Novos senhores de armas: discrição e ficha limpa são critérios para transporte ilegal de armamento

entre
29.11.2020, 11:00:00
Atualizado: 29.11.2020, 11:13:26
(Arte: Axel Hegouet/CORREIO)

Novos senhores de armas: discrição e ficha limpa são critérios para transporte ilegal de armamento

Mulheres, idosos e pessoas sem passagem pela polícia vêm sendo aliciados

Em momentos como o que vivemos, o jornalismo sério ganha ainda mais relevância. Precisamos um do outro para atravessar essa tempestade. Se puder, apoie nosso trabalho e assine o Jornal Correio por apenas R$ 5,94/mês.

A viagem é longa. A mala, no bagageiro de um ônibus clandestino, transporta uma carga especial, avaliada em R$ 500 mil. Se houver uma emergência, está tudo lá, embalado e quase pronto para uso: munição, carregadores e um arsenal novinho em folha. São 26 pistolas semiautomáticas e dois fuzis 556 de fabricação norte-americana, pesando cerca de três quilos cada um e com um alcance de quase 800 metros. Mas, se precisar disparar um tiro, o responsável pela encomenda, provavelmente, estará em apuros.  

Foi-se o tempo em que os transportadores de armamento no Brasil eram donos de longas fichas criminais. Nos últimos anos, o crime organizado tem apostado em outro perfil para a missão: homens sem passagens pela polícia, mulheres e idosos, também sem ficha criminal - como as três pessoas que foram presas esta semana com pistolas e fuzis na Bahia.

Os pontos de circulação de armas não se restringem mais aos estados com fronteira para outros países. E saber manusear a arma não é pré-requisito para fazê-la chegar às mãos de traficantes de drogas ou assaltantes de banco. A maior qualidade, nesses casos, é a discrição - para dificultar o trabalho da polícia.

“Quem trazia essas armas eram pessoas de alta periculosidade, com ficha extensa. De uns cinco anos para cá, eles têm mudado o perfil. Aliciam mulheres, pessoas idosas ou que estejam precisando de dinheiro e, por pouco valor, essas pessoas, com ficha limpa, aceitam transportar as armas”, explica o chefe de Operações Especializadas da Polícia Rodoviária Federal na Bahia (PRF), inspetor Jader Ribeiro.

Mesmo assim, o número de apreensões pela PRF-BA de janeiro a 25 de novembro deste ano foi 103% maior do que no mesmo período do ano passado. Para isso, a PRF tem organizado um calendário de operações e usado cães farejadores - três por local de operação.

Se não forem apreendidas, as armas podem ter uma longa vida útil nas mãos do crime organizado. Uma vez interceptadas, têm dois destinos possíveis: são destruídas pelo Exército ou vão para a polícia - se as armas forem compatíveis com as usadas pelas forças de segurança.

Até lá, o armamento apreendido fica nas mãos da Polícia Judiciária, em bunkers cujo endereço, por motivos óbvios, é sigiloso. Para o gerente de advocacy do Instituto Sou da Paz, Felippe Angeli, é importante que as investigações apontem a origem dessas armas.

“O que a gente percebe na prática é que a maior parte dessas armas são velhas e é uma parte muito menor que pode ir para a polícia. A demora nessa decisão se vai ou não para a polícia acaba aumentando o armazenamento, que favorece o roubo dessas armas”, diz.

Ele chama atenção para o fato de que, com mais armas circulando, cresce também o número de homicídios. “Havia uma tendência de queda desde 2017 e em 2020 houve aumento, mesmo com a pandemia”, afirma.

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas