No escuro: para economizar, Ufba desliga luzes dos campi a partir das 23h

salvador
30.05.2019, 15:08:00
Atualizado: 30.05.2019, 21:37:46
Desligamento de luzes a partir de 23h começou na segunda (27) (Arisson Marinho/ARQUIVO CORREIO)

No escuro: para economizar, Ufba desliga luzes dos campi a partir das 23h

Situação da instituição, que já tinha dívida com a Coelba, ficou mais delicada após bloqueio de verbas

O aviso da Reitoria, enviado na semana passada, foi categórico: às 23 horas de cada dia, as luzes na Universidade Federal da Bahia (Ufba) devem ser apagadas. A medida, que vem para minimizar os efeitos de uma dívida milionária e do bloqueio de verbas pelo governo federal, começou a valer esta semana. Desde a última segunda-feira (27), quando o relógio aponta para o horário, as lâmpadas de áreas externas de todos os campi da instituição são desligadas. 

A luz só volta no dia seguinte, às 7h, quando as aulas estão prestes a começar. Essa é só uma das providências adotadas oficialmente pela universidade. Na tarde desta quinta-feira (30), estava prevista uma reunião em que a administração central deveria estabelecer outras estratégias para otimizar e economizar os recursos. O encontro não ocorreu, mas o Conselho Universitário (Consuni) fará um encontro na manhã desta sexta-feira (31) para discutir assuntos relacionados aos bloqueios de recursos.

Além disso, cada uma das faculdades, escolas e institutos que compõem a Ufba têm adotado posturas preventivas semelhantes. Entre as resoluções, há desde a troca de telefones fixos tradicionais por sistemas que usam a internet e mudanças em planos de aula com atividades de campo. 

A situação da Ufba é delicada. No fim do mês passado, a instituição foi uma das três primeiras do Brasil – ao lado da Universidade de Brasília (UnB) e da Universidade Federal Fluminense (UFF) – a ter verbas bloqueadas pelo Ministério da Educação (MEC). Depois, o contingenciamento de repasses orçamentários foi ampliado para todas as universidades e institutos federais do país. 

Na época, o ministro Abraham Weintraub chegou a dizer que a indicação da Ufba era por ser uma das universidades que promovia ‘balbúrdia. Mas antes mesmo desse anúncio do MEC, as contas já não fechavam. No início do mês, o CORREIO revelou, com exclusividade, que, em dezembro de 2018, o débito da Ufba com a Coelba passava dos R$ 4 milhões. 

A fornecedora de energia já tinha suspendido o atendimento de forma pontual mas, naquela ocasião, tentou interromper o fornecimento em algumas unidades. Isso só não aconteceu porque a Ufba impetrou um mandado de segurança para impedir a suspensão da eletricidade.

Através da assessoria, a Ufba confirmou o desligamento das luzes, devido à situação orçamentária. No entanto, a instituição garantiu que prédios como a Maternidade Climério de Oliveira e o Hospital das Clínicas não serão afetados, assim como laboratórios com equipamentos que precisam ficar ligados de forma ininterrupta.

Procurada, a Coelba informou que presta consultoria para clientes do Grupo A (atendidos em Média Tensão), a fim de otimizar o faturamento de energia e, assim, adequar a demanda de energia contratada ao histórico de consumo. Esse serviço foi apresentado à Ufba no dia 30 de novembro de 2018, quando "foram indicadas as oportunidades de redução de custos, através da adequação do perfil de consumo da instituição e ajuste dos contratos de uso do sistema de distribuição". Esse serviço está disponível para todos os clientes corporativos.

Segurança
De acordo com a instituição, a iluminação vai ser reduzida de forma que não comprometa a segurança. As aulas do período noturno, oficialmente, terminam entre 22h e 22h30. Além disso, a energia não será suspensa. Apenas as luzes serão reduzidas. Ou seja: se um freezer precisar ficar ligado a uma tomada 24 horas do dia, por exemplo, ele vai continuar. 

O problema é que uma das queixas mais comuns entre estudantes, servidores e professores é justamente a sensação de insegurança nos campi. À noite, esses relatos são ainda mais frequentes. 

De acordo com o virologista Gúbio Soares, pesquisador e um dos coordenadores do Laboratório de Virologia do Instituto de Ciências da Saúde, que funciona no campus do Canela, é comum que, em laboratórios como o dele, aconteçam experimentos que precisem de 12, 13 horas seguidas de acompanhamento. 

“O pessoal não vai poder trabalhar depois das 23h. Se tiver algum experimento que vai até meia-noite, os estudantes vão sair como? Vão ficar assustados, não vão querer. É uma questão de segurança. Começa cortando a luz de fora, depois corta do prédio”, analisa Soares. 

Preventivo
Nas faculdades, escolas e institutos, os gestores já começaram a desenvolver estratégias para racionalizar os gastos. A recomendação para apagar luzes, desligar aparelhos de ar-condicionado em salas vazias e economizar água (inclusive observando se há vazamentos) já faz parte da rotina do Instituto de Geociências (Igeo), como explica a diretora da unidade, a professora Olívia Oliveira. Só que, desde o anúncio do contingenciamento pelo governo federal, outras iniciativas foram tomadas. 

Para começar, solicitaram à Superintendência de Meio Ambiente e Infraestrutura (Sumai) que fizessem uma revisão dos quadros de energia e de água para detectar possíveis vazamentos, com o objetivo de corrigi-los. O instituto já recebeu o planejamento e, na próxima semana, deve receber a visita da equipe técnica responsável. 

Os telefones também devem mudar. De acordo com a professora Olívia, o Igeo deve implantar o sistema VoIP (Voz sobre Protocolo de Internet, na sigla em inglês), que permite realizar chamadas através da banda larga. Assim, eliminam os gastos com telefone fixo. 

“Vamos usar o VoIP para quando precisarmos ligar para fora da área da Ufba. Até o meu telefone (celular) institucional, estou deixando de usar. Estou usando o meu pessoal (para o trabalho). Mas como tem muitos setores que só tem esse contato, estou me desligando aos poucos”, diz ela.  

O Instituto de Geociências ainda tem uma particularidade. Os cursos oferecidos pela unidade costumam ter uma alta carga horária obrigatória de saídas de campo. Só para a graduação em Geologia, por exemplo, são exigidas, pelo MEC, 720 horas de campo. 

“Isso é para cada aluno do curso. São muitas horas, tem diária de motorista, combustível, aluguel de ônibus, de carro. Para conhecermos a Geologia do nosso estado e do nosso país, temos que ir nessas áreas. Podemos fazer Geologia dentro da cidade, mas também precisamos conhecer o interior do estado”, explica. 

Agora, eles vão buscar outras alternativas. Uma das possibilidades é otimizar o transporte escolhendo locais que possam ser visitados por mais de uma turma por vez e carros maiores – ao invés de dois ou mais carros alugados. Na próxima semana, o Igeo deve definir especificamente como serão essas saídas. 

Mesmo assim, a professora Olívia reconhece que esse movimento não é o ideal.

“Minha disciplina fala de rochas ígneas, por exemplo, e tem uma região específica do estado onde tem rochas ígneas aflorando. Mas uma disciplina que se chama Geologia Metamórfica eu tenho que levar os alunos em outra área. A Geologia é muito dinâmica. É difícil encontrar uma área que tenha todos os exemplos”, afirma a professora Olívia Oliveira, diretora do Igeo. 

No curso de Oceanografia, devem-se buscar ainda mais parcerias. No caso desses estudantes, o MEC exige que sejam cumpridas horas de embarque do mar. Mesmo hoje, essas saídas já são feitas com ajuda de empresas como a Belov Engenharia e a Cetrel. Ou seja: os alunos embarcam com eles, como uma espécie de ‘carona’ para reduzir os custos. 

Na Faculdade de Comunicação, a diretora Suzana Barbosa contou que a reunião da congregação da unidade, na próxima segunda-feira (3), deve discutir medidas de economia na unidade. “As unidades estão estudando formas de racionalização para colaborar nesse momento”, adianta. 

Particularidades
No campus de São Lázaro, onde funciona a Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FFCH) e o Instituto de Psicologia, são raras as aulas que passam das 19h. A maioria – pela própria localização do campus – vai até 17h. Mesmo assim, se existem atividades que passam disso, a diretora da FFCH, a professora Maria Hilda Baqueiro, acredita que elas terão que ser, eventualmente, interrompidas. 

“Uma coisa é viver numa comunidade como Ondina, que tem muitas pessoas circulando. Não é o nosso caso. Somos meio isolados, então a gente tem medidas que são necessárias por questões de segurança, locomoção”, explica. 

Na FFCH, a gestão deu início a uma série de campanhas de conscientização. O café e a água mineral, por exemplo, deixaram de ser compras da faculdade. Agora, aqueles que tomam essas bebidas se reúnem para uma vaquinha. Copos descartáveis também foram substituídos por canecas individuais. Folhas de papel ofício também estão sendo racionadas. No lugar delas, e-mails e outros comunicados virtuais estão ganhando força. 

Ao mesmo tempo, a recomendação é só ligar a luz ou o ar-condicionado quando houver necessidade. Uma vez em funcionamento, devem ser desligados quando não houver mais ninguém no ambiente. “O importante é a gente sobreviver com dignidade, não permitir que as portas sejam fechadas. É aquele velho ditado: vão-se os anéis, ficam os dedo”, reflete a professora. 

Uma das mudanças do campus deve ser o horário de funcionamento do restaurante universitário de São Lázaro. Hoje, o estabelecimento funciona até às 19h, mas a tendência é que seja encerrado mais cedo. “A gente vive, na Ufba, um clima de muito respeito à diversidade de cada campus. Então, o campus de São Lázaro tem prioridades que os outros não têm”, completa. 


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