Mulheres são melhores gerentes que os homens, revela pesquisa

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20.09.2021, 05:00:00
As chefes mulheres são mais eficiente para impulsionar o engajamento de empregados com características como a empatia (Shutterstock/reprodução)

Mulheres são melhores gerentes que os homens, revela pesquisa

Pesquisa mostra superioridade feminina nos cargos gerenciais, mas comprova que o mundo dos negócios ainda é machista

Uma pesquisa da Gallup Poll - com quase 27 milhões de empregados de todo o mundo -  mostrou  que chefes mulheres costumam ter um desempenho melhor que seus colegas do gênero masculino no trabalho. Isso porque o desempenho feminino é mais eficiente para impulsionar o engajamento de empregados. Apesar desse resultado, a verdade é que os estereótipos de gênero e o preconceito continuam atrapalhando a vida das mulheres no escritório.

Do total de entrevistados, 55% concordou que mulheres em posições gerenciais são constantemente submetidas a expectativas de desempenho maiores que homens. Já 38% dos respondentes preferiria trabalhar para uma chefe mulher, comparado a 26% que preferiria trabalhar para um homem e 35% sem preferência. 

Outros 59% concordaram que mulheres têm menos representatividade em retratos de posições gerenciais e 45% dos respondentes crê um pouco ou fortemente que mulheres seguem suas emoções enquanto homens preferem pensar logicamente.

Resiliência feminina

CEO da Career Center Karin Parodi sabe bem como é a experiência da liderança feminina no universo empresarial e diz que esse diferencial nas tarefas gerenciais são resultado do fato das mulheres serem profissionais focadas, que buscam autodesenvolvimento, investem mais anos na sua educação continuada e quando tem família, equilibram diversos papéis. 
“Esse fato que lhes dá mais flexibilidade, adaptabilidade e resiliência. A empatia, escuta ativa, sociabilidade e uma liderança mais colaborativa são características muito presentes no perfil da liderança feminina”, acredita. Para ela, essas características colocam as gerentes em  vantagem competitiva em relação aos soft skills, além de lideram pelo exemplo.

Karin Parodi destaca a empatia, escuta ativa, sociabilidade e uma liderança mais colaborativa como as características mais presentes na liderança feminina (Foto: Divulgação)

A especialista em carreiras Joana Silveira lembra que sempre que as questões de gênero são abordadas, as discussões ganham contornos complexos. Para exemplificar a afirmativa, ela cita a própria pesquisa onde, se por um lado há uma concordância de que as mulheres são mais atenciosas, prestam mais atenção aos detalhes e possuem maior empatia que os homens, por outro lado, também se reforça estereótipos onde 45% dos respondentes creem que mulheres seguem suas emoções enquanto homens preferem pensar logicamente ao tomar uma decisão.

“O desafio mais comum para essas profissionais passa por ter de sobreviver a críticas ad hominem, ou seja, que atacam a pessoa (neste caso, pelo seu gênero) em vez das suas decisões profissionais. O caminho difere de país para país; em certas regiões a luta pela emancipação seria algo perigoso”, reflete. 

Cultura sexista

Karin Parodi pontua ainda que, quando se fala em liderança feminina, é fundamental contextualizar a sociedade mundial em relação ao papel da mulher ao longo dos séculos, com muitos poucos movimentos focados à equidade de gênero. “Também temos desafios culturais em relação à mulher precisar viver em uma a sociedade que relaciona o comportamento feminino como ser afetuosa, delicada”, esclarece.

Para a CEO, nesse momento, surge um dos maiores obstáculos: que é conseguir equilibrar a vida pessoal e profissional, principalmente quando são mães. “Um outro problema é o nível de exigência consigo mesmas, colocando metas muito altas, na maioria das vezes, e, quando não alcançam, exercem alta autocrítica. Em algumas empresas a equidade salarial é ainda presente e totalmente injusta”, complementa.

