Novo tempo? 11 especialistas no Brasil e exterior refletem sobre o futuro; veja

agenda bahia
30.10.2021, 05:08:00
(Karine Oliveira e David A. Wilson durante gravação do programa (foto: Arisson Marinho))

Novo tempo? 11 especialistas no Brasil e exterior refletem sobre o futuro; veja

Agenda Bahia - Diálogo entre especialistas de diversas áreas desenha como será o mundo nos próximos anos

O programa do Agenda Bahia Tempo 21 contou com 11 participantes, cada um especialista em uma área. Eles defenderam suas ideias e interagiram entre si, realizando um diálogo transversal, reunindo pontos de vista diversos sobre um mesmo assunto, enriquecendo o debate sobre como será o futuro pós-pandemia.

Veja quem são e o que eles disseram:

Karine Oliveira - Inclusão pelo baianês

Apaixonada por empreendedorismo e comunidades periféricas, Karine tem 27 anos e  há dois  fundou a Wakanda Educação Empreendedora. Entre os objetivos da empresa está o de  traduzir a linguagem do mundo corporativo para o vocabulário regional, fortalecendo iniciativas e a gestão de empreendimentos criados nas periferias.  Entre as principais conquistas de Karine estão a palestra no TedX, com o tema A Necessidade como Combustível para Empreender, a participação na 5º Temporada do Shark Tank Brasil - saindo como sócia da Camila Farani -, além de estar na capa da Forbes Under 30 de 2020, na edição que destacou os jovens brasileiros mais influentes, empreendedores e inovadores do ano. 

Ela apresenta várias ideias relacionadas a inclusão, diversidade e ESG  durante sua participação no Agenda Bahia 21. Ela aponta que na maioria dos casos, os empreendedores das periferias criam seus negócios por necessidade e que a linguagem rebuscada e cheia de termos em inglês acaba por inibir o progresso dessas pessoas. Segundo ela, quando esses empreendedores dominam a língua dos negócios, eles se sentem parte desse mundo e passam a se enxergar em outro patamar, podendo assim desejar impulsionar seus negócios. 

"(Ao) Traduzir se acessibiliza (a linguagem dos negócios)  e fica mais fácil entender que o empreendedorismo  é também para ‘mim’", afirmou à apresentadora do programa, a jornalista Rosana Jatobá, a quem, em bom baianês, chamou de "rainha". 


David A. Wilson - ‘A Bahia é uma gema global’

Consultor de diversidade, também é empreendedor de mídia, cineasta e fundador do thegrio.com. Em 2019, atuou como vice-presidente sênior do BET Digital nos EUA. Hoje se divide entre os EUA e a Bahia, onde mora há quase três anos. Já se considera afro-baiano-americano.  É  um dos mais respeitados especialistas em mídia negra nos EUA. Aqui no Brasil, fundou, , em parceria com Paulo Rogério Nunes, a AFAR, especializada em atrair investimentos de empreendedores negros para o país.


David defende a digitalização como oportunidades para empreendedores. "Aqueles que esperam as coisas voltarem ao normal estão comprometendo o seu futuro", afirma. 
Sobre a Bahia, diz:

"O que me fez decidir mudar definitivamente para a Bahia foi o fato de ver quantidade infinita de possibilidades de produtos, serviços e conteúdos para 118 milhões de afro-brasileiros que têm um potencial global subestimado. Acredito que esse grupo tem muito a oferecer criativa, cultural e intelectualmente. Decidi dedicar essa fase da minha vida para os brasileiros negros e para as empresas que desejam alcançá-los melhor - assim como fiz nos meu país natal".

 No programa ele ressalta a quantidade de talentos no estado, que é "o coração da cultura afro-brasileira" e que por isso, precisa ser mais procurado pelas empresas que querem se realcionar com a comunidade negra brasileira. E, se referindo aos talentos de nossa terra, diz: "Eu não penso que a imagem da Bahia deva ser transformada, acho que deve ser amplificada. A Bahia é uma gema global"


Sarah Kauss - Práticas boas e milionárias

A norte-americana é uma liderança feminina na área de produtos de consumo, com um forte histórico de lançamento de empresas, desenvolvimento de marcas de sucesso de vários milhões de dólares e na montagem de equipes de liderança sênior de alto desempenho.  É, também,  uma das vozes mais respeitadas na defesa do ESG (Meio Ambiente, Sociedade e Governança) nos negócios.  


Isso porque sua prática empresarial mostra que é possível ter um empreendimento de sucesso respeitando princípios de sustentabilidade, responsabilidade social e boas práticas de gestão. 
Afinal, Sarah construiu um negócio avaliado em mais de U$$ 100 milhões com a S’well, criando uma nova categoria no mercado, uma marca de garrafas de água reutilizáveis, que tornou a sustentabilidade mais popular, ajudando a diminuir o consumo de mais de 4 bilhões de garrafas plásticas descartáveis.  Ela a foi reconhecida pela EY Entrepreneurial Winning Woman.


Bárbara Carine Pinheiro -  Por uma Pedagogia decolonial

Bárbara Carine Soares Pinheiro se define assim:  é mãe, mulher negra cis, nordestina, professora, escritora, empresária, formada em Química pela UFBA, mestre e doutora em Ensino de Química pela (UFBA/UEFS).  Atualmente ela é professora adjunta e vice-diretora do instituto de Química da Ufba. Em 2017, pensando como seria a vida escolar da filha, idealizou a Maria Felipa e seu projeto pedagógico decolonizador,  uma nova formação pedagógica para construir o conhecimento a partir de narrativas negras, indígenas e diaspóricas.   O objetivo, afirma, é "ressignificar o espaço escolar como um espaço de diversidade, um espaço de múltiplas vivências", pontua. Ela exemplifica e diz que enquanto outras escolas celebram o descobrimento do Brasil, a Maria Felipa celebra, na mesma data, a "memória dos povos originários". 


 Ainda segundo ela, o ambiente escolar tradicional é extremamente violento para crianças pretas em comparações com as crianças brancas, que tem imagem positivada por ilustrações em livros didáticos ou em figuras de princesas estampadas em mochilas, por exemplo. Surge daí a  necessidade de se ir de encontro aos padrões  de "colonialidade  fortemente incrustados na nossa sociedade". 
"Crianças negras e crianças indígenas precisam acessar sua ancestralidade a partir de um marcador positivo para que consigam se empoderar nessa sociedade, mas é muito importante que crianças brancas acessem esses conhecimentos para que elas humanizem o outro", defende a professora. 


Marcelo Nakagawa - Diálogo sobre o empreender

Marcelo Nakagawa traz para o Agenda Bahia toda a sua experiência como professor de inovação e empreendedorismo das principais escolas de negócios do país, como Insper, FDC, FIA, UNICAMP, Fundação Vanzolini, USP, Instituto Butantan.   É colunista do portal Jota e já escreveu regularmente para a Época Negócios, Estadão PME, revista Pequenas Empresas, Grandes Negócios, Jornal Brasil Econômico e Harvard Business Review Brasil. Nakagawa foi incluindo na trilha Aprender, e dialogou com as ideias apresentadas por Bárbara Carine, fundadora da escola Maria Felipa. 


Para ele, Bárbara é um exemplo das mudanças de comportamento vivida pela sociedade, com mais empreendedorismo feminino, inovação, propósito e o olhar sobre outras realidade.  A partir daí,  ele divulga suas ideias  sobre empreendedorismo e educação. Segundo Nakagawa , atualmente aprender a empreender é uma obrigação  diante do desaparecimento do emprego formal.


Nivaldo Andrade - Espaço público deve ser reocupado
Graduado, mestre e doutor em Arquitetura e Urbanismo pela UFBA. Pós-doutorado junto à École d’Urbanisme de Paris, Université de Paris-Est, Nivaldo Andrade é professor associado da Faculdade de Arquitetura da UFBA (Faufba), onde coordena o Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da UFBA. Foi também presidente nacional do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) e secretário executivo da Federación Panamericana de Asociaciones de Arquitectos (FPAA). Em 2019, publicou pela Edufba a coleção Arquitetura Moderna na Bahia (1947-1951), em cinco volumes.  Também coordenou o Congresso Internacional de Arquitetura, que ocorreu no Brasil em julho deste ano.


Na sua participação no Agenda Bahia 21, Nivaldo Andrade  discute o tema do impacto da pandemia nas cidades e as tendências para replanejar os espaços urbanos. Ele aponta os novos desafios e as oportunidades que surgem para a arquitetura e o planejamento urbano no pós-pandemia. E defende que o período é propício para a retomada do espaço público da cidade, primeiramente pelos próprios soteropolitanos. Argumenta ainda que os imóveis abandonados do centro histórico devem ser reformados e habitados. Ele cita uma pesquisa do governo estadual que aponta para a existência de 1,5 mil imóveis desocupados na região.
"Os espaços públicos foram esvaziados. Essa é a oportunidade de o soteropolitano voltar a frequentar esses locais, voltar a estar nas áreas centrais. A cidade ideal é aquela em que todos têm a mesma oportunidade”


Demétrio Teodorov - A hora e a vez das soft skills

O futurista e estrategista Demetrio Teodorov se dedica a construir o futuro no presente. Nos últimos anos, trabalhou em estudos sobre tendências em experiências no varejo, mobilidade e, mais recentemente, no setor de alimentação. Como executivo de inovação da BRF, está à frente de projetos com a startups Aleph Farms de carne cultivada e plant-based, produto à base de plantas. Nessa edição do Agenda Bahia, Demetrio fala ainda sobre ESG no mercado corporativo, o futuro do trabalho, Figital, diversidade e as mudanças que vieram para ficar entre consumidores, no pós-pandemia. Demetrio implantou um chip NFC na mão direita para testes de interação com carro e meios de pagamento. Após ter estudado no Disney Institute e Singularity, direcionou seu pensamento para o conceito da exponencialidade e desenvolvimento de estratégias de inovação e transformação digital. 

Presente na trilha dedicada à educação, Demétrio afirma que as mudanças ocorridas no mundo são profundas, a ponto de as organizações  estarem mais interessadas em contratar trabalhadores por suas soft skills que por seus feitos acadêmicos. "Porque as soft skills trazem mais impactos que o estudo profundo de uma matéria", assegura.  Soft skills são habilidades comportamentais relacionadas à maneira como o profissional lida com o outro e consigo mesmo. Entre elas estão inteligência emocional, resiliência, comunicação, e liderança. "A gestão de relações e a criação de pontes geram mais valor e velocidade de entrega", complementa.


Felipe Castanhari - Entretenimento é forma e conteúdo

Felipe Castanhari é um dos apresentadores e youtubers mais famosos do país. Com mais de 13 milhões de inscritos em seus canais, ele já foi reconhecido como um dos jovens mais influentes do Brasil. 

No Agenda Bahia deste ano, ele traz sua visão sobre o Educar nos Novos Tempos, e fala sobre como ambiente e ferramentas digitais podem contribuir para a aprendizagem. 

Criador do Canal Nostalgia, programa no YouTube, Castanhari também está no serviço de streaming mais aclamado do mundo, a Netflix, com sua série ‘Mundo Mistério’, 
onde apresenta temas ligados às ciências e à história.

Criado em 2011, o Canal Nostalgia hoje apresenta uma múltipla grade de programação, com quadros, como ‘Programa Nostalgia’, ‘Nostalgia Ciência’, ‘Nostalgia História’, e mais outros sete. Antes de se tornar apresentador e youtuber, Felipe Castanhari trabalhou como designer gráfico.

Ele credita o sucesso de seu canal tanto ao conteúdo aprofundado dos temas apresentados quanto à forma de exibição deste conteúdo, embalado com muito entretenimento. "Sinto que o entretenimento ajuda a trazer a informação para a pessoa", afirma. 

Outro segredo exposto por ele é o tempo. Cada um dos seus vídeos demora entre 30 e 60 dias para ficar pronto. Esse tempo possibilita maior dedicação ao estudo do conteúdo, confecção do roteiro e edição do audiovisual, sempre recheado com efeitos.


Sidarta Ribeiro - O sonho constrói o futuro possível

Sonhar é a trilha de conhecimento que encerra o programa do Agenda Bahia. Ela é capitaneada pelo neurocientista, professor e escritor Sidarta Ribeiro, para quem é essencial resgatar a arte de sonhar, é essencial para construir o futuro. 


Entrevistado pela apresentadora Rosana Jatobá, ele apresenta  uma combinação surpreendente para, através dos sonhos, pensar os novos tempos, seja pela sabedoria ancestral, pelos impactos do distanciamento social na mente humana ou pela importância do dormir para criar e também construir futuros. 

´"É preciso resgatar a arte de sonhar. Sonhar é construção de futuro. Nossa sociedade está destruindo  o sonho porque o sono está em extinção", afirma. "O sonho, como construção de um futuro possível , está em risco em uma sociedade que não valoriza isso - sonho, devaneio - pois o que é valorizado é o estar engajado em alguma coisa o tempo todo", afirma. 

