Morte de guardador de carro choca comerciantes: 'A Barra precisa de socorro'

salvador
15.10.2021, 16:46:00
Local onde Mauricio caiu morto ((Foto: Nara Gentil/CORREIO))

Morte de guardador de carro choca comerciantes: 'A Barra precisa de socorro'

Quem trabalha no local cita rivalidade entre guardadores e diz que está aflito com a onda de violência que toma conta do bairro

“Sempre foi um cara tranquilo. Nunca tive algo para reclamar ou ouvi falar de algo que estava acontecendo para levar a esse desfecho”. Esse é o depoimento de uma empresária que trabalha na Barra, próximo ao local onde o guardador de carros Mauricio Lima dos Santos, de 30 anos, foi assassinado na manhã desta sexta-feira (15). “Mauricio até entrava aqui no estabelecimento e bebia água. Era uma pessoa conhecida da região”, conta.  

Assim como todas as dezenas de pessoas que a reportagem conversou, ela não quer ser identificada. Na região, há um temor de que o crime afaste as pessoas do local ou atraia mais violência ao bairro, que nos últimos meses foi palco de diversas cenas de violência (leia mais abaixo). “Está tão difícil conquistar o cliente nos últimos dias. Ainda mais com essa exposição toda”, diz outro empresário.  

Em nota, a Policia Civil disse que a 1ª Delegacia de Homicídios, com o apoio da 14ª Delegacia Territorial da Barra, investiga a morte de Maurício.

“De acordo com informações preliminares, um homem em uma motocicleta de dados não anotados efetuou os disparos. A vítima foi socorrida para uma unidade de saúde, mas não resistiu. A autoria e a motivação serão apuradas", afirmou. 

A reportagem permaneceu no local e as pessoas que conheciam Mauricio também não tinham certeza do que pode ter motivado o crime. “Aqui há uma rivalidade entre os guardadores credenciados e os não credenciados. Acho que a fiscalização deve aumentar, pois penso que essa disputa esteja relacionada com o crime”, afirmou um empresário.  

“De fato, essa disputa sempre existiu, mas não acho que isso fosse chegar ao ponto de ter um assassinato”, contrapõem outra empresária. Uma comerciária que trabalha na região já levantou outra hipótese. “No bar que ele costumava a frequentar, houve uma briga há 20 dias. Eu fico imaginando que possa ter alguma relação com o fato”, conta.  

O CORREIO esteve nesse bar e, segundo os frequentadores, a dona, ao saber da morte de Mauricio, passou mal e foi levada ao hospital. Eles não acreditam que a briga que houve no local tenha relação com o crime. “Não tem nada a ver, pois Mauricio nem estava aqui na hora da briga. Ele não tinha vindo trabalhar no dia”, contam.  

Testemunha afirma que Mauricio levou cinco tiros 
Um garçom, que presenciou o assassinato, acredita que o crime foi motivado por dívidas. “O pessoal da rifa que Mauricio sempre assinava disse para mim que ele estava devendo a agiota. Se é verdade ou não, quem vai saber?”, questionou. Ele conta o que viu.  

“Eu estava forrando a mesa quando tudo aconteceu. Primeiro, o cara da moto desceu e deu dois tiros nele. No terceiro, a arma falhou e o assassino escorregou e caiu. Foi aí que Mauricio se levantou e correu em direção à Rua Dias D'Ávila, mas o cara conseguiu alcançá-lo e efetuou mais três disparados. Pelo menos um foi na cabeça”, contou.  

Outra moradora da região, que presenciou o fato, disse que essa foi a primeira vez na vida que viu um tiro. “A Barra precisa de socorro. Acontecer uma coisa dessa aqui é um absurdo. Eles dizem que tem segurança, mas não tem. Estamos entregues à violência”, falou. A gerente de um comércio da região confessou que tem vontade de trabalhar em outro lugar.  

“Quando eu ouvi os disparos, pensei que fosse fogos de artifício. Eu trabalho aqui há três meses. Não sou da Bahia e não pensava em ver uma coisa dessa. Minha vontade mesmo é sair da Barra”, desabafou. Já um turista, hospedado num albergue localizado na rua onde o crime aconteceu, disse que tinha acabado de chegar na Barra quando o crime ocorreu. "Eu estava na lanchonete e vi o rapaz correndo, sendo perseguido. Depois ouvi o som dos disparos", contou.  

