Mais office do que home: oito em cada 10 empresas pretendem manter o teletrabalho

coronavírus
16.08.2020, 06:00:00
(Ilustração: Morgana Miranda/ CORREIO)

Mais office do que home: oito em cada 10 empresas pretendem manter o teletrabalho

Ainda de acordo com a Mercer, 13% das organizações deverão migrar alguma função para o trabalho remoto permanente e 48% analisam a possibilidade

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A mesa de jantar virou estação de trabalho. A hora do café com os colegas da firma passa a dar lugar ao momento de fazer aquele carinho no bichinho de estimação, que é a coisa mais próxima que se tem no momento. As reuniões, se tornaram virtuais. Até o pijama virou possibilidade de look do dia. Entre um alerta de e-mail e outro, tem o filho que chama no meio de uma live ou gás de cozinha que acaba  em pleno expediente e, com isso, o home vai se tornando mais office do que qualquer profissional poderia imaginar. 

E quem quer voltar a trabalhar no regime presencial depois do coronavírus? Se essa pergunta fosse jogada no maior site de pesquisas do mundo, a resposta do Google seria “quando esse funcionário quiser”. Isto porque, recentemente, o CEO da companhia, Sundar Pichai, enviou um e-mail para todos os colaboradores, estendendo a opção  de trabalho em casa até 30 de junho de 2021. A medida vale, inclusive, para os mais de mil funcionários brasileiros. Volta para o escritório quem achar que deve e está tudo certo. 

No Twitter, outra gigante da tecnologia, o home office vai durar para sempre, conforme anúncio do CEO da rede social, Jack Dorsey.  A ideia é mudar completamente o modelo de trabalho presencial para a atividade remota. A permanência ao home office nas grandes empresas não para por aí. No caso do Banco do Brasil (BB), a migração de 30% dos funcionários dos escritórios corporativos  levou a instituição a prever a desativação de 35 prédios em sete estados, entre eles a Bahia. Destes, 19 poderão ser desocupados, com a  devolução de edifícios locados e venda de imóveis próprios.

O home office conquistou moral com o chefe, como aponta  um levantamento feito pela Mercer - líder global de consultoria em carreira, saúde, previdência e investimentos. Oito em cada dez negócios pretendem praticar o home office opcional (85%). Ainda de acordo com a Mercer, 13% das organizações deverão migrar alguma função para o trabalho remoto permanente e 48% analisam a possibilidade.

A pesquisa online ouviu 253 empresas no Brasil. Entre as áreas elegíveis para a migração estão o administrativo, financeiro, recursos humanos, jurídico, comercial, atendimento ao cliente e operacional.

“Durante a pandemia, muitos negócios conseguiram manter as atividades no regime remoto. Logo, a pergunta é: precisamos mesmo de todo o aparato físico que tínhamos no pré-covid?”, questiona o líder de Produtos e Carreira da Mercer Brasil, Rafael Ricarte.

No entanto, o modelo ainda precisa avançar mais nos processos de recrutamento. Em Salvador, o Serviço Municipal de Intermediação de Mão-de-obra (Simm) registrou apenas 10 ofertas de vagas na modalidade home office durante a pandemia. Todas eram para atendente de telemarketing. Já o SineBahia não conseguiu localizar oportunidade neste modelo devido a falta de especificação, por parte das empresas. 
 
Tudo em casa
Enquanto esse processo de expansão se consolida,  os negócios estão se esforçando para manter os contratados em casa. Marcas baianas como a Don Luiz Cream devolveram  o imóvel alugado onde operava sua sede, colocando 100% da equipe em home. A estratégia gerou uma redução de custos de 62%. 

A marca baiana Don Luiz Cream abriu mão do escritório e entregou até o imóvel alugado, afirma Gustavo Moraes
(Foto: Divulgação)

“Abrimos mão do escritório  até o final do ano. Com isso, os colaboradores ganharam liberdade, o poder de construir a sua rotina. Para a empresa, além da redução dos custos, agregamos senso de confiança e autonomia”, avalia o gerente de marca, Gustavo Moraes.

Já na TIM, a adesão valeu não só para a área administrativa, mas, para todo call center próprio e centrais de monitoramento de rede, alcançando 7,5 mil funcionários. Em uma pesquisa realizada  em maio, o resultado apontou que 90% deles estão dispostos a adotar a modalidade duas vezes por semana ou mais. “São insumos importantes para avaliarmos os próximos passos”, pontua a vice-presidente de RH da TIM Brasil, Maria Antonietta Russo.

