Mesmo em dificuldade, blocos afros vão ao Campo Grande

carnaval
26.02.2017, 02:40:00

Mesmo em dificuldade, blocos afros vão ao Campo Grande

Muzenza, Malê Debalê e Bankoma foram algumas das instituições que desfilaram no Circuito Osmar neste sábado (26)

Os blocos afros de Salvador sempre registraram dificuldades financeiras para levar seu desfiles às ruas, mas neste ano, especialmente, a situação está mais complicada. Ainda assim, bravamente, eles animaram a noite do Circuito Osmar (Campo Grande) neste sábado (26) à noite. 

O Malê Debalê, que completa 38 anos em março, reduziu o número de participantes à metade, devido à queda de apoio financeiro. "Em ano de crise é assim: quem tem mil, perde quinhentos e fica com quinhentos. Mas, no nosso caso, que já tinha quinhentos, perde quinhentos e fica sem nada", disse Miguel Arcanjo, vice-presidente da institução, pouco antes de o Malê entrar na avenida.

O bloco, que costuma desfilar com até três mil integrantes, neste ano foi reduzido à metade, segundo Arcanjo. O maior motivo foi o patrocínio reduzido, de acordo com o vice-presidente: "Nós recebemos patrocínios fantasiosos: o dinheiro só entra depois do Carnaval ou muito 'em cima'. O dinheiro caiu na quinta-feira (23), de Carnaval, mas nem tinha como tirar. Como vou fazer para pagar segurança e pessoal de apoio? Eles querem receber adiantado. O patrocínio tinha que ter saído em outubro ou novembro", diz Arcanjo, em referência ao Projeto Ouro Negro, que pretende manter a visibilidade dos blocos afros e é mantido pelo Governo do Estado. 

Muzenza
O Muzenza, que também foi às ruas neste sábado (26), relatou as mesma dificuldades. "Como pode um bloco gastar R$ 510 mil para ir às ruas e só receber R$ 170 mil de patrocínio?", questiona Geraldo Miranda, presidente do Conselho do Muzenza. "Este bloco, que simboliza a liberdade da Bahia, não consegue nem cobrir suas despesas. Tínhamos 2 a 2,5 mil integrantes pr Carnaval. Neste ano, foram só mil fantasias".

Mesmo com problemas, Malê, Muzenza e um outro tradicional afro, o Bankoma animaram a noite do Campo Grande. Pai Ducho do Ogum, que estava no Bankoma, lembrou a relação do bloco com o candomblé: "A gente saúda os ancestrais antes de sair e faz todas as obrigações no terreiro". Pai Ducho do Ogum disse que sai no bloco junto com sua ialorixá e os filhos de santo do terreiro dele, Terreiro Ilê Axé Awa Ngy.

Adson Freitas Júnior, 25 anos, sai no Muzenza há quatro anos e neste sábado estava acompanhado de diversos familiares para desfilar. "O Muzenza é que nem Ivete na Barra: não deixa ninguém de fora. Comecei no bloco junto com meus avós e pais. Agora, trago meu filho, meu sobrinho, minha esposa, minha cunhada... E temos que dar força aos blocos afros da Bahia, porque são eles que valorizam a música da Bahia".

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