'Não havia mais ninguém armado a não ser os policiais', diz tia de menina morta em Valéria

salvador
18.08.2021, 05:30:00
(Reprodução/Instagram)

'Não havia mais ninguém armado a não ser os policiais', diz tia de menina morta em Valéria

Menina, que era filha única, brincava na rua quando levou um tiro que atingiu cinco órgãos do seu corpo

“Foi mais de um mês internada. Ela lutou bastante”, declarou a auxiliar administrativo Vanessa dos Santos Ferreira, 31 anos, tia de Kevellyn da Conceição Santos, 8 anos. A menina foi baleada na barriga no dia 15 do mês passado no bairro de Valéria, mas morreu na última segunda-feira (16). A criança foi vítima da onda de violência que tomou conta da região, onde disparos de arma de fogo são constantes, a exemplo de tiroteios. No entanto, neste caso específico, a família acusa a Polícia Militar como a responsável pelo disparou que ceifou a vida de Kevellyn. 

“Ela era uma criança saudável, filha única. Passou por quatro cirurgias, mas não resistiu a quinta operação por causa de uma bactéria. O tiro atingiu cinco órgãos e duas artérias, que causaram hemorragias”, declarou Vanessa. Por conta da gravidade, Kevellyn seria submetida a um transplante do intestino em São Paulo pelo SUS. A família arrecadava dinheiro para os custos das passagens e hospedagens para o todo o período que a menina passaria internada. Dos R$ 20 mil previstos, já tinham sido doados pouco mais de R$ 8 mil.  “Infelizmente não deu tempo. Vamos usar agora o dinheiro para o enterro”, disse a tia. Ainda não há previsão de quando e onde a menina será enterrada. 

Segundo Vanessa, a sobrinha estuava no terceiro ano da Escola Municipal Professor Ítalo Gaudenzi, localizado no bairro de Fazenda Coutos. “Ela era uma menina muito inteligente, uma criança sorridente, que todo mundo gostava”, lamentou.  Ela disse que Kevellyn estava no salão da mãe, Kaliandra dos Santos, situado em frente à praça do Conjunto Morada da Lagoa, onde morava, quando foi atingida. A tia disse ainda que o disparo foi efetuado pela PM. “A polícia já chegou atirando num local onde eles (policiais) já sabem que ficam muitas crianças. Não teve troca de tiros. Não havia mais ninguém armado a não ser os policiais”, desabafou a tia. 

Em nota, a Polícia Militar informou que, segundo o comandante da 31ª CIPM, foi aberto um feito investigatório para apurar os fatos, que ainda está em andamento. Além disso, a unidade registrou a ocorrência na 8ª Delegacia (Cia) onde acontece a investigação do caso. 

Apesar de a PM ter aberto um procedimento investigatório para apurar os fatos, a Polícia Civil disse que Kevellyn não morreu em decorrência de uma ação policial.  “A 3ª DH / BTS ficará responsável pela investigação da morte de Kevellyn Conceição dos Santos, de oito anos, atingida por disparos de arma de fogo durante uma troca de tiros entre criminosos, no bairro de Valéria, no dia 15 de julho”, diz a nota.  A PC disse ainda que o inquérito policial está sendo instaurado na especializada, que ouvirá os familiares e realizará diligências.

Tensão
A morte de Kevellyn aconteceu num momento em que o bairro de Valéria vem sofrendo que a violência. “Viver aqui está muito difícil. Muitas pessoas já foram assassinadas ou vítimas de bala perdida por conta dos confrontos entre bandidos ou dos bandidos com a polícia. Nessa hora sempre sobra para quem não tem nada a ver. Que culpa tinha essa menina? Que mal ela fez pra ter um destino tão cruel? Imagina a dor da mãe, perder a única filha para essa violência desenfreada? ”, questionou a dona de um salão de beleza, próximo onde era realizada uma blitz da PM no bairro na manhã de terça-feira (17). 

Policiais militares fazem blitz em Valéria que sofre com onda de violência (Foto: Arisson Marinho/CORREIO)

Desde a última sexta-feira (13), Valéria vive em tensão constante, onde confrontos foram registrados entres facções Bonde do Maluco (BDM) e a Katiara. “Se isso não melhorar de alguma forma, vou ter que largar tudo e ir embora para a casa de meus pais, na cidade de Guanambi. Chegamos ao momento em que não podemos sequer pôr os pés com tranquilidade na rua, pois corremos o risco de sermos baleados a qualquer hora, seja pelos bandidos ou pela polícia. Por conta disso, meus filhos estão sem ir à escola”, declarou a proprietária de um pequeno restaurante e mãe de dois alunos do Colégio Estadual Professora Noêmia Rego. 

O colégio suspendeu as aulas presencias na segunda, depois que um dos portões foi atingido por cinco tiros durante um ataque do BDM à Katiara na madrugada do mesmo dia. Na manhã de terça, funcionários da instituição escreveram paz no portão atingido pelos disparos. Desde a sexta, a PM colocou uma base móvel e uma viatura em frente à escola. No entanto, o diretor da unidade de ensino, Edson Lima, disse que não sabe até quando o policiamento vai continuar no local, mas que vai se reunir com o Conselho de Educação da escola para pedir a permanência de policiais militares no entorno da instituição. “Diante deste cenário, se faz a necessidade da permanência do policiamento fixo para garantir o retorno das aulas presenciais”, declarou. 

Tiroteio
Na madrugada de segunda, o confronto entre o BDM e a Katiara começou por volta das 3h e durou pouco mais de duas horas. De acordo os moradores, um bonde formado por mais de 15 homens munidos de fuzis, escopetas, metralhadoras, pistolas e revólveres saiu de Boca da Mata de Valéria, umas das localidades de domínio do BDM, e subiu pela Rua do Paraíso até chegar à Rua do Lavrador - região onde está a UPA de Valéria -, pertencente à Katiara. . 

O grupo do BDM chegou em carros e com demonstração de força, atirando para todos os lados. Entre as Ruas do Lavrador e a Paulo Faustino, houve o confronto entre as duas facções. Casas foram perfuradas.  Um outro tiroteio aconteceu no Loteamento Boa Sorte, que fica defronte à UPA de Valéria e que é formado pelas Ruas da Esperança, da Liberdade e da Felicidade. Várias casas foram atingidas durante o revide da Katiara à investida do BDM. 
 

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