No segmento industrial, a unidade da Braskem, no Polo Industrial de Camaçari, fortaleceu seu programa de flexibilização, criado há um ano. Cerca de 65% do administrativo foi reduzido nas plantas, conforme destaca a gerente de Pessoas & Organização, Ana Luiza Salustino Maia. 

“Inclusive, disponibilizamos, para cada um dos 4 mil integrantes em flex office, o kit ergonomia, composto por cadeira, teclado, mouse, suporte para note book e HUB”.

A experiência do Laboratório Farmacêutico da Natulab nesta adequação é mais uma que conta a favor do home office. A planta instalada no município de Santo Antônio de Jesus não deixou de produzir, mesmo com 30% dos funcionários em casa.

“O colaborador se sente mais seguro em regime home office e se engaja mais. A sua dedicação e produtividade é maior com a preservação, não só da sua saúde, mas também da sua família”, considera a diretora de RH Cristina Bombonati.

A especialista em desenvolvimento humano e autora do livro O Poder da Simplicidade no Mundo Ágil (Editora Gente, 192 páginas), Susanne Anjos Andrade, defende que as empresas estejam abertas para esta negociação.

“É urgente se reinventar a partir de novos modelos de negócio, quando se oportuniza a este profissional decidir o que é melhor para sua qualidade de vida e produtividade”. 

O home do office
Bom, alguém ainda tem dúvida que o home office fica? Para a psicóloga Juliana Drummond está valendo a pena poupar o dinheiro da gasolina e do estacionamento e, de quebra, ganhar uma hora a mais de sono.

Juliana montou seu próprio cantinho para trabalhar em casa
(Foto: Acervo Pessoal)

“Sinto falta dos momentos descontraídos e das risadas entre uma atividade e outra e do cafezinho na copa, porém, com disciplina dá para manter o foco como se estivesse fisicamente na empresa”, aponta.

A designer Aina Benedito mudou até os móveis da casa. “Percebo que aqui a produtividade aumentou por não ter distrações. Com certeza, me manteria trabalhando em casa até que saísse uma vacina para o coronavírus”.

Social media, Michele Almeida confessa que encontrou algumas dificuldades para impor limites. “Não conseguia definir uma rotina certa. Precisei me organizar de verdade”, comenta.

O 'doguinho' faz companhia a Michele todos os dias durante o expediente
(Foto: Acervo Pessoal)

A estagiária de Marketing, Maria Maron, começou o home office cheia de gás e acabava trabalhando 13h por dia. O resultado? Desenvolveu uma gastrite e teve que se afastar das atividades por uma semana. O home office ensinou uma lição:

“Desde então, tento me policiar bastante, tem sido bastante desafiador. A prioridade é manter a minha família segura. Não me vejo trabalhando presencialmente até que sinta essa segurança”.

Novo ritmo
Para a psicóloga organizacional, Taís Mara Oliveira, o que era chamado de ambiente de trabalho, de possíveis interações, passou a ser individualizado e toda a mudança, exige adaptação.

“Às vezes a internet cai, se aumenta também os contatos virtuais. Porém, para toda a mudança é necessário buscar a melhor forma possível de promover isso e deixar que as coisas possam fluir bem”, diz. 

A dica é desenvolver mais o senso de organização e planejamento. “Entenda qual o seu ritmo de produção e de que maneira ele se encaixa no seu novo ritmo de vida. Utilize agenda, adote check-list. Monte o seu planejamento  com as atividades que precisa cumprir, destacando o que é prioridade. Se organizando, todo mundo consegue”, complementa. 


BUSCA POR TRABALHO REMOTO CRESCE QUASE 200%, APONTA CATHO

A necessidade de se manter em quarentena aumentou a busca por vagas de emprego utilizando o termo ‘home office’. Segundo a plataforma de recrutamento online Catho, o interesse por vagas na modalidade cresceu 179% na comparação entre os meses de fevereiro e março deste ano.

Após o aumento exponencial observado no início da pandemia, o crescimento se manteve nos meses subsequentes. Entre março e abril, esse aumento foi para 190%, enquanto abril e maio o número totalizou cerca de 190,5%. Quando comparado aos meses de abril/ maio e janeiro/fevereiro, a alta é ainda mais expressiva, chegando a quase 200% (198%).

De acordo com a diretora de operações da Catho, Regina Botter, a movimentação do mercado é clara. “Diante do cenário, uma das principais alternativas para empresas e profissionais em busca de emprego é o trabalho remoto, o que respalda o crescimento de buscas por parte dos candidatos”, avalia.

