele. Muitos meninos e meninas daqui se sentiam representados, se sentiam estimulados pelo meu filho, um blogueiro negro, gay e respeitado. Ele foi o maior incentivador da Gringa. Foi ele que a transformou em blogueira, assim como outros jovens. Ele não era individualista. Queria que todos crescessem junto com ele”, declarou Patrícia.   

Pablo encorajou meninos e meninas que viviam complexados pela cor, condição sexual ou por não fazerem parte de um padrão de beleza. “Temos uma vizinha que é gordinha e que se aceita como é hoje, porque meu filho a ajudou. Ele a fez postar foto de biquíni nas redes sociais, o que ela nunca fazia e foi um sucesso. Hoje, ela tem um monte de seguidores que se espelham nela. Meu filho sempre dizia: ‘cada qual tem a sua beleza’. Meu filho morreu, mas deixou um legado e vamos dar continuidade”, disse orgulhosa.   

Palco
A maioria das fotos e dos vídeos do perfil de Pablo no Instagram tem como cenário a Terceira Travessa Lídio dos Santos, onde morava. Seu estúdio preferido era a frente da casa de dona Rita de Cássia Costa Gomes, 50. “Ele gostava de aproveitar as plantas para compor o cenário”, contou ela. 

A fama de Pablo chegou a outros bairros. “Meninos e meninas do Imbuí vinham pra cá para fazer fotos junto com ele. Outro dia, um rapaz de Serrinha veio aqui só para conhecê-lo. Ele disse que meu filho era famoso na cidade dele quando tinha apenas 8 mil seguidores. O menino postou uma foto deles na Barra e logo depois ganhou muitos seguidores”, disse. 

A morte de Pablo foi lamentada pelos seus seguidores. Os depoimentos foram realizados na última postagem de Pretoozo, que teve 1.994 comentários até as 23h desta quinta. “Descanse em paz, mano. Nem tô acreditando”, escreveu vt_kebradeira. “Adeus meu mano Pretoozo”, disse sx_biel4. 
 

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