'Me sinto muito culpada', disse mãe de Henry ao pai uma semana após morte

brasil
28.04.2021, 10:38:00
Atualizado: 28.04.2021, 10:40:00
Henry, ainda bebê, com os avós maternos (Reprodução)

'Me sinto muito culpada', disse mãe de Henry ao pai uma semana após morte

Polícia recuperou mensagens; Monique tratava morte como causada por queda

A professora Monique Medeiros da Costa e Silva, presa pela morte do filho, Henry Borel, de 4 anos, passa os dias na prisão lendo a bíblia e escrevendo cartas. Os pais são seus principais interlocutores, segundo reportagem de O Globo. Mensagens enviadas para eles antes da prisão foram recuperadas do celular de Monique pela Polícia Civil e mostram como foram os dias após a morte de Henry.

Monique trocou 134 mensagens com o pai, o funcionário da Aeronáutica Fernando José Fernandes Costa e Silva, de 13 a 24 de março. Ela fala sobre a sensação de culpa em 15 de março, pouco mais de uma semana após a morte do filho. “Devo merecer o que está acontecendo. Tudo foram escolhas minhas. Agora estou colhendo. Me sinto muito culpada". O pai responde que "todos nós erramos". Monique responde como se Henry tivesse caído da cama, algo descartado pela perícia. “Eu deveria ter colocado ele na cama dele que era mais baixa. Deveria ter dormido no quartinho dele com ele”. O pai dela continua: “Nada acontece se Deus não permitir.”

Com a mãe, a professora Rosângela Medeiros da Costa e Silva, foram 226 mensagens de texto, ligações e arquivos no período. “Dizia para o Henry que ninguém o amava mais que você. E eu lhe digo, ninguém a ama mais que eu. Quero estar com você. Não me deixe estar longe de você. Eu lhe peço. Vamos juntas despedir do Henry", escreveu Rosângela para a filha no dia anterior ao enterro do garoto.

No dia 16 de março, Monique diz para a mãe que iria para o escritório do advogado. Ela contou que passou sete horas sendo interrogada no dia anterior, "fazendo um possível inquérito". A mãe tente tranquilizar.  “Isso tudo vai passar. Foi o que eu lhe disse. Tem coisas que nós, mães não conseguimos evitar que o filho passe. Estou em oração por você e Deus escuta nossas orações", escreve.

A avó de Henry escreve mais: “Você foi a melhor mãe para o seu filho. Tenha certeza do que você foi e ele será sempre grato. Te amo e rezo sempre. Não tenha medo de nada. O que não foi feito ou da maneira que foi feito foi o seu entendimento como mãe. Mãe quer sempre educar mesmo que muitas  vezes nos parece errado. Te amo. Isso tudo vai passar. Entregue a Deus a sua vida e espera a recompensa".

Rosângela disse em depoimento à polícia, em 24 de março, que Monique ligou para ela na madrugada do dia 8 falando que Henry não estava respirando. Ela disse que foi imediatamente para o hospital, levada por outro filho. Durante o trajeto, Monique ligou de novo pedindo para ela ir até lá. Depois, recebeu um terceiro telefonema, quando foi informada que o Neto havia morrido. Ao chegar no hospital, disse que encontrou Monique "desolada". A avó disse que soube que a causa da morte do menino havia sido uma hemorragia causada por uma queda.

Monique e o namorado, o vereador do Rio Dr. Jairinho, estão presos pela morte da criança, que segundo a investigação era alvo de violência por parte do padrasto. Com covid, a professora está isolada em uma cela no Hospital Penitenciário Dr. Hamilton Agostinho.

Mudança de versão
Com novos advogados, Monique pede para prestar outro depoimento e escreveu uma carta na cadeia em que narra agressões do namorado, o vereador Dr. Jairinho, e diz que ele a acordou no dia da morte do filho quando a criança já estava desfalecida. Trechos da carta foram divulgados pelo Fantástico.

Monique foi ouvida pela polícia no dia 17 de março. Na época, negou o crime e também inocentou Jairinho, afirmando que a família levava uma vida harmoniosa e no dia da morte de Henry, na madrugada de 8 de março, os dois estavam dormindo juntos em outro quarto. A carta, escrita na semana passada, conta outra história.

