Moradores da Vila Brandão, Solar do Unhão e Gamboa de Baixo interditam praias para impedir contágio da covid-19

coronavírus
16.03.2021, 05:31:00
Atualizado: 16.03.2021, 13:02:56
(Foto: Paula Fróes/CORREIO)

Moradores da Vila Brandão, Solar do Unhão e Gamboa de Baixo interditam praias para impedir contágio da covid-19

Líderes comunitários afirmam que locais viraram destino de quem fura o lockdown

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Cansados de pedir aos banhistas para não irem às suas praias, moradores das comunidades do Solar do Unhão, Gamboa de Baixo e Vila Brandão resolveram fechar por conta própria o acesso ao mar em uma ação articulada entre as associações das três comunidades.

A ideia é impedir quem deseja desobedecer ao lockdown de entrar e de contaminar com o novo coronavírus quem vive nesses locais e está respeitando o isolamento social. Segundo contam pessoas que moram nas três localidades, os grupos de banhistas sequer cogitam colocar máscara e se aglomeram nas estreitas faixas de areia como se não existisse pandemia.

Barreira na Vila Brandão foi feita com grades de cama para evitar banhistas insistentes (Foto: Paula Fróes/CORREIO)

A autônoma Francislaine Santos, 22, moradora do Solar do Unhão, diz que está assustada com o movimento de banhistas. Ela apoia a instalação da barreira no local. Segundo Francislaine, o medo é tão grande que nem tem coragem de pôr a cara na rua já que pessoas de fora, em grupos e sem máscara, vivem passando por ali.

"Eu e minha menina ficamos 24 horas dentro de casa. Esse entra e sai de gente, com tudo que está acontecendo, deixa a gente preocupada. Aqui tem idoso, um grupo que precisa estar protegido. O povo vem em grupo de 4, 5 ou mais pessoas. E elas não respeitam, não querem sair quando pedimos, às vezes precisamos chamar a polícia", conta.

Francislaine não vai nem no passeio temendo encontro com visitantes sem máscara (Foto: Paula Fróes/CORREIO)

Na Vila Brandão, a situação é parecida. Muitas pessoas apareceram nas últimas semanas para tomar banho de mar e, segundo moradores, de grupo em grupo, de repente, a praia já contava com quase 50 banhistas. O movimento fez os moradores improvisarem uma barricada com uma tela e grades de cama para afastar os insistentes. 

André Silva, 56, pintor, nascido e criado na Vila, lembra que "o vírus está em todo lugar, todo mundo está pegando, então a gente tem que se cuidar, né? Instalar a barreira é se antecipar ao problema, prevenir para a saúde de todos nós. A gente ficar nessa situação do povo vir, trazer a doença, ir embora e a gente sobrar, não pode acontecer. Hoje em dia, nem quem tem dinheiro está conseguindo hospital. Então, precisa mesmo prevenir", afirma.

André é a favor das barreiras para que aglomerações não tragam vírus para a comunidade (Foto: Paula Fróes/CORREIO)

Na Gamboa de Baixo tem até faixa informando o fechamento das praias para visitantes. De acordo com Ana Caminha, líder comunitária do local, se a situação não mudar, barreiras também serão colocadas no local. "Nesse segundo momento, a gente percebe a necessidade de radicalizar, de não permitir a visita de banhistas. Estamos preocupados com a possibilidade de contágio. É uma questão de saúde, que põe a comunidade em risco. O povo ia para o MAM, mas depois da Guarda Municipal fiscalizar lá, passaram a vir em massa para cá. Precisamos fazer algo e um grupo de mulheres colocou a faixa na entrada principal. Mesmo assim, tem gente insistindo", lamenta.

Marcos Carmo, mais conhecido como Prisque, 38, grafiteiro e proprietário de um bar no Solar do Unhão, explica que todas as iniciativas que visam o bem da comunidade são pensadas em conjunto pela associação de moradores e proprietários de bares e restaurantes. “Então, essa preocupação vem da tentativa de colocar a comunidade em lugar seguro já que, de certa forma, a fiscalização nas nossas praias é mais difícil e o povo se aproveita disso. A nossa atitude vem para cuidar da gente já que quem vem não cuida nem de si, nem dos outros".

Faixa foi colocada na entrada principal da comunidade (Foto: Reprodução) 

Laís Araújo, 31, secretária da Associação de Moradores da Vila Brandão, conta que os moradores decidiram cerca a praia com material próprio para se proteger. “O que estava acontecendo é que idosos e crianças ficavam em casa por causa de quem é de fora, que não tem cuidado, não respeita a saúde de ninguém. Por isso, fizemos essa campanha de fechar as praias. Precisamos nos proteger, cuidar dos nossos e isso fica difícil com a presença de tanta gente que não respeita a pandemia e a vida dos outros".

Prisque afirma que barreiras são feitas para proteger comunidade (Foto: Paula Fróes/CORREIO)

A Guarda Civil Municipal (GCM) fez uma operação de fiscalização às praias de Salvador no fim de semana e registrou ocorrências na Preguiça e em Praia do Flamengo. Em nota, a GCM afirmou que as ocorrências foram contornadas e que o fim de semana foi tranquilo, sem muitos problemas para as quatro equipes de 25 guardas, totalizando 100 agentes distribuídos entre a Cidade Baixa, Subúrbio, Preguiça, Rio Vermelho, Amaralina, Piatã, Itapuã e Flamengo. 

"Nas praias do Flamengo e Preguiça houve algumas poucas pessoas que precisaram ser orientadas a deixar os locais. A operação foi considerada tranquila e ocorreu dentro da normalidade, de acordo com o planejamento prévio organizado pela GCM", diz o texto.

(Paula Fróes/CORREIO)

*Com a orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro

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