Memória do período colonial ameaçada: Igreja das Neves corre risco de desabar

salvador
24.01.2022, 05:01:00
(Foto: Sora Maia/CORREIO)

Memória do período colonial ameaçada: Igreja das Neves corre risco de desabar

Templo construído em 1552, na Ilha de Maré, está caindo aos pedaços e preocupa moradores

O barco atraca na Praia das Neves e a comissão de passageiros logo se dirige ao primeiro destino: a Igreja de Nossa Senhora das Neves, casa da padroeira da Ilha de Maré. Mas dão de cara com as portas fechadas e o que resta é fazer fotos, vídeos e selfies do lado de fora. É que a capela, construída em 1552, está, verdadeiramente, caindo aos pedaços. O telhado e uma parte da parede da sacristia já foram abaixo e o elevado da área principal está interditado porque ameaça desabar. 

“A cada dia que passa a gente vê a igreja se acabando mais. Para a gente como morador, que frequenta desde criança, é triste, muito triste. A gente quer assistir a uma missa ali e não pode, só tem de vez em quando, aí acabamos indo para outras igrejas da ilha. Mas queríamos mesmo era ir à das Neves porque é a matriz, é onde está a nossa padroeira”, diz Lurdes Rufino, 67 anos, que nasceu na Ilha de Maré. 

Por falta de manutenção, plantas tomam conta de parte da fachada do templo (Foto: Sora Maia/CORREIO)

Mariléia e Cláudia abriram a igreja para nossa equipe. Elas fazem parte do grupo de oito mulheres que se revezam nos cuidados com o local, como limpeza, organização e abertura. “Todas as quintas-feiras a gente vem aqui rezar o terço, aí abrimos a igreja. E temos missa uma vez ao mês que o diácono vem de Salvador para cá celebrar. Fora isso, só ocasiões especiais. Normalmente, deixamos fechada porque não tem segurança em nenhum sentido da palavra”, diz Mariléia Aquino, 41.

A capela é singela, sem ostentações. São apenas seis bancos frágeis dispostos diante do altar, que apresenta falhas de estrutura. As paredes têm sinais de infiltração e pedem pintura. No teto, os desenhos originais são irreconhecíveis. Fios que sustentam uma iluminação tímida atravessam a igreja de um lado a outro. Mas o capricho e carinho de quem cuida do local são inegáveis.

As imagens de Nossa Senhora Aparecida, Nossa Senhora das Neves, Santa Terezinha e São José estavam limpas e conservadas e, diante delas, arranjos de flores vistosas. Panos brancos e sacos de lixo cobriam os demais artefatos para protegê-los da poeira. No canto, um presépio ainda estava armado, rodeado de uma folhagem natural. 

Moradoras da Ilha de Maré, fiéis atuam como guardiães do templo (Foto: Sora Maia/CORREIO)

Mariléia, ou Léia, como prefere ser chamada, mora em Ilha de Maré desde que nasceu e conta que, até onde sua memória alcança, o local já estava deteriorado. “Desde que eu me entendo por gente essa igreja está desse jeito. No coro mesmo, eu nunca vi ninguém subir, mas minha mãe diz que na época dela era lá onde as crianças ficavam para cantar nas missas. E não tem mais condição disso, está para cair. A gente vem aqui se apegando na fé de que ela [Nossa Senhora das Neves] não vai deixar que caia”.

Léia, assim como seus irmãos, foi batizada na Igreja de Nossa Senhora das Neves.

“Na verdade, praticamente a ilha toda foi porque é a igreja matriz, é a igreja da nossa padroeira. Por mais que existam outras seis igrejas na ilha, essa é a principal. É um apego muito grande que a gente tem. Somos nós moradores que nos juntamos, por exemplo, para pagar as contas de água e luz e comprar os materiais de manutenção”, conta. 