Ele vai embora na segunda-feira e, nos cinco anos que frequenta Salvador, relata nunca ter presenciado tanta violência na Barra. “Além da quantidade de crimes, vi que aumentou os pontos de venda de drogas. Suspeito que toda essa violência seja motivada por uma disputa de tráfico na região”, disse.  

Enquanto a reportagem esteve no local, diversos agentes da Policia Civil também circulavam, abordavam testemunhas e fizeram a coleta de imagens de câmeras de segurança.

“Nós pedimos a ajuda da população para identificar a autoria e a motivação do crime. Tem o disk denuncia 181 que as pessoas podem ligar e dar informações”, pediu o delegado Sérgio Schlang Jr.  

A Associação de Moradores e Amigos da Barra (Amabarra) foi procurada, mas não respondeu até o fechamento do texto.   

Policiais estiveram presente na Barra para apurar o crime (Nara Gentil/CORREIO)

Onda de crimes
Uma das mais tradicionais praias de Salvador, a Barra acumula episódios de violência nos últimos meses, principalmente no Porto, e o CORREIO vem mostrando as situações. No dia 16 de agosto deste ano, um casal em situação de rua que tinha um barraco no local foi atacado em um incêndio criminoso no Porto da Barra. Dias depois, homem e mulher morreram por conta das complicações causadas pelas queimaduras.

Já no dia 5 de setembro, um homem foi morto a tiros após um tiroteio em uma das ruas do Porto da Barra. Segundo a Polícia Civil, a vítima identificada como Rodrigo Cerqueira de Jesus era conhecido como Tosca e era suspeito de tráfico de drogas na região. A mãe de Rodrigo e outro homem, que não teve a identidade divulgada, também foram baleados na mesma ação, mas conseguiram sobreviver. 

No dia seguinte, 6 de setembro, o corpo de um homem apareceu boiando no Porto. Ele tinha os pés amarrados.  

No dia 21 de setembro, um homem com problemas mentais apavorou quem decidiu curtir a praia do Porto da Barra. Com uma faca em mãos, ele invadiu a faixa de areia e ameaçou banhistas. A Guarda Civil Municipal (GCM), que tinha uma equipe atuando na segurança da região, foi chamada e conseguiu contornar a situação, mobilizando a pessoa.

Dias antes, um grupo de banhistas se envolveu em uma pancadaria generalizada nas areias da Praia da Barra. A confusão foi filmada por pessoas que passavam perto do local.

No último domingo (10), um homem foi porto na praia do Porto da Barra. De acordo com a Polícia Militar, a vítima foi identificada como Uéslei Nielson Cruz Santos, 28, e estava na faixa de areia da praia, quando um homem chegou caminhando, por volta de 19h, e atirou diversas vezes contra ele. Em seguida, o atirador fugiu. Segundo a Polícia Civil, Uéslei estava com familiares e amigos quando o atirador chegou e o chamou de "Meio-dia". Em seguida, ele disparou contra o jovem.

Reconhecimento facial em análise 
Os recorrentes episódios de violência na região acabaram resultando na troca de comando na 11ª Companhia Independente (CIPMBarra), que foi assumida no dia 10 de setembro pelo major Uildnei Carlos do Nascimento. 

Após ordenar a intensificação no policiamento e ordenamento do solo, além de buscar a atuação do serviço de inteligência das polícias Civil e Militar, o major comentou as situações mais recentes e disse que a PM continuará trabalhando para manter a paz e a ordem.  

"O policiamento continua sendo reforçado, através das bases, das viaturas em patrulhamento, realização de abordagens, policiamento preventivo e repressivo quando necessário. Esse é nosso papel. Quanto ao fato, informações preliminares dão conta que a vítima era envolvida com tráfico de drogas, respondendo em liberdade e que o perpetrador dos disparos encostou nele, na areia, próximo ao muro, se aproveitando do grande número de pessoas para se homiziar e ao chamá-lo pelo apelido, confirmando ser ele, efetuou os disparos, se escondendo na multidão, empreendendo fuga. Talvez um provável 'acerto de contas'", reforçou o comandante da área, antes de destacar que o fato está sendo investigado pela Polícia Civil. 

“Novas medidas estão sendo adotadas, inclusive com a possibilidade da instalação de câmeras com reconhecimento facial em locais estratégicos, facilitando a identificação de elementos com dívidas com a justiça, os quais serão identificados e presos”, adiantou o major Uildnei Carlos do Nascimento. “A PM não recua em momento algum. O poder do Estado estará presente e a paz e segurança mantidas a qualquer custo”, complementou o novo comandante, que substituiu o major Jailton Carvalho de Santana.

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