Quem também enviou uma pergunta para o neurocientista foi o maestro Carlos Prazeres, que dirige a Orquestra Sinfônica da Bahia (Osba).  Ele perguntou se o uso intensivo de muitas telas - celular, televisão, etc. - pode prejudicar as pessoas, especialmente crianças, que ao usar estes aparelhos, teriam dificuldades de entender e elaborar pensamentos mais complexos contidos, por exemplo, em uma sinfonia. 

Sidarta concorda com o maestro e recomenda aos pais limitar o uso de celular e o acesso à internet das crianças, bem como fazer uma curadoria para que as duas horas diárias das crianças nas telas sejam bem aproveitadas.


Raquel Biderman - Natureza exige reconexão

O debate sobre as formas de combate às mudanças climáticas precisa ir além das cidades e englobar a  produção no campo, o cuidado com as florestas e a água, o consumo consciente e sustentável, temas cada vez mais relevantes na agenda global quando o assunto é a transição para uma economia de zero emissão de carbono. Essa é a posição da vice-presidente sênior das Américas da Conservação Internacional, Rachel Biderman. 


Ela é mais uma das participantes do Agenda Bahia Tempo 21 e foi categórica ao afirmar que o Brasil está atrasado no processo de eletrificação do trânsito (uso de carros movidos a eletricidade e não a combustíveis fósseis como gasolina e diesel, entre outras mudanças). 

Debatendo o tema com Carlos Cadena-Gaitan, ex-secretário de mobilidade de Medelin (Colômbia), Rachel citou índios de uma tribo daquele país - os Huracans -, que afirmam que as pessoas das grandes cidades estão longe da natureza e, assim, longe do ritmo de suas próprias respirações. 

Rachel também dedicou parte importante de seu tempo de participação no programa para se debruçar sobre a situação da floresta amazônica que está no limite de se transformar em uma savana. Ela citou pesquisas que indicam que se a Amazônia perder  20% de sua vegetação, ela vai deixar de uma floresta tropical. E que atualmente, essa perda está em 17%. Mas ela se diz otimista e acredita que há tempo para se evitar o pior e lembra: "O equilíbrio climático do mundo depende da Amazônia". 


Carlos Cadena -  Dados são o futuro da mobilidade

"A revolução está chegando, e ela será fazer das cidades mais lentas, mais próximas do ritmo humano e que abracem o silêncio". A previsão é do ex-secretário de mobilidade da cidade de Medelin, na Colômbia, Carlos Cadena-Gaitan, que foi selecionado como um dos 21 Heróis de 2021, pela entidade Transformative Urban Mobility Initiative (TUMI), que tem  sede na Alemanha. Apesar de jovem, Carlos Cadena foi um dos líderes da transformação urbana da cidade antes conhecida por ter abrigado um dos maiores cartéis de drogas da história e pela extrema violência em uma vitrine de soluções para diversos problemas comuns a  grandes cidades em todo o mundo. 


Com olhos nos dias que virão, que caracteriza suas afirmações,  o colombiano aponta que o futuro da mobilidade depende de dados abertos que possibilitem o uso de incentivos positivos e negativos para as pessoas que transitam em uma cidade. Ele usa o termo incentivo negativo para diferenciar a ação e uma multa ou outro tipo de punição ao quem transgredir as regras. Na sua visão, quem faz o certo - usa a mobilidade ativa  (caminhar, bicicleta, skate, etc) ou veículos elétricos , por exemplo - deve ser premiado, até mesmo recebendo dinheiro ou descontos no comércio. 
Ele ressaltou, contudo, que todas essas mudanças na infraestrutura das cidades dependem, antes, de uma reforma no pensamento de gestores, planejadores, urbanistas, arquitetos e da sociedade como um todo, pois dependem de políticas públicas e investimentos. 


O programa do Agenda Bahia 21 pode ser assistido aqui 

O Agenda Bahia 2021 é uma realização do CORREIO, com patrocínio da Unipar, parceria da Braskem, apoio da Sotero Ambiental, Tronox, Jotagê Engenharia, CF Refrigeração e AJL Locadora e apoio institucional da Prefeitura Municipal de Salvador, Sistema FIEB, Sebrae, Consulado Geral dos EUA no Rio de Janeiro, Rede Bahia e GFM 90,1.


  

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas