'Minha vida não vale mais nada', desabafa pai de tenente morto em Cosme de Farias

salvador
13.09.2021, 19:23:00
Atualizado: 13.09.2021, 23:04:49
(Foto: Nara Gentil)

'Minha vida não vale mais nada', desabafa pai de tenente morto em Cosme de Farias

Enterro do policial no Cemitério Bosque da Paz reuniu mais de 100 amigos e familiares

A despedida do tenente da Polícia Militar da Bahia (PM-BA) Mateus Grec de Carvalho Marinho, 35 anos, foi marcada por muita emoção e discursos dos familiares. O enterro aconteceu nesta segunda-feira (13), no Cemitério Bosque da Paz, que estava lotado. 

"Antes de ser policial, era meu filho, meu único filho, meu orgulho. Rui Costa você matou meu direito de viver. Hoje minha vida não vale mais nada. Você tirou tudo de mim", desabafou o pai do tenente, Everaldo Marinho.

Muito abalado, ele culpou o "fraco armamento" que dão aos policiais pela morte do filho. "Morreu mais um policial e as coisas estão dessa forma, sem resposta. Quando o governador for morto, aí acaba [a impunidade]. Enquanto é policial, nada acontece. Morre todo dia um policial e não dá em nada. Hoje, foi meu filho. Amanhã, pode ser outro, assim como já foram tantos", lamentou. 

Nem o estacionamento do local teve capacidade de acolher todos os veículos de quem foi se despedir do policial, que morreu após ser baleado na região do tórax na noite de domingo (12), durante um tiroteio em Cosme de Farias.

Do lado de fora, carros se espremiam em busca de vagas e ocupavam até o acostamento da rua que dá acesso ao local. Na parte de dentro, mais de 100 pessoas emocionadas se despedindo do PM. O sentimento geral era de consternação. Muito abalados com a perda precoce familiares e amigos não conseguiam falar sobre a morte.  

Na beira do túmulo, pai de tenente mostrou indignação (Foto: Wendel de Novais/CORREIO)

O pai de Grec fez um longo desabafo sobre a perda do único filho. Além de acusar o Governo do Estado de omissão em casos como o do tenente, disse que criminosos estão mais bem armados do que os agentes de segurança pública do estado.

"A minha voz não vai se calar. Meu filho morreu como muitos estão morrendo por omissão do Governo. Meu filho quem matou foi o Governo do Estado, que deixa os bandidos mais aparelhados do que a própria polícia. Policiais estão trabalhando de arma ponto 40 e bandido com fuzil. Eles não têm chance e não param de perder colegas de luta", declarou Everaldo

Corporação de luto
Os colegas do tenente também foram ao cemitério para prestar condolências. O volume de pessoas fardadas no Bosque da Paz chamava a atenção. Do lado de fora ou de dentro da capela, os colegas de farda choraram e gritaram palavras de ordem da corporação. Na hora em que o corpo estava sendo sepultado, uma policial tomou a frente. "Queremos homens vivos, comandante. E não heróis mortos", disse, sendo aplaudida.

Muitos policiais foram ao sepultamento de Grec (Foto: Nara Gentil/CORREIO)

De acordo com a PM, o tiroteio que  matou Grec fez a Bahia chegar à marca de 17 militares mortos só em 2021. Para efeito comparativo, no ano passado, 13 policiais foram assassinados. Neste ano, entre os que faleceram, oito estavam trabalhando, cinco estavam de folga e quatro eram da reserva. Em 2020, apenas um foi morto durante o serviço, enquanto os outros estavam de folga quando morreram.

Por meio de nota, a Associação dos Oficiais Militares Estaduais da Bahia usou uma das últimas publicações de Grec - em que o tenente divulga a apreensão de um fuzil - para falar do forte armamento dos criminosos e pediu respostas das autoridades de segurança pública do estado.  "A associação [...] dá voz ao clamor que não é só do Tenente Grec, mas de todos os militares estaduais baianos que anseiam por uma corporação melhor, acreditando que esta saberá dar a resposta adequada dentro dos limites legais contra esta agressão que não se limita a um integrante da Polícia Militar da Bahia, mas de toda a sociedade baiana", escreveu.
 
Escalada de violência
No entanto, a resposta dentro dos limites legais não deve ser a tendência nos desdobramentos por conta da morte do tenente. Principalmente, se for considerado o histórico de reações a casos parecidos, como lembra Sandro Cabral, professor da Universidade Federal da Bahia (Ufba) em estratégia no setor público e autor de diversos trabalhos na área de segurança pública. "Toda vez que você tem a morte de um policial, ela é seguida de uma retaliação de escalada violenta. Se for olhar padrões históricos de forças policiais, na Bahia, no Brasil e no Mundo, policiais tendem a exercer uma vingança. É de se esperar uma reação em função do que já teve no passado. Gera um sentimento de indignação e não é improvável que se tenha retaliações", pontuou.

Sobre as estratégias para reduzir o número de policiais mortos em confronto e evitar casos como o de Grec, Cabral afirma que há uma série de ações que podem ser realizadas e cita algumas. "Política pública se faz com base em evidência, olhando os números, tentando entender as motivações dos crimes e de onde vem as armas [na mão dos criminosos]. Também é necessário verificar o que pode ser melhorado nas abordagens para colocar os policiais em situações mais seguras e fazer o uso maior de inteligência para evitar confrontos armados", indicou. 

"Colega exemplar"
Grec era lotado na Rondesp Atlântico e estava na PM há cerca de 8 anos. Em nota, a PM lamentou a sua morte. Pela consternação e o choro de muitos dos seus colegas que preferiram manter o silêncio, o tenente era admirado por muitos. Seu pai, no momento em que o corpo descia para a sepultura, falou sobre isso. 

Grec é descrito como um colega exemplar na PM (Foto: Nara Gentil/CORREIO)

"Todos que trabalharam com meu filho, na hora de falar dele, elogiaram a conduta e o seu caráter. Era um colega exemplar. Ele foi criado na ética e nos bons costumes. Formado em Direito e decidiu ir para a polícia militar. Disse para mim que, se nascesse de novo, ainda seria policial", falou Everaldo, ressaltando a paixão e dedicação de Grec pelas forças policiais.

Em nota, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) reforça que, "na história  da Bahia, nunca se investiu tanto em equipamento de proteção individual policial. Nos últimos quatro anos, foram mais de R$ 40 milhões aplicados na aquisição de armamentos, entre fuzis, espingardas e pistolas, entre elas, as pistolas G22 da Glock, consideradas uma das mais seguras do mundo, e coletes".

A nota enfatiza ainda que, "graças ao alto número de investimentos é possível promover carga individual para cada profissional da Segurança Pública, garantindo a todo policial e bombeiro armamento próprio, mesmo quando está de folga".

*Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro

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