Henry morreu com mais de 24 lesões pelo corpo, incluindo uma laceração no fígado e machucados na frente, atrás e do lado da cabeça. Clique aqui e leia as 29 páginas da carta escrita por Monique.

Agressões
No depoimento à polícia, Monique disse que a convivência entre ela, Jairo e Henry era boa, "não tendo relatado quaisquer problemas". Ela disse que o relacionamento não era muito próximo, mas que Jairo e Henry se davam bem e brincavam juntos. "Monique não acredita que Jairinho tenha feito qualquer coisa contra seu filho, até porque a relação entre eles era boa, e ele sempre tentava cativar o amor de Henry".

Na carta, ela revela que já sabia de agressões sofridas pelo filho - a babá da criança, que também mudou o depoimento, relatou situações de violência que ela mesma informou à mãe. “Um dia, em janeiro, Henry veio correndo até a cozinha uns 15 minutos depois que Jairinho chegou, dizendo que o tio tinha dado uma ‘banda’ nele e uma ‘moca’. Fui até a sala perguntar o que tinha acontecido, e Jairinho disse que ele era um 'bobalhão', que segurou ele pelos braços brincando e passou a perna, mas que Henry nem caiu pois ele estava segurando-o", diz o texto escrito agora.

Ela também relata que sofreu agressões e ser vítima de intensos ciúmes do namorado. "Lembro de ser acordada no meio da madrugada sendo enforcada enquanto eu dormia na cama ao lado do meu filho. Quase sem ar, ele jogou o telefone em cima de mim perguntando, me xingando, me ofendendo, o porquê eu não estava atendendo ele e do porquê eu tinha respondido uma mensagem do Leniel (onde eu chamava de 'Lê' e ele me chamava de 'Nique'.", descreve Monique sobre o que seria um dos episódios de violência de Jairinho.

Medicamentos
No depoimento, Monique disse à polícia que não tomou nenhum remédio no dia da morte do filho, nem bebeu ou ingeriu outras drogas, assim como Jairinho.

Na carta, ela diz que Jairinho "me deu dois medicamentos que ele estava acostumado a me dar, pois dizia que eu dormia melhor, mas eu não o vi tomando. Logo, eu adormeci". Ela narra que era comum ele dar remédios de dormir para ela.

Morte de Henry
No depoimento, Monique diz que deitou com Jairinho em um quarto de hóspedes, diferente ao que Henry estava deitado, e adormeceu vendo TV. Quando acordou, por volta das 3h30, viu a TV ligada e Jairinho dormindo ao seu lado, aparentemente em "sono pesado". Ela o acordou para que fossem para o quarto deles. Jairinho foi ao banheiro da suíte de hóspedes e ela foi quem encontrou o filho caído ao chão. Foi pegá-lo para por na cama e notou que ele estava com mãos e pés gelados, não respondia aos chamados e tinham olhos "revirados". Ela contou que chamou Jairinho, que correu até lá.

Na carta, a situação narrada é outra. "De madrugada ele me acordou, dizendo para eu ir até o quarto, que ele pegou o Henry no chão, o colocou na cama e que meu filho estava respirando mal", escreve Monique. Ela diz que viu o filho de barriga para cima, descoberto e com a boca aberta. Ela perguntou a Jairinho o que havia acontecido e ele contou que escutou um barulho, acordou e correu para ver. Disse que Henry tinha "caído da cama". Ela escreve que enrolou Henry numa manta para socorrê-lo. "Mas em nenhum momento eu achava que estava carregando meu filho morto nos braços", escreve.

Ameaças
No depoimento, Monique afirmou que sua relação com Jairinho estava boa. Que eles seguiam juntos e pretendiam "passar por isso unido".

Na carta, ela diz que foi ameaçada e que teme pela família. “Eu tentava a todo custo me afastar e me desvincular dele, mas fui diversas vezes ameaçada e minha família também".

Defesa nega
A defesa de Jairinho divulgou nota em que diz que a carta de Monique é uma "peça de ficção".  "Sem falar sobre a tese da defesa, o que somente farei após a denúncia, posso adiantar que a carta da Monique é uma peça de ficção, que não encontra apoio algum nos elementos de prova carreados aos autos", diz a nota encaminhada pelo advogado Braz Sant'Anna.

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