Atualmente, a Catho possui milhares de vagas publicadas para trabalho remoto. Apesar da plataforma não precisar o número de oportunidades na Bahia, no total, a Catho tem cadastradas, atualmente, 225 mil vagas de emprego em todo o país, nas mais diversas áreas e modalidades de trabalho.


SOBRE O HOME OFFICE

Existe alguma lei que regulamenta o trabalho remoto? O regime de teletrabalho, ou trabalho remoto, está regulamentado na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) desde o final de 2017, após a Reforma Trabalhista. “Não há diferença entre o trabalho realizado no estabelecimento do empregador e no domicílio do empregado, a não ser que tenha sido firmado um novo acordo por conta da pandemia”, explica a professora do UniRuy e juíza do Trabalho, Angélica de Mello Ferreira.

A empresa é obrigada a manter no home office, o tíquete alimentação e o vale-transporte? No que se refere a manutenção do auxílio-alimentação, se houver convenção ou acordo coletivo de trabalho prevendo o benefício e este não diferenciar trabalho presencial e remoto, o auxílio é devido. “Porém, se e o funcionário não está se deslocando até a empresa, o benefício trabalhista não precisa ser pago”, acrescenta a juíza.

O trabalhador tem direito a receber algum benefício para custear os gastos com as despesas do home office? O empregado e empregador podem fazer um acordo sobre os custos com a aquisição e manutenção dos equipamentos eletrônicos para a prestação do trabalho, como internet e energia. No entanto, isso não pode se caracterizar como verbas de natureza salarial.  Angélica destaca que, na hipótese do empregado não dispor destes recursos, o empregador precisa garanti-los. “Inclusive, os equipamentos precisam ser ergonômicos”, pontua. 

O empregador pode mudar o regime de trabalho sem que haja uma convenção coletiva? Durante o período da pandemia, a empresa pode alterar o regime de trabalho, independentemente de acordos individuais ou coletivos prévios. “Ou seja, não depende da concordância do empregado”. 

O que fazer, caso a empresa não cumpra as obrigações com relação ao teletrabalho? Segundo a juíza do trabalho, o  caminho é denunciar. “Procure  de imediato, o sindicato da categoria ou a Justiça do Trabalho”, diz. 


'GERIR PESSOAS NÃO É CONTROLAR HORÁRIO'

O presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH-BA), Wladmir Martins, está convencido de que produtividade não depende de estar no escritório ou não. Segundo ele, a pandemia mostrou que o home office é sim uma modalidade de trabalho possível e eficiente, o que acabou  transformando – e muito – a resistência de algumas empresas com relação ao teletrabalho.

'É possível sim, trabalhar em home office e ser altamente produtivo', destaca Martins
(Foto: Divulgação)

“A crise do coronavírus quebrou tabus, principalmente, para mostrar uma nova realidade dentro do ambiente organizacional, a de que é possível sim, trabalhar em home office, ser altamente produtivo, sem precisar de ter aquele controle excessivo”, defende. Em entrevista ao CORREIO ele comentou mais alguns pontos sobre estas transformações impostas à rotina de trabalho. Confira.

Como fica o significado de produtividade no home office? 

Independente do ambiente que você esteja, há um contrato de trabalho.  Se a pessoa está no ambiente físico da empresa ou no home office, não importa.

A produtividade virá de uma gestão que se distancie de paradigmas conservadores de que ‘eu preciso controlar a pessoa o tempo inteiro’, que ela precisa estar do lado do chefe. A melhor forma de gerir pessoas não é pelo controle do horário, mas pela produtividade que ela entrega.

Para muitos trabalhadores, a casa sempre foi o 'refúgio' do trabalho. Como lidar com essa mudança?

Aí é uma linha muito tênue, entre fazer essa separação e, principalmente, essa gestão domiciliar. Então, é saber que hora que eu estou dedicada ao trabalho, a família ou a minha casa. Estabeleça horários: que horas entra, para e almoça ou finda o seu dia. Isso não significa que as coisas não possam ser flexivas.

Também se faz necessária uma certa flexibilidade da empresa, em entender que a pessoa está no ambiente doméstico dela. O que temos que combinar é a entrega do serviço.

Eu já passei por diversas situações durante uma reunião online em que o filho de uma colaboradora entrou na sala durante uma conferência virtual, querendo mamadeira. Se vai estar dentro das 8h, das 4h ou das 6h de trabalho, pouco importa, se a demanda é cumprida e alcança o resultado esperado. 


QUEM É  

Wladmir Martins é presidente da ABRH-BA e sócio-diretor na Opus Human Treinamento e Assessoria



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