Mês mortífero: número de mortes em março foi 60% maior do que antes da pandemia

coronavírus
25.04.2021, 11:00:00
Perdas se tornaram mais frequente na vida do brasileiro (Miguel SCHINCARIOL/AFP/Arquivo)

Mês mortífero: número de mortes em março foi 60% maior do que antes da pandemia

Média diária de óbitos no mês mais letal da pandemia só seria alcançada, segundo projeções do IBGE, entre 2025 e 2026

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Embora muito organizada e implacável, a morte era invisível. Todos os dias, uma ficha com o nome de um ou mais habitantes de um país fictício – descrito pelo escritor português José Saramago no livro As Intermitências da Morte – era retirada de um armário criteriosamente organizado: sinal de que o dia daquelas pessoas havia chegado. Morrer faz parte da vida, mas na obra de Saramago, as pessoas só se deram conta de uma presença tão palpável da morte quando ela decidiu dar um tempo: por sete meses, ninguém morreu. No Brasil, após um ano de pandemia, a morte, tão rotineira e quase sempre um tabu, conseguiu chamar a atenção para si pela razão inversa. 

As pessoas estão morrendo mais, muito mais do que se esperava antes da pandemia. No caso da Bahia, só em março deste ano, se morreu diariamente quase 60% a mais, em média, do que se morria no mesmo mês antes do coronavírus. Março de 2021 tem sido, por enquanto, o mês com número recorde de óbitos por covid-19 no Brasil – e não é diferente na Bahia, onde 2.766 óbitos pela doença foram registrados em cartórios do estado. Isso, obviamente, fez aumentar em muito o número geral de mortes por aqui. Há dois anos, em março de 2019, a Bahia tinha em média 200 mortes diariamente, segundo dados das Estatísticas do Registro Civil do IBGE. Dois anos depois, em março de 2021, a média a média saltou para 319,7 mortes por dia. 

(CORREIO Gráficos)
(CORREIO Gráficos)

São quase 10 mil vidas perdidas em apenas 31 dias – 13 por hora. Não é possível dizer em que ano teríamos essa mesma quantidade de mortes diárias no mês de março, já que as projeções de mortalidade do IBGE são feitas levando em consideração um ano inteiro. Mas, dá para dizer que essa média já ultrapassou a prevista para 2025 (316,5) e está bem próxima da que era esperada, segundo dados do IBGE, para 2026, de 321,2 mortes por dia. Para o físico Humberto Ribeiro de Souza, membro da Rede Análise Covid-19, observar essa média, mesmo que anual, é uma boa maneira de se alertar para o que pode acontecer se nós não tomarmos cuidado – e, ainda, de como as mortes por covid-19 causam impacto na população. 

Luto coletivo 
É um impacto em termos numéricos, sem dúvidas, mas também de ordem psicológica, sobre como encaramos e passamos a lidar com uma morte que agora se apresenta de forma muito mais escancarada. “Antes, morriam 200 pessoas por dia, mas numa perspectiva invisibilizada. A morte, de um modo geral, era tabu e a gente não se dava muita conta disso, a não ser que tivesse uma perda pessoal”, explica Ana Clara Bittencourt Bastos, psicóloga especialista em luto, doutora em Psicologia do Desenvolvimento e professora universitária.  

“É como se a morte fosse mesmo algo invisível que a gente só se depara quando ela está do nosso lado. A pandemia traz outro cenário, a morte invade as nossas casas, entra na nossa vida, mesmo que a gente não queira”, completa. 

De repente, números de mortes começaram a aparecer diariamente nos jornais, na TV, nas redes sociais. E muitas pessoas, mesmo que não pensem que podem ser as próximas da fila, se colocam no lugar de quem sofre com as perdas – e temem também perder os seus entes queridos. “Você, sendo filha, se coloca no lugar de quem perdeu a mãe para a covid-19. Pensa: ‘minha mãe tem a mesma idade, uma história parecida...’. A gente vai se identificando com as histórias e vivendo essa realidade. Estamos todos vivendo a mesma tempestade, cada um no seu barco. É um luto compartilhado”, observa Ana Clara. 

Perder alguém já provoca uma dor intensa. Mas, neste contexto, desperta outros sentimentos, como ansiedade, medo. “Quando a gente perde alguém, a gente fica pior. A gente pensa: ‘eu já perdi alguém importante, eu não dou conta de perder outra pessoa’. Tem pessoas que perdem dois, três, quatro familiares nesse contexto”, afirma. Na Bahia, pelo menos duas histórias assim foram noticiadas: em Brumado, cinco pessoas da mesma família morreram num intervalo de 23 dias. Em Ilhéus, em março, foram três pessoas da mesma família. 

Muitos anos em um 
No Brasil, o aumento no número de mortes chama ainda mais atenção do que o cenário na Bahia: antes da pandemia, a média de óbitos por dia nos meses de março ficava entre 3 mil e 3,4 mil, segundo dados das Estatísticas do Registro Civil do IBGE. Em março de 2021, essa média chegou a 5,9 mil diariamente, o que significa que a doença antecipou a morte de pessoas que, pelas projeções de mortalidade feitas em 2018 – sem levar em conta que haveria uma pandemia –, provavelmente não morreriam tão cedo.  

Levando em conta os dados dos anos inteiros, a média diária nacional saltou de 3,6 mil mortes por dia em 2019 para pouco mais de 5 mil em 2021, até o momento. O número quase dobrou em dois anos, quando a tendência, segundo cálculos feitos por Humberto Ribeiro de Souza, a pedido do CORREIO, era que isso só acontecesse a cada 36 anos. Ou seja: se o Brasil teve, em média, 3,6 mil mortes diárias em 2019, essa média só deveria chegar a 7,2 mil em 2055. Infelizmente, estamos bem perto disso, e ainda é 2021. 

