Na reabertura, teve gente que foi ao lado externo da Fonte Nova só para ouvir a torcida

e.c. bahia
12.10.2021, 23:46:00
Atualizado: 13.10.2021, 00:18:15
(Arisson Marinho/CORREIO)

Na reabertura, teve gente que foi ao lado externo da Fonte Nova só para ouvir a torcida

Tricolores voltaram ao estádio no empate em 0x0 do Bahia contra o Palmeiras, nestaa terça (12)

Desde que o governador Rui Costa anunciou a liberação de torcidas nos estádios baianos, Salvador vive uma aura diferente. Expectativa, saudade próxima de acabar, ansiedade. Quem já viveu um reencontro esperado sabe do que se trata. Para a torcida do Bahia, voltar ao estádio tem um sabor muito bem explicado por aquele clichê “só entende quem vive”.

É natural afirmar que o futebol não seria nada sem torcida. O público, cativado por artistas como Pelé e Garrincha, fez do esporte bretão ser o que é. Clubes como o Bahia fizeram da torcida a grande protagonista do espetáculo. Ora, o futebol em campo pode não ser dos melhores jogados - e convenhamos que o Bahia está longe das mais altas prateleiras do futebol bem jogado e vistoso (ou mesmo competitivo) já há um tempo. Mas a torcida faz valer a pena, justifica tudo. E, neste 12 de outubro, o que se viu na Arena Fonte Nova foi um monte de adulto virando criança para assistir ao Bahia x Palmeiras que marcou a volta do torcedor ao estádio. 

Valia ir, mesmo que fosse para os arredores do estádio. Caso do casal José Araújo e Rita Cristina Oliveira, que saiu de casa em Sussuarana, pegou o buzu e ficou observando o estádio do Dique do Tororó. A expectativa era assistir ao jogo pelo telão e ouvir o grito da torcida lá de dentro. “Não somos sócios, então não tivemos a prioridade para entrar. Mas somos torcedores, ela principalmente. Chora quando o Bahia perde. Hoje estamos aqui pelo Bahia, com fé em Guto para sair dessa situação”, disse José.

Também teve quem fez loucura e veio de longe, mas conseguiu entrar. O torcedor Nicolas Ferreira pegou 650km de estrada para sair de Maiquinique até a Fonte Nova. Chegou a Salvador e foi até a Central de Atendimento ao Sócio (CAS) para regularizar sua situação com o clube e conseguir entrar. Depois de resolver tudo, garantiu orgulhoso que veio para dar sorte ao Bahia.

“A Fonte Nova é nossa casa. A história do Bahia prova que não há Bahia sem torcida, sem gente. Acho que agora, com os portões abrindo de novo, vamos sair dessa situação difícil. O Bahia com a torcida é mais forte, o hino já diz que ninguém nos vence em vibração”, afirmou.

O aposentado Miro Costa, 60, brigou com a família, mas saiu do feriadão em Porto de Sauípe até a Fonte Nova para ver o Bahia de volta para sua torcida. Confiante, disse que não se importava tanto com o resultado em campo e estava feliz por poder voltar para casa: “de 100 jogos, vou a 101”, disse orgulhoso. Ele estava presente na rodada dupla do dia 7 de março de 2020, últimos jogos com público no estádio. “A família queria que eu visse pela TV. Mas aqui você vê diferente. A Fonte Nova é diferente e eu tinha que estar aqui hoje (ontem)”, disse. 

Movimentação fraca
O movimento nos arredores do estádio era relativamente tranquilo nas horas que antecederam a partida. Com o tempo, alguns pontos foram enchendo, como a área onde ficava a famosa Kombi do Reggae, no pé da Ladeira dos Galés. No topo da Ladeira da Fonte das Pedras, havia alguns ambulantes com isopor vendendo espetinho e bebidas alcoólicas, que eram consumidas por torcedoras e torcedores - já que, do lado de dentro, nada de álcool. 

Antes de entrar, todo o mundo teve que apresentar o cartão de vacinação ou o Certificado Covid obtido através do aplicativo Conecte SUS, do Ministério da Saúde, comprovando que recebeu as duas doses ou a dose única da vacina. É obrigatório o uso de máscara no acesso e durante todo o jogo. Para controlar o acesso, um bloqueio foi montado no perímetro da Fonte Nova - na Ladeira da Fonte das Pedras e na região do Dique do Tororó. Quatro portões foram disponibilizados aos torcedores nos setores Oeste, Norte e Sul.

Vendedora ambulante, Márcia Santos, 36, disse que esperava um movimento maior e acabou se frustrando. O borderô da partida apontou que 4.509 pessoas estiveram dentro do estádio. Ela trabalha nos arredores da Fonte Nova desde a reinauguração do estádio em 2013.

“Faz muita falta, meus filhos cresceram vendo esse movimento do Bahia e esse tempo todo sem ver o pessoal aqui deu muita saudade. Também foi muito difícil equilibrar as contas. Vivemos de auxílio e vendendo as coisas no bairro, mas a queda foi pesada”, disse a vendedora. 

Dentro do estádio, o clima era de emoção e homenagem. Antes da bola rolar, o Bahia publicou um vídeo com nomes de torcedoras e torcedores vítimas da covid-19. Os nomes foram exibidos no telão do estádio e receberam aplausos. Torcedores também levaram cartazes com mensagens sobre a pandemia e suas vítimas. Como tem acontecido pelo país, nem todo mundo ficou de máscara o tempo todo.



Um dos primeiros a entrar no estádio, Jair Ferreira Santos, 59, chegou pouco depois dos portões abrirem. Antes das 19h, já estava sentadinho em seu lugar no setor Norte Inferior. “A emoção é gigante. Acompanho o Bahia desde pequenininho e ficar um ano e sete meses sem ver o Bahia jogar é uma tortura. O Bahia pra mim é tudo, eu largo tudo pelo Bahia. Me sentia jogado aos cantos sem ver o Bahia”, afirmou.

Apesar de toda a empolgação, ninguém conseguiu gritar gol. No estádio ou fora. O Bahia até foi melhor, mas parou no goleiro Jailson, do Palmeiras.

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