Miocardite: coração inflamado leva três baianos por mês ao hospital

saúde
18.08.2019, 05:18:00

Miocardite: coração inflamado leva três baianos por mês ao hospital

Inflamação é causada predominantemente pela ação de vírus; entenda o que é a doença

O coração funciona a partir de uma equação exata entre contração e relaxamento. A parte do músculo chamada miocárdio é quem garante o bombeamento de sangue para o corpo. Qualquer descompasso é capaz de impedir os batimentos. Tudo pode começar numa gripe, cujo vírus pode circular livremente até escolher o coração como destino. A resposta do corpo inflama o músculo a ponto de impedir a respiração. A Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab) estima que a inflamação no coração, chamada miocardite, leve três baianos por mês ao hospital.

Como qualquer outro músculo, o coração pode inflamar - uma reação do organismo a uma infecção ou lesões. É mais rara, no entanto, pois diferentemente de outros músculos, o coração está protegido por uma caixa torácica que impede, por exemplo, pancadas e outras interferências externas. 

“Mas o coração é um órgão estranho. Quando temos uma inflamação no músculo, ele não mexe a perna, o braço. Já o coração não pode ficar em repouso”, explica o cardiologista Gilson Soares Feitosa-Filho.

A inflamação é causada predominantemente pela ação de vírus, sobretudo ligados às funções respiratórias, pela proximidade de pulmão e coração. No momento de uma inspiração profunda, o revestimento do pulmão chega a tocar o revestimento do coração. Os vírus circulam livremente e, ao escolher o coração, desregulam os dois principais movimentos: a diástole e a sístole. A ação de bactérias também pode inflamar o miocárdio.

Nos últimos sete anos, 251 pessoas foram internadas e 48 pessoas morreram vítimas de miocardites no estado, ainda de acordo com a Sesab. Somente neste ano, foram 23 internações provocadas diretamente por miocardite. A inflamação impede a contração, cientificamente chamada de diástole, e o relaxamento, sístole. Tudo acontece na parte mais pesada do órgão, o miocárdio. A situação mais comum costuma ser a seguinte: uma pessoa jovem chega ao hospital com dores no peito dias ou semanas depois de uma infecção.

A hipótese é de que justamente a rapidez da resposta imunológica dos jovens seja um dos algozes. O corpo tenta combater naturalmente a presença de um corpo estranho. No combate, começam as reações contrárias. 

“A reação a esses corpos estranhos talvez justifique. É bom ser jovem, é bom ter resposta imunológica intensa, mas para isso especificamente... Em transplante, é comum também”, diz Gilson. 

Dois jovens baianos não resistiram à inflamação no coração e morreram num intervalo de dois meses. No último dia 9, o médico Gustavo de Oliveira Grangeiro, de apenas 27 anos, faleceu. A suspeita principal é de que tenha sido vítima de miocardite. A família simplesmente não consegue entender como, depois de uma gripe, sem nenhum sinal aparente de outros sintomas, o baiano morreu. Os órgãos interromperam a ação aos poucos, um a um. No mês de junho, o publicitário Léo Spinola, morreu vítima de uma infecção generalizada. Ele tinha sido diagnosticado com uma miocardite que evoluiu para um quadro de insuficiência renal e hepática.

Mas como, e por que, os vírus chegam até o miocárdio e como identificá-los antes que as sequelas possam ser evitadas? A pergunta, depois, é: como fazer o coração voltar a bater normalmente e frear a rota do vírus até o órgão de onde sai o combustível para a sobrevivência? 

A rota do vírus
A miocardite opera no imprevisível. O paciente pode não sentir nada, e ainda assim, ter uma inflamação no miocárdio. O coxsackie, citomegalovírus, parvovírus B19 são alguns dos vírus que atacam o coração. A dificuldade está em determinar a existência deles antes da piora do quadro clínico, já que é possível ter uma inflamação no coração sem nenhum comprometimento cardiovascular. As suspeitas, quando existem, são testadas por três procedimentos.

Primeiro, o histórico do paciente mostrará se houve virose nos últimos 15 dias. Depois, um eletrocardiograma, exame com eletrodos que avalia os batimentos cardíacos em repouso, faz um detalhamento sobre o coração. A elevação de enzimas é o segundo indício de uma possível miocardite. Dois exames de imagem, ecocardiograma e ressonância, também são utilizados. “São marcadores de que há alguma agressão. A sorologia é realizada porque há vírus comuns. Você colhe para pesquisa futura. Isso não vai adiantar muito, mas para fazer uma análise retroativa do que pode causar”, diz o médico Fábio Soares.

A miocardite é associada a três fases: a aguda, quando a manifestação de sintomas é mais aparente; a subaguda, com manifestações mais leves; e a crônica, o estado considerado mais grave. Os sintomas variam de paciente a paciente, mas costuma haver um padrão: dores no peito e cansaço são dois deles, como relataram os médicos ouvidos pelo CORREIO.

“Quando é que o coração dói? Quando não chega sangue o suficiente, quando há interrupção do sangue. E quando há uma inflamação, isso pode causar dor também”, analisa Fábio.

As possíveis causas da ida do vírus para o miocárdio são discutidas pelos médicos. Eles tentam entender por que a inflamação pode se tornar tão grave a ponto de ser letal. “O tempo de circulação do vírus depende do vírus e do paciente. Pode haver uma vulnerabilidade no paciente. Uma resposta muito forte do organismo, por exemplo, pode causar morte do vírus e outras células”, justifica o infectologista Carlos Brites. Depois do diagnóstico, a noção de evolução ou não da inflamação é, em média, de dois dias. Nesse momento, o paciente já deve estar internado. 

Como o coração não pode repousar, mas é necessário fazê-lo retomar o trabalho usual, o tratamento consiste no uso de medicamentos ricos em imunoglobulina. O composto é quem tenta administrar a circulação de sangue e neutralizar a presença de bactérias e vírus. O repouso é outro aliado para tentar colocar o coração em seu ritmo natural. Nos casos de miocardite, o coração bate em metade da sua capacidade. O órgão de um adulto saudável bate de 60 a 90 vezes por minuto. 

“O tratamento geralmente é mais sintomático, para a tirar a dor. O paciente precisa estar bem hidratado, ser acompanhado, ficar em respouso”, explica Gilson Feitosa-Filho. 

Miocardite em crianças
Há três meses, um bebê de um ano tenta tirar a dor que quase fez seu coração parar. Dez dias depois de uma gripe, os sinais de cansaço no pequeno Asase, 1 ano, começaram a ficar visíveis. O menino já não tinha a mesma disposição, faltava até apetite. Foram 14 dias seguidos de idas e voltas ao hospital para descobrir o que não ia bem. A família não tinha nenhuma ocorrência de doenças cardiovasculares.

No último exame, em junho, ainda em Porto Seguro, os médicos confirmaram que as manchas nos pulmões e o fígado alterado podiam significar um problema no coração, que batia com a metade de sua capacidade. O menino precisou ser transferido para Salvador, onde seguiu a busca pelo diagnóstico. Somente há 20 dias, veio a confirmação: o miocárdio esquerdo de Asase estava inflamado.  

O bebê está internado no Martagão Gesteira desde então. A medicação consegue ajustar o descompasso no peito de Asase, mas a inflamação continua. A principal foi o uso de imunoglobina.

“Não tem ninguém cardiopata na família, nunca tive nenhum tipo de descompensação. Foram 15 dias indo e voltando. Até de anemia falaram...”, lembra a mãe da criança, Valéria Rodrigues, 34.

A miocardite também afeta crianças como Asase. Quanto mais jovem, menor a reserva cardiovascular, o músculo cardíaco ainda não atingiu toda a potência. Um bebê, por exemplo, não tem o coração completamente pronto. No ano passado, somente no Martagão Gesteira, três crianças morreram sem resistir às complicações de uma miocardite. 

“Não tem como, imediatamente, suspeitar. Só quando os sintomas cardiovasculares começam a se manifestar, como insuficiência cardíaca leve, que pode passar despercebida", explica Mila Simões, cardiopediatra e coordenadora do Serviço de Cardiopediatria do Martagão. 

A inflamação atinge um músculo, portanto, ainda em formação. A disfunção torna-se ainda mais grave. "O que acontece: a miocardite causou um dano, como um acidente. Ficou a sequela lá no coração, a disfunção do coração, a incapacidade do coração bombear sangue com a força que deveria. Se essa disfunção for muito grave", afirma a médica. O diagnóstico é dificultado principalmente pela falta de suspeição. "Acaba que não é muito a rotina do médico. É uma questão de ter suspeitado". Mas o diagnóstico a tempo pode salvar vidas.

SINTOMAS

Arritmias e dificuldades para respirar
Inchaço nas pernas
Edemas
Perda de consciência
Dores na articulação
Febre
Diarreia
 

*Com supervisão da editora Mariana Rios


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