Quando o telhado e pedaços da parede da sacristia foram abaixo, o grupo de oito mulheres pediu ajuda dos moradores através das redes sociais para arrecadar dinheiro para o conserto. Elas conseguiram comprar material e pagar a mão de obra. O que não falta é força de vontade dos moradores para deixar a igreja impecável como na época de sua construção, mas o impasse é o seu tombamento. 

Altar e teto da igreja têm infiltrações que comprometem sustentação do altar, onde ficam imagens sacras (Foto: Sora Maia/CORREIO)

Apenas a parte da sacristia não é tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e, por isso, pode ser reparada. O restante, pelas regras, só pode ser reforçado pelo próprio instituto. Os moradores contam que, há algumas décadas, um morador que hoje já é falecido se ofereceu para arcar com os custos da reforma e até iniciou o projeto, mas foi notificado para parar.

Albérico Soares, 81, é um dos moradores mais antigos da Ilha de Maré e se diz frustrado com a situação em que a igreja se encontra.

“Eu nunca vi fazerem reforma ali dentro. Nunca vi nem pintarem o altar. É um abandono mesmo. A igreja já foi até roubada na década de 1970, levaram as imagens, inclusive a de Nossa Senhora das Neves. A gente se mobilizou e conseguimos achar em São Paulo e aí trouxemos de volta. Ela até ficou aqui em casa guardada enquanto o pessoal consertava a porta que foi arrombada no roubo”, conta. 

Devoto de Nossa Senhora das Neves, seu Berico, como é conhecido, se emociona ao falar da matriz. “Meu sonho é ver essa igreja toda reformada no próximo dia 5 de agosto [dia de Nossa Senhora das Neves]. Para ela e a gente termos uma festa linda. Eu fico até arrepiado só de pensar. Eu fazia missa lá todo ano no meu aniversário. Não vejo a hora de poder fazer isso de novo com a igreja linda. Antes de morrer, eu quero alcançar essa graça”, acrescenta. 

Morador e devoto sonha com recuperação de igreja até o dia de Nossa Senhora das Neves, em agosto (Foto: Sora Maia/CORREIO)

Léia conta que o dia 5 de agosto é especial para os moradores de Ilha de Maré e que, na verdade, as comemorações começam bem antes. “Começamos com um novenário dia 28 de julho, que vai até o dia 5 de agosto. No dia 4 tem a procissão marítima, e no dia 5 tem a missa festiva em homenagem à nossa padroeira”, explica. 

Quais providências estão sendo tomadas?
Atualmente, tramita no Iphan a elaboração e aprovação de um projeto executivo de arquitetura, engenharia e restauração para a Igreja de Nossa Senhora das Neves. O documento traz a descrição da situação do local: "O monumento apresenta uma série de patologias em função do seu mau estado de conservação e manutenção, que vem a comprometer a integridade do bem tombado. Destacam-se as extensas superfícies de espaços internos com desprendimento das camadas pictóricas e desagregação de reboco, a interdição do coro em função do comprometimento estrutural da madeira devido ao ataque de térmitas, presença constante de umidade e existência de fissuras nas alvenarias".

Equipe de reportagem teve acesso a templo, com ajuda de moradores (Foto: Sora Maia/CORREIO)

Ainda conforme o relatório, destaca-se também "o péssimo estado de conservação no qual se encontra o altar, com grandes áreas de lacuna, fissuras, rachaduras, perdas e alteração da policromia, além de sujidades generalizadas".

O padre Edilson Bispo, membro da Comissão Arquidiocesana de Bens Culturais da Igreja, justifica a demora.

“É uma igreja tombada, então o Iphan é o responsável pela reforma. Mas são muitas igrejas no Brasil todo precisando de restauração, aí temos essa demora. Entramos na fila há cerca de três anos. Por fora do Iphan, tentamos parcerias para arrecadar recursos, mas a prioridade é sempre para construção ou obras sociais”, declara.

