Novas dúvidas retomam tese de que coronavírus escapou de laboratório; entenda

coronavírus
12.06.2021, 06:30:00
Shi Zhengli, conhecida como ‘Mulher Morcego’, lidera o Instituto de Virologia de Wuhan (Foto: Johannes EISELE / AFP)

Novas dúvidas retomam tese de que coronavírus escapou de laboratório; entenda

Possibilidade antes descrita como "teoria da conspiração" volta a ser considerada plausível, já que animal transmissor não foi achado e porque barreiras da China no acesso a dados retomam suspeitas

Em momentos como o que vivemos, o jornalismo sério ganha ainda mais relevância. Precisamos um do outro para atravessar essa tempestade. Se puder, apoie nosso trabalho e assine o Jornal Correio por apenas R$ 5,94/mês.

Cientistas e governantes estão de volta à estaca zero. Ventilada no começo da pandemia, a hipótese de que o vírus da covid-19 teria escapado de um laboratório chinês ganhou novo fôlego após uma série de dúvidas virem à tona em maio deste ano, três meses após visita investigativa da Organização Mundial de Saúde (OMS) aos laboratórios da cidade de Wuhan, na China, onde houve o primeiro surto da doença.

Mais de um ano depois do início da pandemia, a origem do vírus Sars-Cov-2 segue desconhecida e com muitas pontas soltas a serem esclarecidas. Esse debate já inflama novamente as relações entre EUA e China, e podem refletir no Brasil nas eleições de 2022.

Por que ressuscitaram essa história? 

Parte da comunidade científica justificou que o estudo de 120 páginas feito pela OMS nos laboratórios da China, publicado em fevereiro deste ano, foram insuficientes para afirmar que o vírus teria partido naturalmente de um animal para os seres humanos. O próprio diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom, também admitiu que o relatório era insatisfatório. 

Essas movimentações levaram à publicação de uma carta, em maio, na revista científica Science, na qual 18 cientistas pedem uma nova investigação do ponto de partida do espalhamento do vírus. O presidente dos EUA, Joe Biden, e a cúpula da União Europeia endossaram essa solicitação.

Por outro lado, para a China, tudo isso continua sendo “teoria conspiratória” e não passa de um uso geopolítico do fato, com o propósito de criar estigmas embasados em um viés antichinês. O país nega veementemente. Mas, de fato, algumas coincidências e suspeitas pesaram contra a China.

A primeira delas é a de que há, em Wuhan, dois laboratórios especializados em estudos de vírus de morcegos, o CDC e o Instituto de Virologia de Wuhan, este liderado pela cientista Shi Zhengli, conhecida em seu país como “Mulher Morcego”. Conforme mostrou a BBC, o CDC fica bem ao lado do mercado público de animais da cidade, onde surgiram os casos iniciais de covid-19.

Isso tudo é importante porque a tese mais aceita, até então, era a de que morcegos infectados teriam passado o vírus para um bicho chamado pangolim, vendido nesse mercado, e assim teria chegado até os humanos. No entanto, muitos estudos foram feitos, mas o vírus não foi encontrado em pangolins.

Uma carta assinada por um grupo de 27 cientistas, em fevereiro de 2020, na revista científica The Lancet, disse que o vírus passou naturalmente para os humanos e que a ideia de escape de laboratório era infundada. Um dos pesquisadores que assina a nota é o zoólogo Peter Daszak, que escreveu o texto e convidou os demais cientistas para que assinassem também.

O programa Fantástico mostrou, no último domingo (6), que, embora conste neste artigo a informação de que nenhum dos autores tinha conflito de interesses, na verdade, pelo menos o Daszak tinha sim.

A reportagem menciona que ele era parceiro científico da "Mulher-Morcego", do Instituto de Virologia de Wuhan, em diversos trabalhos, e também diretor-chefe da EcoHealth Alliance, uma ONG que recebe milhões de dólares dos EUA, e que ajuda a financiar instituições parceiras, inclusive em pesquisas sobre vírus, entre elas as do grupo da Shi.

Embora estivesse intimamente envolvido, o que configura conflito de interesses, Daszak participou da missão da OMS que investigou os laboratórios de Wuhan. Essa investigação levantou ainda mais dúvidas por ter sido monitorada todo o tempo pelo governo chinês e pelo fato de a OMS não ter conseguido acesso aos registros e dados brutos de pesquisas do laboratório de Zhengli.

Para completar, também em maio deste ano, o jornal nova-iorquino The Wall Street Journal publicou que um serviço de inteligência americano teria sido informado de que, às vésperas do início da pandemia, em novembro de 2019, três pesquisadores do instituto de Wuhan teriam sido internados com sintomas compatíveis com os da covid-19, mas não se sabe por qual razão eles ficaram doentes.

Mas, a essa altura, que diferença faz saber a origem do vírus?

Em resumo, é muito importante determinar a origem do Sars-Cov-2 porque isso ajudará a prevenir novas epidemias e pandemias. Em conversa com o CORREIO, a pós-doutora em Virologia, Andréa Mendonça Gusmão, professora da Ufba e UniFTC, explica que o mundo clama por essa resposta para conseguir estabelecer estratégias a fim de reduzir as chances de propagação de um novo vírus. 

Como o tal animal intermediário que teria passado o coronavírus para os humanos não foi detectado, a tese de vazamento de um laboratório continua sendo dada como plausível.

Além do mais, outra hipótese levantada por pesquisadores é de que algum vírus de morcego tenha sido intencionalmente manipulado no laboratório, fazendo-o capaz de infectar além de animais, também os seres humanos — uma especialidade técnica do trabalho de Shi, que justifica ser importante criar vírus para entender as mutações naturais. Teria sido assim que o Sars-Cov-2 supostamente foi gerado e escapou do instituto.

