Na contramão: casos confirmados de covid-19 crescem em Pernambués

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17.09.2020, 05:38:00
Atualizado: 17.09.2020, 07:07:45

Na contramão: casos confirmados de covid-19 crescem em Pernambués

Enquanto Salvador apresenta queda na curva de casos, bairro dispara em registros e chega a 3.143 infectados

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Pernambués é o bairro com mais casos confirmados do novo coronavírus na capital baiana. É também a região que, enquanto a cidade apresenta queda nos registros de infectados, mostra um avanço contínuo e numeroso da pandemia. Segundo dados da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), a localidade já acumula 3.143 pessoas infectadas, sendo que 684  pegaram o vírus de 17 de agosto para cá.

Mesmo com todos esses números, segundo os moradores, o local ainda é um dos bairros onde mais se desrespeita as normas sanitárias, a necessidade do uso de máscara e a proibição de festas que promovam aglomerações. A reportagem do CORREIO foi à Pernambués e conversou com moradores que afirmaram que as pessoas do bairro se comportam como se a pandemia fosse coisa do passado e os cuidados fossem desnecessários. 

O número total de casos e o crescimento do número de novos infectados preocupa a SMS. Cristiane Cardoso, coordenadora do Centro de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde (CIEVS), afirma que a SMS monitora com atenção a curva de casos no bairro.

“Obviamente, a gente vê esse crescimento em Pernambués com muita preocupação. Até porque o perfil da cidade como um todo vem com um número decrescente, o que oportunizou o processo de reabertura do comércio. Na contramão de tudo isso, temos esse aumento no número de casos no bairro que está sendo monitorado e que, a princípio, precisaria de um estudo mais apurado para indicarmos todas as causas dessa situação”, conta. 

No meio do fluxo, é possível notar descuidos com o uso da máscara e o distanciamento social. Comportamento arriscado em um ambiente que, ainda que não pareça, continua pandêmico. É justamente a maneira como as pessoas se comportam que tem grande peso na transmissão da doença de acordo com Cristiane.

“A questão da transmissão tem uma relação forte com o comportamento pessoal. E, às vezes, por mais que se tente fechar ou limitar o comércio, por mais que o poder público oriente as pessoas na intenção de evitar a propagação do vírus, sem a ajuda da população que descumpre as normas, fica mais complicado lidar com a pandemia”, diz. 

Profissionais da Limpurb realizam limpeza em Pernambués (Foto: Marina Silva/CORREIO)

Descaso evidente

Quando se chega ao bairro, é fácil notar um número considerável, ainda que minoritário, de pessoas que não fazem o uso de máscara ao sair para as ruas. Mesmo sem usar o acessório de proteção, cidadãos circulam entre os outros e ignoram a recomendação de distanciamento social que seria ainda mais necessária quando alguém está sem máscara. De acordo com uma senhora, que não quis se identificar temendo hostilidade por parte dos vizinhos, a situação ocorre por conta da sensação das pessoas de que o período pandêmico terminou.  

"O descaso das pessoas é muito grande. Todo mundo acha que a pandemia já acabou por conta da reabertura de shoppings e outros estabelecimentos. Tem muito paredão, as pessoas bebem sem máscara e não fazem nenhuma questão de se cuidar. Não usam máscara, ficam em aglomerações. A verdade que já agem em sociedade como se tudo tivesse passado e quem tem consciência sabe que não passou", reclama.

É corriqueiro notar cidadãos sem máscaras em Pernambués (Foto: Marina SIlva/CORREIO)

Para Bruno Moreira, 20 anos, atendente de loja e estudante de Engenharia Mecânica, a resistência da propagação do vírus no bairro se deve à falta de consciência dos cidadãos. "Além da questão do não uso de máscara, a falta de educação do povo é fundamental pra isso acontecer. As pessoas não têm consciência o suficiente pra respeitar coisas simples e que ajudariam a acabar com a disseminação. A maioria da galera só acredita no problema quando chega pra si ou para alguém. Nem o distanciamento com balcão solicitado pela faixa na entrada da loja eles respeitam. Toda hora tenho que pedir para que não ultrapassem e não adianta. Tudo por conta da ignorância", declara.

Para os moradores, o ponto focal de aglomeração e desrespeito é mais próximo ao fim de linha do bairro e distante da Rua Thomaz Gonzaga, onde localizam-se os comércios do bairro. Segundo Eduarda Góis, 18, moradora do bairro, o descaso com as normas começa depois do posto de saúde de Pernambués. "Na parte de baixo, depois do Posto de Saúde, não respeitam como deveriam. Aqui, na Thomaz Gonzaga ainda é mais tranquilo, mas, se você ir um pouco mais pra baixo, o negócio muda de figura. E, mesmo aqui, a gente pode perceber muitas pessoas não usando máscara. Idosos, que são de grupo de risco, também não ligam", relata.

O estudante de Artes Cênicas, Lucas Oliveira, 26, concorda que o comportamento das pessoas facilita a propagação do vírus, mas acredita que esse não seja o único fator. "Não é todo mundo que respeita o uso da máscara ou o distanciamento social. Do início da pandemia para cá, a quantidade de festas que reúnem muitas pessoas aumentou demais. No entanto, isso não é só resultado do descuido. Um ponto muito forte é o transporte público que, em horário de pico, fica muito cheio já que as pessoas precisam trabalhar e resolver pendências importantes. E, para a maioria dos habitantes, o ônibus é a única maneira de se deslocar", ressalta.

Morador acredita que transporte público facilita a propagação do vírus em Pernambués (Foto: Marina SIlva/CORREIO)

Comércio imprudente

Além do comportamento inadequado das pessoas, também é possível notar o descumprimeto de regras de funcionamento de Pernambués. Por lá, a Secretaria Municipal de Desenvolvimento e Urbanismo (Sedur), que é responsável pela fiscalização dos estabelecimento no processo de reabertura durante a pandemia, já interditou 147 estabelecimentos, colocando o bairro em segundo lugar nesta estatística entre os locais que ainda vivem sob restrição, ficando atrás apenas de São Cristóvão, com 152. A secretaria percebeu a inadequação e passou a intensificar as abordagens na localidade que, agora, é o bairro com mais vistorias feitas pela pasta.

Sedur já interditou 147 estabelecimentos no bairro (Foto: Marina Silva/CORREIO)

Confira a seguir o número de vistorias e interdições nos bairros com restrições desde o início da pandemia:

Nordeste de Amaralina 

Total de Vistorias: 5.551
Total de Interdições: 62

Santa Cruz 

Total de Vistorias: 4.642
Total de Interdições: 64
 

Pernambués

Total de Vistorias: 16.447
Total de Interdições: 147
 

Saramandaia 

Total de Vistorias: 2.286
Total de Interdições: 38
 

São Cristóvão

Total de Vistorias: 12.570
Total de Interdições: 152
 

Águas Claras

Total de Vistorias: 11.996
Total de Interdições: 88
 

Mata Escura 

Total de Vistorias: 2.197
Total de Interdições: 31

Situação dos bairros

Depois de seis meses de pandemia, Salvador chegou ao quantitativo total de 81.526 casos confirmado e 78.799 de pacientes que venceram o coronavírus. Veja a seguir os bairros com mais e menos casos da capital baiana:

Mais casos

1º - Pernambués (3.143)
2º - Santa Cruz (2.320)
3º - Pituba (2.165)
4º - Brotas (2.086)
5º - Fazenda Grande do Retiro (1.783)
6º - Itapuã (1.772)
7º - São Cristóvão (1.747)
8º - Liberdade (1.621)
9º - Nordeste de Amaralina (1599)
10º - Tancredo Neves (1.590)

Menos casos

1º - Ilha dos Frades (4)
2º - Porto Seco Pirajá (5)
3º - Moradas da Lagoa (6)
4º - Colinas de Periperi (7)
5º - Santa Luzia (9)
6º - Santo Agostinho (11)
7º - Aeroporto (11)
8º - Ilha de Bom Jesus dos Passos (13)
9º - Boa Vista de Brotas (21)
10º - Areia Branca (25)

*Sob orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro

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