Para Joana, no Brasil, a resiliência é fundamental para se sobreviver esta fase de transição em que gerações mais velhas e grupos mais conservadores costumam ter opiniões negativas sobre mulheres, sobretudo quando em posições gerenciais.
“Como vimos no estudo, 55% dos nossos respondentes concordaram que mulheres em posições gerenciais são constantemente submetidas a expectativas de desempenho maiores que homens. A primeira parte deste problema seria tentar perceber se esta percepção corresponde mesmo à realidade (estamos falando de 55%, uma distribuição equilibrada portanto)”, pontua. 

A proprietária do Restaurante Benedita, Emanuele Nacimento acredita que o debate sobre questões como essas  é fundamental. "A  criação de um ambiente de troca e pró ativo ajuda a minimizar o sexismo, porém a chave está na educação. Em certos ambientes somente os dados de produtividade farão alguma diferença. Não se desconstrói o machismo somente com informação, é preciso educar para romper com a cultura machista", diz.

Emanuele Nascimento defende as discusões para ampliar a compreensão sobre o machismo, mas acredita que a verdadeira mudança está na educação (Foto: Frederico Pimentel/Divulgação)

Transformações empresariais são necessárias

Para Joana, se isso se verificar, uma hipótese é que as pessoas mais conservadoras ainda precisam de confirmar certas expectativas em relação a mulheres, nesse caso, se de fato as mulheres são capazes de gerir trabalhadores num ambiente profissional. “São necessários vários passos institucionais para reformar esses comportamentos. Comportamentos claramente sexistas têm de ser sancionados, mas sobretudo as mulheres têm de se sentir confortáveis para progredirem ao nível profissional. Não pode haver tratamento preferencial dos homens, e em certos casos recomenda-se até sessões de consciencialização de desigualdades de gênero para todos”, completa.

Karin faz questão de salientar um comportamento machista – adotado indistintamente -  que existe e onde se espera que a mulher seja colocada à prova todo tempo. “Parece que a executiva precisa ter alta performance, ser infalível para merecer estar na posição de liderança”, reclama.

A CEO defende que as empresas repensem os valores de equidade de gênero. “Implementar políticas que reforcem valores como: igualdade salarial, meritocracia, promoções e programas de coaching ou mentoria para a liderança feminina. Caso ainda existam líderes desalinhados aos seus valores, o caminho é a manutenção”, diz.

Rede de apoio

A executiva defende que as mulheres desenvolvam mais a autoconfiança, participando de grupos de networking de mulheres e assumam o protagonismo da carreira, não admitindo posturas discriminatórias. “Busque uma mentora, uma profissional que admire e tenha mais experiência como líder para que possa trocar conhecimentos e fazer questionamentos de como navegar em situações mais complexas”, sugere.

Emanuele diz que a auto confiança é a ferramenta mais poderosa para ultrapassar o preconceito. "É preciso desenvolver dentro de nós a assertividade de nossas ações. Isso vem com a segurança que a formação nos dá, com as experiências de trabalho, e com auto conhecimento", sugere. 

Para a especialista em carreiras, as mulheres não podem temer desafios profissionais apenas por causa do gênero. “Recomenda-se que encontrem grupos de apoio para mulheres em dificuldades semelhantes para poderem discutir e negociar os desafios profissionais que atravessam”, defende, destacando que, em casos mais difíceis em que uma mulher passa por ansiedade ou episódios depressivos devido a pressões profissionais, recomenda-se claro que considerem tratamento psicológico.
 
Mundo sexista 

   *   55% dos nossos respondentes concordou que mulheres em posições gerenciais são constantemente submetidas a expectativas de desempenho maiores que homens.

  *   38% dos respondentes preferiria trabalhar para uma chefe mulher, comparado a 26% que preferiria trabalhar para um homem e 35% sem preferência.

  *   59% concordou que mulheres têm menos representatividade em retratos de posições gerenciais.

  *   45% dos respondentes crê um pouco ou fortemente que mulheres seguem suas emoções enquanto homens preferem pensar logicamente.

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