O padre ainda acrescenta que mais igrejas da própria Ilha de Maré precisam de investimentos na recuperação. “Outras igrejas da ilha também estão precisando de reforma. São bastante antigas, em uma área de muito salitre, ou seja, os materiais corroem com muita facilidade. É preciso que haja sempre uma manutenção, mas não é o que acontece”, explica Bispo. 

Padre explica que pedido de recuperação já foi protocolado no Iphan, mas está 'na fila' (Foto: Sora Maia/CORREIO)

Em nota, o Iphan disse que foi informado sobre o estado de deterioração da igreja em agosto de 2019 e que, em setembro do mesmo ano, equipes do órgão estiveram no local. "Foi elaborado Termo de Referência para contratação dos projetos executivos de arquitetura, engenharia e restauração".

Apesar do termo estar pronto, o Iphan informou que não há previsão para início das obras porque não há recursos financeiros disponíveis no momento. A obra foi orçada em R$ 143.265,07 em 2019, mas o Iphan diz que o valor precisa ser atualizado. 

A história da Igreja de Nossa Senhora das Neves
A Igreja de Nossa Senhora das Neves é uma das mais antigas do Brasil, inaugurada em 1552. O responsável pela construção foi Bartolomeu Fernandes Pires, que possuía um engenho de açúcar no local. Em 1587, a capela foi mencionada pelo historiador Gabriel Soares relacionando-a ao engenho de André Fernandes Margalho. Bartolomeu e André eram militares que possuíam engenho em Ilha de Maré. A estrutura foi tombada pelo Iphan em 1958. 

A Capela de Nossa Senhora das Neves possui uma planta bem simples, com característica arquitetônica religiosa das capelas românicas italianas dos séculos XII e XIII que até o século XIV ainda era muito comum em Portugal. Desta época subsistem o corpo central, com nave única e capela mor.

Templo foi construído apenas três anos após a fundação de Salvador (Foto: Sora Maia/CORREIO)

Parte mais antiga da igreja, a nave é construída em alvenaria de pedra e recoberta por abóbada de berço também de pedra. A capela-mor é do tipo absidal. Posteriormente, o corpo central ganhou corredores laterais em alvenaria de tijolo. 

Segundo o professor de História da Arte Luiz Alberto Freire, da Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia (Ufba), a Igreja Católica se associou às potências coloniais, tendo como objetivo, principalmente, “inculcar nas populações os valores cristãos, que eram os valores do capitalismo mercantil das monarquias europeias”.

“Cada senhor de engenho precisava de um templo nas suas terras para os próprios exercícios da sua religião, que na época começou a ser dividida pelos protestantes, e catequizar os ameríndios e os africanos, mantendo-os sob o controle da ideologia colonial, assim aceitavam a submissão com maior resignação”, diz Freire. 

O professor lamenta a falta de interesse da população em preservar o patrimônio cultural brasileiro e a incapacidade da Igreja de cuidar da imensidão que se configura seu patrimônio cultural. 

Igreja fica na famosa Praia das Neves e é ponto de visita de turistas, que costumam tirar fotos nas cercanias do templo
Igreja fica na famosa Praia das Neves e é ponto de visita de turistas, que costumam tirar fotos nas cercanias do templo (Foto: Sora Maia/CORREIO)
(Foto: Sora Maia/CORREIO)
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(Foto: Sora Maia/CORREIO)
(Foto: Sora Maia/CORREIO)

“Não há envolvimento da comunidade com a questão e a Igreja não tem logística para cuidado da imensidão do patrimônio cultural sob sua tutela. Uma educação débil e negligenciada também concorre para a indiferença da população. Há também um interesse oficial para a ruína desse patrimônio, para que ele seja depois restaurado a custos altos pelas empreiteiras da construção civil. Restauros esses que têm sido, via de regra, temerários. A esperança é que a necessidade financeira ligada às demandas turísticas influenciem na preservação e conservação desse patrimônio”, finaliza Freire. 

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