'Masculinidade faz o homem sofrer': por que é importante ser desconstruído?

salvador
15.07.2021, 05:00:00
Atualizado: 15.07.2021, 10:21:37
(Shutterstock)

'Masculinidade faz o homem sofrer': por que é importante ser desconstruído?

No Dia do Homem, especialistas falam sobre ego, virilidade e estilo machão em pleno século 21

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Em pleno Dia do Homem, te faço uma pergunta: “o que é ser homem?”. Se até na biologia uma resposta é difícil de ser dada, imagine no sentido filosófico da coisa. "É alguém que luta para defender o império", responderia um romano do século I. "Não. É quem trabalha para prover para sua família", corrigiria um inglês do século XVIII. "Tudo isso, claro. Mas tem que ser forte e imbatível, igual ao Rambo", emendaria um cinéfilo dos anos 80.

E em 2021? Numa era em que toda pluralidade de gêneros e sexualidades passou a ser estudada e discutida, pouco se reflete sobre a masculinidade. "No grupo de pesquisa que trabalho, por exemplo, pelo menos 90% dos estudos são sobre o feminino e quase nada sobre o masculino", aponta Djalma Thürler, professor da Ufba e pesquisador do Núcleo de Pesquisa e Extensão em Culturas, Gêneros e Sexualidades (NuCus).

Já o professor da Ufba, Leonardo Nascimento, já enxerga um novo padrão de masculinidade surgindo, principalmente entre a classe média intelectualizada.

“Você percebe que há um estímulo e um interesse em homens que, para além de um tipo físico viril, venha acompanhado de uma camada sociopsicológica, emocional, que respeite as regras civilizatórias, de respeito a mulheres e outras sexualidades. É como se a sociedade estivesse produzindo novos padrões que dizem que não dá mais para ser macho e masculino desta forma”, analisa Leonardo.

Desconstrução


Durante muito tempo acreditou-se na existência de aspectos da personalidade humana que seriam ligados ao sexo da pessoa: homens seriam mais viris e brigões, enquanto mulheres mais doces e calmas. No entanto, novos estudos botam por terra este senso comum, apontando que essas características eram mais vistas nestes gêneros pois as crianças eram criadas para respeitarem e seguirem esse padrão.

“Tudo é feito de uma maneira como se pareça natural e intrínseco ao ser-humano essas características. Só que quando você percebe que tudo não passa de mais uma construção social acontece um giro epistemológico. Ou seja: se a masculinidade baseada nesses princípios é algo construído, significa que ela pode ser desconstruída”, revela Djalma Thürler.

E essa desconstrução é importante não apenas para o homem se conhecer mais e se soltar de padrões e amarras impostas a ele, mas para a sociedade como um todo. Djalma cita o caso envolvendo o DJ Ives, que foi filmado agredindo a esposa, como exemplo de como a masculinidade tóxica afeta o mundo.

“A agressão é um desses delírios da ‘ultramasculinidade’, que diz que o homem para ser homem precisa ser agressivo, precisa performar sua força. E se não for com sua esposa, será com a atendente de supermercado, com o frentista ou com o cobrador do ônibus. Esses arroubos de violência estão marcados em todos os lugares da sociedade. Só vamos conseguir acabar com a violência quando retirarmos esse aspecto do universo masculino”, analisa o pesquisador.

Utópica e perversa
Nos estudos de gênero há um campo que se debruça sobre a chamada “ultra masculinidade”, que seria algo não só utópico, como perverso. Ou seja, é criado um padrão tão alto que os homens que não o atingem, sentem-se fracos e insuficientes. 

“A gente começou a perceber que essa masculinidade faz o homem sofrer. O homem é criado para ter o delírio da importância, ego, exacerbação, do guerreiro. Ou seja: é um delírio do poder, da potência, ele transa com todo mundo, ele é bravo. Isso é muito perverso, pois o homem sofre quando não atinge esse patamar”, analisa Djalma.

E os problemas desta “ultra masculinidade” afetam até a vida sexual dos homens. Além deles serem programados para serem “máquinas de sexo” que jamais podem negar serviço, eles também deixam de desfrutar muitas zonas erógenas e cenários possíveis durante o coito.

“Alguns pontos de prazer no corpo masculino tornam-se restritos pois o homem é levado a enxergar o sexo com uma visão falocêntrica. Quando você desconstrói essa ideia de masculinidade em si, também pode abrir seu corpo para prazeres e desejos novos. Afinal, não serão algumas atitudes que farão você deixar de ser homem. E o que você deixa de fazer por preconceito é muito sério. Tem uma frase que diz: ‘de tanto ser o que não sou, acabei me tornando o que tenho sido’”, cita o pesquisador.

Criação de novos homens


O jornalista Edgard Abbehusen tem uma filha de 14 anos e um filho de apenas um ano. Um dos grandes desafios do papai foi educar as ‘crias’ sobre machismo e outros tipos de preconceito.

Edgard conta que teve uma criação pautada no machismo, onde ele via a mãe servindo o pai dentro de casa. Ele não quer passar esse mesmo exemplo ao filho.

“Eu não acredito que as crianças nascem racistas, machistas ou com outros tipos de preconceito. Para evitar que meu filho desenvolva esses aspectos na personalidade dele, nossa relação será baseada na conversa e também no exemplo”, conta ele, citando que divide as atividades domésticas com a esposa, por exemplo.

Um caso citado pelo jornalista aconteceu com a filha mais velha, que, quando criança, se recusava a abraçar uma tia negra. “Ao perceber esse comportamento, conversei com ela, fui até a escola falar com a professora também e dei de presente um livro chamado ‘Menina Bonita do Laço de Fita’, que aborda essa questão racial. Este problema foi superado e hoje tenho uma relação super aberta com ela. A gente conversa sobre tudo”, conta Edgard.

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