'Não tenho condições de voltar a trabalhar', diz funcionário do Samu após execução de casal

salvador
30.03.2021, 20:59:00
Atualizado: 30.03.2021, 21:00:29
Um dia após o crime, restaram as marcas de sangue no asfalto e pesadelos na cabeça das vítimas (Foto: Nara Gentil/CORREIO)

'Não tenho condições de voltar a trabalhar', diz funcionário do Samu após execução de casal

Crime foi dentro da ambulância; vítimas assassinadas continuam sem identificação formal

A audácia dos bandidos não tem limite. Quatro bandidos encapuzados mataram a tiros um paciente e a namorada dele, que o acompanhava, dentro de uma ambulância do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) na noite dessa segunda-feira (29), no bairro de Fazenda Coutos. O homem, que já estava baleado e, por isso, era transferido da UPA do Santo Inácio para o Hospital do Subúrbio, foi executado junto com a mulher assim que os bandidos interceptaram a ambulância na Estrada do Derba (BA-528). 

Até o início desta manhã, o homem ainda não tinha sido identificado. Ele aparentava ter 30 anos e seria morador do bairro de Castelo Branco. Já a namorada, Gabriela Dantas da Rocha, tinha 18 anos e residia na Nova Sussuarana. Segundo o Departamento de Polícia Técnica (DPT), os corpos continuam no Instituto Médico Legal Nina Rodrigues (IMLNR) para serem liberados pelos parentes.  

Apesar dos disparos dentro da ambulância, os funcionários do Samu - o condutor e uma técnica de enfermagem - saíram ilesos, mas ficaram em estado de choque. O motorista teve uma crise hipertensiva e precisou de atendimento de outra equipe de paramédicos. A situação de ontem não foi um caso isolado. Em 2015, homens armados mataram um homem também dentro de uma ambulância do Samu na Avenida Bonocô. 

Segundo a Polícia Civil, a ambulância foi interceptada por um veículo, modelo Ônix, na cor branca, do qual saíram quatro homens efetuando disparos de arma de fogo contra o paciente e sua acompanhante. “As vítimas estão sem identificação formal, foram expedidas as guias para perícia e remoção. O crime será apurado pela 3ª DH/BTS”, diz a nota enviada ao CORREIO.

Um dos servidores que atenderam à ocorrência na UPA afirmou que percebeu o carro na altura da estrada do Derba, quando a ambulância foi cortada pelo Ônix na pista e logo depois os bandidos reduziram bastante a velocidade, acompanhando o trajeto da Unidade do Samu por alguns quilômetros antes de pararem o veículo.

"Explicamos para eles que só estávamos trabalhando, fazendo a remoção. Eles tiraram a gente, sem grosseria, sem ser ignorantes nem nada disso. Abrimos as portas. Só tinha um mais estressado no momento. A gente saiu, eles entraram e mataram os dois. Eu sei que tinha um no motorista e outros três caras. Não vi rosto, tatuagem, nem nada que pudesse identificar. Todos estavam mascarados", contou o funcionário, que prestou depoimento no DHPP. 

O funcionário alegou que está com dificuldades para dormir e se concentrar, por isso, solicitou afastamento do trabalho no restante da semana. Por medo de ser identificado, ele pediu que a reportagem não mencionasse o seu nome na matéria e prevê que vai passar por dias difíceis lidando com o trauma. "A gente agradece pela vida, mas é uma situação muito complicada. Eu não tenho condições de voltar a trabalhar agora. O Samu disponibilizou uma psicóloga, que vai fazer o meu acompanhamento mental nos próximos dias. Mas é uma ferida muito grande na consciência mesmo", lamentou. 

Mortes
Segundo o coordenador do Samu, Ivan Paiva, a ambulância saiu da UPA de Santo Inácio / Pirajá com o destino ao Hospital do Subúrbio. O homem havia dando entrada na unidade após ter sido baleado. “Ele tinha uma lesão por arma de fogo, uma lesão dorsal, e precisou ser transferido para um hospital, porque na UPA não tem centro cirúrgico, tomografia e banco de sangue. O motorista transportava o paciente a acompanhante. Como não é permitido o paciente ficar sozinho, devido a possibilidade de alguma intercorrência, um técnico de enfermagem sempre vai junto com o paciente”, contou Paiva.  

Os criminosos interceptaram a ambulância na rotatória do Derba, onde normalmente os veículos costumam parar numa via marginal, para então cruzar a estrada e pegar outra pista para Hospital do Subúrbio. Do Ônix desceram os bandidos encapuzados que ordenaram para o motorista abrisse a porta da ambulância. Em seguida, os bandidos ordenaram o afastamento dos profissionais e depois executaram o paciente e a acompanhante dele. “Não sei de mais detalhes. Os profissionais estão muito abalados. Depois, o motorista precisou de atendimento médico de outra equipe do Samu. Tudo já foi passado para a polícia”, disse Ivan Paiva. 

Em  nota, a Polícia Militar disse que policiais da 31ª CIPM foram acionados pelo CICom para atender uma ocorrência que terminou deixando um homem e uma mulher baleados no interior de uma ambulância do Samu. “De acordo com os socorristas, a equipe fazia a regulação de um indivíduo acompanhado da namorada quando foi interceptada na rotatória da rodovia por quatro homens armados em um Ônix de cor branca. Os indivíduos efetuaram disparos de arma de fogo e fugiram do local. As vítimas não resistiram aos ferimentos. Já os socorristas não foram atingidos”, dia a nota.

Insegurança
O Samu foi criado em 2009. A unidade tem cerca de mil funcionários e desde então vem colecionando casos que colocaram em risco à equipe durante atendimento em Salvador. “Os relatos são diversos. Em alguns casos, os profissionais foram revistados por homens armados, que querem também saber quem é a pessoa que está sendo levada. Em alguns casos, sequer deixam a ambulância prosseguir. Então, a equipe ligara para ver se a família tem condições de levar o paciente a um outro ponto possível de acesso. Caso não seja possível, a equipe vai a uma delegacia registrar uma ocorrência justiçando o atendimento”, explicou o coordenador do Samu, Ivan Paiva. 

No dia 16 de setembro de 2015, um homem foi assassinado dentro de uma ambulância do Samu na Avenida Bonocô. Na ocasião, a ambulância foi interceptada por um carro e obrigada a parar próximo a uma estação do Metrô. Um homem armado disparou quatro vezes contra um rapaz que era socorrido após ter sido baleado na Avenida Barro Reis. Depois deste episódio, o Samu passou a contar com um funcionário no Centro de Operações e Inteligência (COI) da Secretaria de Segurança Pública (SSP). “Toda vez que uma ambulância vai atender um caso de alguém baleado ou esfaqueado, e que a situação oferece risco à equipe, do COI acionamos o apoio da uma viatura da Polícia Militar”, declarou Ivan. 

De acordo com Paiva, 60% dos atendimentos do Samu são de natureza clínica. As causas externas (acidentes, atropelamento, afogamento, lesões por arma de fogo e branca) somam 25% das chamadas. Já as ocorrências de parto e relacionadas à pacientes de saúde mental correspondem a 15% dos atendimentos.

*Colaborou o repórter Vinícius Nascimento

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