“Isso é temporário, pois assim que a letalidade da covid comece a cair quando grande parte da população estiver vacinada, a tendência é retornar para os valores anteriores. Mas, essas medidas servem bem para mostrar o impacto que a pandemia tem sobre a população, que não tem familiaridade com a mortalidade do país e não percebeu o que é ter quase 200 mil mortes (de covid) a mais em apenas quatro meses do ano”, aponta Humberto.  

E ainda há uma defasagem nos números de fato registrados, frente às projeções. Uma das razões para isso é que, no Brasil, há uma taxa de sub-registro de óbitos de 4%. Na Bahia, esta taxa sobe para 7,15%, segundo o IBGE. É um percentual que indica um quantitativo de pessoas que não têm suas mortes registradas oficialmente em cartório. Para se ter uma ideia da defasagem nos números, o IBGE havia projetado 108 mil mortes de causas variadas na Bahia em 2020, mas os registros em cartório somam pouco mais de 92 mil – e eles ainda seguem sendo atualizados diariamente. Ou seja, a tendência é que este número referente a 2020 ainda cresça. 

Também a pedido do CORREIO, a doutora em Matemática Juliane Oliveira, pesquisadora do Cidacs/Fiocruz, estimou qual seria um número de mortalidade mais próximo do real em 2020, fazendo uma correção sobre os valores projetados pelo IBGE e os valores reais contabilizados pelos cartórios de Registro Civil. Os cálculos apontaram que, em 2020, mortalidade esperada para a Bahia, seria próxima de 87.360. Já o número total registrado, considerando os erros, por volta de 102 mil.  

“Você tem um aumento de cerca de 17,8% da mortalidade na Bahia em 2020, com relação ao que era esperado, e esse é o impacto que a gente projeta da covid-19 na mortalidade do estado. E 2021 será muito pior”, analisa Juliane. Considerando o aumento já visto nas médias diárias de morte no mês de março, a pesquisadora vê, também, um cenário bastante grave. 

“Se a média diária de mortes, mesmo subnotificada, já ultrapassou as expectativas em um limite que superestima um pouco esses registros, isso mostra como a covid-19 está impactando muito na mortalidade. É um cenário desastroso”, comenta Juliane.

Especificidades da covid 
As mortes, ainda rotineiras, mas agora e maior volume e menos invisibilizadas, estão sendo sentidas de forma diferente. É que a morte, dentro da pandemia, tem algumas especificidades, segundo a psicóloga Ana Clara Bittencourt Bastos. “É uma nova forma de morrer. Começa por uma morte solitária, a pessoa não pode ter uma família ali perto, alguém para orientar, para cuidar. Aqui na Bahia, a gente tem a cultura do chamego, de abraçar, de ficar junto, e tudo isso está sendo modificado”, pontua. 

Os rituais de despedida também mudam, e não só para quem morre de covid. “Não é só enterrar. Esses rituais têm uma função que é de se deparar com a realidade da perda, de compartilhar aquele momento com outras pessoas, de homenagear e de se despedir da pessoa que morreu. Isso passa pela escolha da roupa, dos detalhes, das flores. Tudo isso traz um conforto para aquela dor que, agora, a gente também está precisando ressignificar, porque não pode aglomerar, não pode se juntar. Se tem feito despedidas online, mas é uma adaptação que não é fácil”, diz. 

Um número tão grande e tão frequente de perdas ainda passa por outras questões sociais, como a perda dos contatos sociais, financeiras e pessoais. Todo o contexto, para a psicóloga, nos leva a refletir e a enfrentar sentimentos como medo, culpa, raiva, tristeza, um turbilhão de emoções difícil de lidar. 

“A pandemia nos traz um tipo de morte que é abrupta, repentina. Se tem essa sensação de que ela é uma morte aleatória e evitável. Esse caráter evitável traz muita dor e muito impacto porque traz uma responsabilidade e um estigma com a doença. As pessoas sentem vergonha de falar que contraíram a covid e de dizer que levaram para casa e contaminaram alguém”, finaliza. 

Previsões sombrias 
Dados divulgados pelo ministério da saúde colocam 8 de abril de 2021 como o dia com número recorde de mortes por covid-19 no país: foram 4.249 óbitos em apenas 24 horas. Na Bahia, o recorde é do dia anterior, 7 de abril, com 189 mortes em um único dia. Por aqui, dados do Portal Geocovid, conduzido por cientistas da Universidade Estadual de Feira de Santana, estimam que a Bahia tenha, em média, mais 100 óbitos por dia até o dia 20 de junho, considerando a atual taxa de contágio.

Já uma pesquisa produzida pelo Departamento de Estatística da Universidade Federal Fluminense (UFF) prevê que, até a metade de maio, o Brasil atinja o pico de 5 mil mortes por covid-19 em um único dia. O número é apontado por Márcio Watanabe, pós-doutor em Epidemiologia e membro do Departamento de Estatística da UFF. 

“A gente está se aproximando desse pico e depois de atingido esse pico, começa uma tendência de queda, que pode ser mais lenta do que a gente esperava. O que a gente esperava é que a partir da segunda quinzena de maio os óbitos começassem a cair”, aponta. Pelo grande volume de mortes pela doença, – 383.502 até o dia 22 de abril – Watanabe acredita que é possível que, em 2021, a covid-19 ultrapasse o câncer e as doenças cardíacas como a principal causa de mortes no Brasil. 

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