Pessoalmente, Andréa diz que não acredita que o vírus tenha sido gerado e disseminado propositadamente.

"Eu acredito que, se ele saiu desse laboratório, talvez tenha escapado por falha no controle das normas de biossegurança, apesar de esse laboratório ter nível de segurança tipo 4. Isso gera um grau de preocupação a nível mundial porque, se você está manipulando vírus em laboratórios que não têm segurança e fazendo modificações que podem gerar pandemias, isso tem que ser contido”, diz Andréa.

E como esse vírus teria escapulido do laboratório?

Por descuido de alguém. O Instituto de Virologia de Wuhan trabalha com vírus que se espalham pelo ar e, por isso, conta com um sistema de contenção máxima de organismos. Pessoas que trabalham nestes locais precisam seguir regras muito rígidas tanto para se protegerem quanto para não espalhar patógenos que podem causar doenças para as quais não existem remédios ou vacinas, explica a virologista.

Então, até o ar que circula dentro do laboratório precisa ser extremamente filtrado antes de ser liberado para fora. Materiais plásticos têm que ser descartados e são, muitas vezes, incinerados.

Os trabalhadores precisam usar roupas muito específicas para não ter contato com os vírus e as portas costumam ter pressão seletiva. “Quando você abre a porta de um laboratório desse, você é, digamos assim, sugado, o ar não sai. O ar só pode sair através de ultrafiltros”, diz a virologista.

Doutorando em Biologia Molecular e coordenador do grupo de pesquisa Rede Análise Covid-19, o biólogo Marcelo Bragatte explica que os riscos acontecem desde o ato de manipulação do agente infeccioso até na desparamentação ou nos processos de higienização após a manipulação dos utensílios de trabalho.

Quais são as chances de esse vírus ter sido modificado em laboratório?

Bragatte também adianta que, quando manipulado, um vírus deixa traços do processo de manipulação em seu genoma que, mesmo com o surgimento de variantes, seriam detectáveis. No entanto, até hoje, nada nos sequenciamentos genéticos publicados em bancos de dados científicos leva a crer que o Sars-Cov-2 foi criado.

Por que um país iria querer espalhar uma pandemia e por que começaria pelo seu próprio território?

"Destaco que a China, apesar de ter confeccionado algumas vacinas, não foi a única. Logo, mercadologicamente avaliando, não parece que o custo benefício de modificar um vírus e espalhar em seu país para vender para o mundo seria interessante", analisa Bragatte.

Qual impacto esses novos fatores devem ter nas relações diplomáticas?

Duas das potências globais mais importantes do mundo, EUA e China já tinham histórico de conflito econômico, antes mesmo da pandemia, com trocas de farpas públicas entre seus presidentes, em discursos e atos na disputa pelo posto de liderança global. Especialista em Relações Internacionais pela FGV, o advogado Cássio Faeddo diz que, pessoalmente, tende a acreditar que o assunto da origem do coronavírus ficará nebuloso para sempre. 

Para ele, dada a dificuldade e as barreiras de avaliar de onde o Sars-Cov-2 teria saído, será também difícil que alguém vá afiançar essa origem. “Esse nexo de causalidade é difícil”, diz.
 
De toda forma, as suspeitas já são suficientes para abalar a imagem pública da China. Ao mesmo tempo, o presidente dos EUA, Joe Biden, aparece anunciando a possibilidade de doar 500 milhões de doses da vacina norte-americana Pfizer para países pobres. 

“Isso tudo tem uma justificativa, é a chamada diplomacia da vacina porque Rússia e China lideram a distribuição delas pelo mundo, especialmente nos países de 3º mundo. Então, a forma de Biden fazer o contraponto é mostrar que os EUA também se preocupa com a doença de forma global”, observa Faeddo.

Ele completa que a postura estadunidense agora é diferente daquela de 2020, quando os EUA se fecharam, comprando doses excedentes, pensando em primeiro resolver os seus problemas. Isso abriu espaço para China e Rússia se posicionarem como países que lideravam a ajuda global.

Essa briga de versões e tentativa de responsabilização da China será absorvida das campanhas eleitorais dos países, inclusive no Brasil, em 2022, prevê o especialista. A forma como o país praticou ou deixou de praticar a diplomacia com estas nações certamente será uma tônica dos discursos das eleições. 

CRONOLOGIA DAS INVESTIGAÇÕES DE ORIGEM DO VÍRUS

  • Dezembro de 2019 - Uma epidemia de coronavírus começa na China e se expande por outros países
  • Fevereiro de 2020 - Artigo assinado por 26 pesquisadores, incluindo o zoólogo Peter Daszak, diz que vírus passou naturalmente de um animal para o ser humano e chamaram de "teoria conspiratória" a tese de escape de um laboratório
  • Janeiro de 2021 - Equipe da OMS vai até o laboratório de Wuhan para investigar as atividades a fim de entender a origem do vírus. Após a visita, produzem um documento que reforça a tese de origem natural da epidemia e classifica como "altamente improvável" que o vírus tenha escapado do laboratório. O próprio diretor da OMS avaliou que a apuração tinha sido insuficiente para sustentar essa afirmação.
  • Maio de 2021 - Jornal nova-iorquino The Wall Street Journal publica que um serviço de inteligência dos EUA foi informado de que, em novembro de 2019, às vésperas da pandemia, 3 pesquisadores do instituto de Wuhan, teriam sido internados com sintomas similares ao da covid-19.
  • Maio de 2021 - Grupo de 16 cientistas escreve uma carta na revista científica Science pedindo uma nova investigação sobre a origem do Sars-Cov-2 para prevenir uma nova pandemia. O presidente dos EUA, Joe Biden, endossa a solicitação.

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas